Este texto ha obtenido Mención de honor de la sección Ideas del Concurso Cambio Climático: Ideas y miradas desde Iberoamérica
A cana-de-açúcar é uma cultura extremamente dependente de água. Para que possa desempenhar suas funções básicas, necessita de uma precipitação incidente que varia entre 1.500 e 2.500 mm ano‾¹. Esse valor é calculado a partir da quantidade de água perdida no sistema solo-planta pela evapotranspiração da cultura, que considera fatores variáveis como o ciclo de produção (cana planta ou soca), a temperatura do local, a variedade da planta, a área foliar do canavial, as características do solo etc.
Esses fatores são determinantes para que se estabeleça se uma cultura necessita de irrigação para que seu potencial genético seja plenamente explorado. No caso do Estado de São Paulo, Smeets et al (2008) calcularam que a evapotranspiração da cana-de-açúcar, num arranjo com as variedades mais utilizadas, a temperatura média e os principais tipos de solo ocupados, é de 1.657 mm ano‾¹. Segundo os autores, nesse cenário não haveria razão para se esperar que a cana-de-açúcar venha a necessitar de irrigação no Estado nos próximos anos, visto que precipitação anual nas áreas de plantio é de 2.140 mm.
Não obstante, há alguns problemas com a previsão traçada pelos autores. Um deles é que a precipitação média na área do Estado é menor do que a apresentada nos locais atualmente ocupados pela cultura, sendo de 1.377 mm ano‾¹. Além disso, as condições de temperatura e de estresse hídrico são extremamente variáveis dentro do território. Como demonstra Brunini (2009), as características climáticas de mais 30% do Estado fazem com que a restrição hídrica nas áreas de expansão da cana-de-açúcar varie de alta a moderada.

Restrição hídrica em áreas de expansão da cana-de-açúcar.
Fonte: Brunini (2009).
Desse modo, a situação atual, na qual a cana-de-açúcar praticamente não é irrigada, tende a mudar conforme a cultura avançar sobre áreas de restrição hídrica e a medida em que ocorrem mudanças globais no clima. Como indica o autor, a irrigação, a partir de critérios estritamente econômicos, é justificável para canaviais localizados no Norte de São Paulo, devido aos ganhos gerados pelo aumento de produtividade. Com isso, o consumo tende a crescer em áreas que já apresentam problemas de deficiência hídrica.
Mesmo sem a irrigação, o volume de água utilizado pela cana-de-açúcar já pode ser considerado bastante elevado no Estado. Sua necessidade hídrica é cerca de três vezes a da soja (450 a 850 mm ciclo‾¹) e quase o dobro do consumo do café e do eucalipto (800 a 1.200 mm ano‾¹). De sorte que essa é uma cultura capaz de produzir um impacto muito superior no balanço hídrico de um território do que aquelas plantas que são tradicionalmente conhecidas como grandes consumidoras de água.
Com o aumento global da temperatura, há uma tendência de aumento na taxa de evapotranspiração nos locais de plantio da cana-de-açúcar. De maneira que ainda é possível que nos locais atualmente não irrigados, seja necessária a irrigação em um futuro não muito distante. Com isso, haveria uma enorme pressão sobre um daqueles recursos que serão mais gravemente afetados pelas mudanças climáticas. A água doce poderá ter sua disponibilidade reduzida em razão das transformações causadas no ciclo hidrológico pelo aumento na temperatura, criando conflitos socioambientais.
No entanto, como se bastasse o fato da cana-de-açúcar ser uma das culturas paulistas mais influenciada pelas mudanças climáticas, ela ainda é uma das que mais afetam o clima no Estado. A queima da planta para a colheita, prática realizada em mais de 40% da área colhida em São Paulo em 2008, tem forte impacto climático. Ela está relacionada ao aumento de temperatura do solo, o que reduz a umidade natural do meio, causada por falta de matéria orgânica.
Além disso, a queimada da cana-de-açúcar é também reconhecida como uma das principais fontes de poluição por partículas de aerossóis no Estado. Esse material particulado em nível atmosférico afeta o núcleo de condensação das massas de chuvas, o que aumenta o efeito albedo das nuvens e reduz as taxas de precipitação, causando mudanças no ciclo hidrológico territorial.
Lara et al. (2005), em estudo no município de Piracicaba, observaram que, durante o período da queima da cana-de-açúcar, o total de material particulado suspenso de diâmetro menor que 10 µm foi muito superior ao encontrado fora da época da colheita: 91 µg m‾³ para o primeiro caso e 34 µg m‾³ para o segundo. Em Araraquara, Allen, Cardoso e Rocha (2004) encontraram concentrações de até 240 µg m‾³ durante as queimadas. Esse valor está muito acima do padrão estabelecido pela Resolução do Conama n°. 03, de 28 de junho de 1990, e pelo Decreto Estadual n°. 8468, de 08 de setembro de 1976, que definem como limite para as partículas inaláveis o total de 150 µg m‾³ no Brasil.
Apesar de todos esses fatores adversos, as justificativas para a queima dos canaviais se resumem a duas questões: maior produtividade na colheita manual e redução do risco de acidentes trabalhistas com cortadores. Com a queimada, a produtividade média de corte da cana-de-açúcar é estimada em 7,4 t por homem a cada dia trabalhado. Sem a queimada, avalia-se que seja de 3,3 t. Além disso, em algumas áreas, há casos de trabalhadores rurais que se negaram a fazer a colheita devido ao risco de ataques por animais de peçonha.
Para tentar reverter os efeitos negativos gerados pela queima da cana-de-açúcar sobre o clima e a saúde da população, as autoridades paulistas têm dado incentivos aos produtores para mecanizem sua colheitas. Segundo a Lei Estadual n° 11.241, de 19 de setembro de 2002, o prazo para erradicação das queimadas da cana-de-açúcar em áreas mecanizáveis, com menos de 12% de inclinação, é o ano de 2021. Para as áreas não mecanizáveis o prazo se estende até 2031. Agora, surge um dilema a ser confrontado: Será que o prazo estabelecido pelos agentes governamentais não está muito aquém das necessidades de redução de impacto nas mudanças climáticas?
Parece premente a questão do clima. Mas com a mecanização, como ficam os trabalhadores rurais? O aumento de um 1% na área mecanizada representa a redução de 2.700 empregos em São Paulo. Resta saber se vale a pena a manutenção de uma cultura intensiva no consumo de água e que gerará poucos empregos.
BIBLIOGRAFIA
ALLEN, A.G.; CARDOSO, A.A.; ROCHA, G.O. Influence of sugarcane burning on aerosol soluble ion composition in Southeastern Brazil. Atmospheric Environment, v. 38, n. 30, p. 5025-5038, 2004.
BRUNINI, O. O zoneamento de culturas bioenergéticas no Estado de São Paulo. Disponível em: <http://www. infobibos.com/>. Acesso em 24 de junho de 2009.
LARA, L.L. et al. Properties of aerosols from sugarcane burning emissions in Southeastern Brazil. Atmospheric Environment, v. 39, n. 26, p. 4627-4637, 2005.
SMEETS, E. et al. The sustainability of Brazilian ethanol – An assessment of the possibilities of certified production. Biomass and Bioenergy, v. 32, n.8, p. 781-813, 2008.