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Boletim Nº 103

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A crise da água: Um problema tão grave quanto o da mudança climática

Os meios de comunicação internacionais estão ecoando a gravíssima crise hídrica que vem sofrendo a região metropolitana de São Paulo, a mais desenvolvida do Brasil, onde vivem cerca de 22 milhões de pessoas e é produzido um quarto do PIB do país. A agricultura e a indústria prevêem perdas milionárias e são anunciados cortes de água de até cinco dias por semana para as residências. Existe o risco de que todo o sistema hídrico da região entre em colapso e já fala-se de desastre natural, causado pela falta de chuva.

É necessário, no entanto, questionar estas idéias equivocadas de desastre "natural" e problema exclusivamente regional. A redução do índice pluviométrico útil, capaz de recarregar os aqüíferos, não é um fenômeno inesperado e inexplicável, mas uma catástrofe anunciada há anos, tanto para o sudeste do Brasil, como para muitas outras regiões do planeta. Na verdade, muitos países estão sofrendo ultimamente secas excepcionais e/ou chuvas torrenciais, ambas causando perdas dramáticas. Numerosos estudos científicos têm explicado as causas do aumento destes fenômenos extremos e proposto ações corretivas, embora interesses particulares de curto prazo tenham impedido até aqui de se tomar as medidas necessárias, com o qual se corre o perigo do processo de degradação tornar-se irreversível.

É bem conhecido, em particular, o papel que as emissões de gases de efeito estufa estão jogando sobre uma mudança climática que, além do aquecimento global, provoca alterações no ciclo de chuvas e aumento da freqüência e intensidade dos fenômenos atmosféricos extremos. Porém, secas como a que padece hoje o sudeste do Brasil não são uma mera conseqüência das emissões de CO2 no planeta: são também resultado de outras ações predatórias, como o desmatamento brutal da Amazônia, que agem diretamente sobre as chuvas na região, e contribuem significativamente para a perturbação do clima. Antonio Donato Nobre, membro do "Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia" brasileiro, reconhecido mundialmente como o maior especialista em sistemas amazônicos, acaba de publicar o relatório científico "O Futuro Climático da Amazônia", no qual explica o processo de formação na selva amazônica de autênticos rios de vapor de água, resultantes da evapotranspiração da massa florestal, os quais colidem na Cordilheira dos Andes e terminam desaguando em São Paulo e muitos outros lugares. A parte mais importante do relatório -para o qual Nobre teve em conta os resultados de mais de 200 trabalhos científicos- é o que trata do sério risco de um colapso total e rápido do sistema Amazônico para evoluir para uma savana, provocando a desertificação da região mais rica da América Latina. Isso implicaria o desmoronamento do sistema econômico, o empobrecimento da população, fome, conflitos sociais, violência em grande escala, abandono das cidades e caos generalizado. Portanto, Nobre diz: "o tempo terminou". Não sabe se já não se ultrapassou o ponto de retorno, mas sim que "a situação é terminal" e que não e possível se cortar mais uma árvore.

A atual falta de água em São Paulo é apenas uma antecipação da catástrofe planetária que assistiremos nos próximos anos, se não mudarmos os nossos modos de vida e de organização social, orientadas hoje pela busca de benefícios individuais de curto prazo. A proteção de áreas naturais é uma condição imprescindível, pois a qualidade e quantidade das águas produzidas dependem da manutenção da vegetação nativa.Todavia, não basta interromper já a degradação: é preciso, como exige Nobre, um "esforço de guerra" para, entre outras ações, replantar e restaurar florestas em todo o país e, em particular, a floresta amazônica. É necessário também adotar medidas tais como a reciclagem de água, evitar o desperdício habitual tanto de indivíduos como de empresas, bem como as enormes perdas que ocorrem nos circuitos de transporte, etc.

As medidas necessárias para impedir a sede do planeta são conhecidas e exigem ação responsável de cidadania (ver Nova Cultura da Água), porque o acesso à água é um direito humano... do qual não desfruta plenamente boa parte da humanidade: não podemos esquecer que, de acordo com dados das NU, cerca de 800 milhões de pessoas vivem sem água potável no mundo e que morrem todos os dias 2.000 crianças por beberem água contaminada. Não podemos ignorar os perigos graves da crise hídrica afetar toda a humanidade.

A celebração a cada 22 de março do Dia Mundial da Água, instituído em 1993, é um chamado aos educadores, políticos e todos os cidadãos em defesa de um bem que é essencial para a vida. Referimo-nos, como uma contribuição a este apelo, a duas das muitas iniciativas com as quais a cidadania está respondendo à situação de emergência que está se vivendo em São Paulo. Iniciativas as quais convém divulgar, promover e generalizar.

Destacaremos, por um lado, a criação da "Aliança pela Água", uma rede formada por mais de 40 organizações da sociedade civil, reunidas desde outubro de 2014 para apresentar propostas que ajudem o Estado de São Paulo a lidar com a crise atual e construir uma nova cultura da água. Com este propósito, a Aliança elaborou e divulgou o documento “Chamado à Ação sobre a Crise Hídrica: por um Plano de Emergência para o Estado de SP”. O texto argumenta que "uma crise de grande proporções como a que estamos vivendo cria oportunidades para mudanças profundas no paradigma da gestão da água" a partir de princípios básicos como "o acesso à água é um direito humano e não pode ser tratado como uma mercadoria". Um princípio que já levou a cidades como Paris, Berlim e Buenos Aires a municipalizar novamente a gestão da água, revertendo sua privatização.

Também merece ser destacada a criação em São Paulo de um fórum de pesquisadores e professores para promover investigações conjuntas, desenvolver tecnologias e reivindicar informações confiáveis do poder público sobre a situação. Os reitores das universidades públicas têm divulgado o documento de criação do fórum e propuseram a existência de um modelo de atuação semelhante ao IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). Uma iniciativa que deve ser recolhida em todo o mundo, como parte de uma forte reação à situação de emergência planetária, em que a crise hídrica e mudanças climáticas potenciam-se mutuamente, juntamente com outros problemas graves -desde uma contaminação sem fronteiras a desigualdades extremas- aos quais temos de enfrentar e lutar juntos.

Educadores pela Sustentabilidade
Boletíim Nº 103, 22 de março de 2015
http://www.oei.es/decada/boletin103.php
Dia Mundial da Água

 

 

 





 


 


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