A educação tecnológica é muito mais que pura técnica!

Walter Antonio Bazzo - Professor da UFSC
Engenheiro Mecânico - Doutor em Educação
Coordenador do NEPET e colaborador da OEI

Sou um professor de engenharia que transita na área da educação tecnológica. Por isso, nos últimos tempos, tenho me dedicado na minha instituição - UFSC - e também junto aos programas desenvolvidos pela OEI a pesquisar a intricada relação entre ciência, tecnologia e sociedade. Os tempos atuais nos apontam inúmeras mazelas e benesses que os processos e aparatos tecnológicos nos infligem. E parece que a educação tecnológica continua deitada no seu berço esplêndido, apenas destacando o mito de que "mais desenvolvimento tecnológico" significa "mais desenvolvimento humano". É nisso que quero me prender neste pequeno artigo de opinião destacando que tal aspecto continua, equivocadamente, sendo lugar comum, principalmente nas escolas tecnológicas brasileiras.

No dia 25 de novembro de 2009 estive em Campinas (SP) para participar do I Foro Iberoamericano de Comunicação e Divulgação Científica (realizado pela OEI, AECID, FECYT, UNICAMP, CSIC e ECYT), a convite da OEI. Lá tive a satisfação de reconfirmar que esta minha preocupação vem sendo corroborada por inúmeros pesquisadores da área, aflitos com as questões contemporâneas que nos desafiam ao trabalhar o conhecimento com nossos alunos e com nossos pares que vislumbram a ciência e a tecnologia como construtos sociais e, por isso, voltados verdadeiramente ao desenvolvimento humano.

Que materiais preciosos em termos epistemológicos e didáticos a OEI tem disponibilizado aos professores e alunos dos países iberoamericanos… Eles são claros, objetivos e eivados de significados da vida. Ficou evidente, naquele fórum, a necessidade de novas abordagens onde a reflexão científica e tecnológica necessita, de forma crescente, dos valores humanos cada vez mais afastados dos verdadeiros objetivos de uma sociedade marcada pela competição e pelo lucro, para aqueles que detêm a ferramenta mais potente que é o conhecimento. Mas falar sobre isso é dispensável, já que nossos leitores têm possibilidade de comprovar tais aspectos ao acessarem os materiais disponibilizados no site da OEI.

Quero me prender, nesta rápida análise, ao lugar comum que emerge principalmente entre os estudantes e professores das áreas tecnológicas. Nesses debates sempre surge, em função de um paradigma arraigado secularmente nas escolas tecnológicas, a técnica, preponderante, majestosa, e colocado em sua premissa que somente ela pode trazer o verdadeiro desenvolvimento humano. Por isso, é a partir deste marco temporal - mas que ocorre quase sempre quando tais questões vêm à tona - quero chamar atenção aos diálogos que geralmente são tachados de "filosóficos" e portanto dispensáveis quando se fala em eficiência e lucro. Afinal, nestes ambientes existem "experts" de todos os matizes que respiram as mais divergentes epistemologias e ideologias, e por isso as diferenças. Mas na qualidade de professores e pesquisadores destas questões, temos a obrigação de nos preocuparmos com a nossa verdadeira razão de ser: a condição do homem na sociedade contemporânea. E isso já nos leva a filosofar cotidianamente. Ou será que ainda existe alguém que coloca o conhecimento como área estanque, abarrotando os containers herméticos dos vários campos de especialização?

Não preciso dizer que fomos longe nestas tratativas durante este e outros eventos. Não conseguimos estabelecer um diálogo muito igualitário, reconheço. Os motivos são óbvios. Muitos dos que precisavam estar nestes debates continuavam aplicando suas destrezas, seus conhecimentos na busca de novos aparatos tecnológicos em seus laboratórios seguindo os ditames estabelecidos pela "competividade" de construir inovações para resolver os verdadeiros problemas do aprimorar das técnicas. E dentro deste tratamento linear do construir por construir onde estavam as questões humanas? As ecológicas? As sociais? Quando discutir? Onde? Por quê? Ainda existe esta dissociação. Infelizmente. Mas o dialógo prossegue e ganha adeptos.

Tanto que produz infindáveis reflexões entre a educação, a tecnologia e a sociedade. Muita responsabilidade, reconheço, mas temos que aceitar como desafio para poder refletir junto aos mais diferentes profissionais de todas as áreas a intrincada relação entre as nossas responsabilidades de técnicos e cidadãos.

Diante desse quadro, partimos de um marco preliminar apontando as necessidades atuais em termos desta perspectiva: lidar com maior reflexão e análise as configurações de uma ideia fundada na crença de uma única via - a tecnologia de base positivista, absoluta, inquestionável e isenta de fatores negativos - no desenvolvimento social. Depois disso, através desses encontros proporcionados por estes eventos e pela disponibilidade de material reflexivo produzido pelos especialistas que trabalham com a OEI, entender e atuar na possibilidade de como os futuros profissionais em formação - e também todos no exercício de sua profissão - poderão ser capazes de avaliar: (1) o impacto de suas atividades no contexto social; (2) a viabilidade de atitudes que possam expandir as benesses da tecnologia para todos os setores da sociedade. Além disso, (3) compreender e aplicar a ética e a responsabilidade profissional, com lugar pleno para o exercício do pensamento filosófico.

Precisamos refletir, nesse alucinante movimento de promovermos o desenvolvimento tecnológico, para onde estamos indo. Estamos tornando descartáveis, com uma rapidez desmedida, as máquinas digitais, os processos tecnológicos e até nossos sonhos de vida. Será que nós seres humanos, através das ações educacionais disponibilizadas para nossa formação e atuação profissional, não estamos transportando irresponsavelmente a mesma velocidade exigida pela sociedade do consumo exacerbado e da criação de necessidades superficiais e ilusórias para a formação de nossos futuros engenheiros, médicos, pedagogos, filósofos…?

São estas questões que estão permeando nossas reflexões sempre e continuamente com estas tentativas constantes de produção de material didático, discussões e formação do ser humano contemporâneo.

Na constante preocupação e na procura de que isso continue a tomar lugar nas reflexões dos professores e alunos das mais diversas cepas, reforçamos nossas indagações: o formador de filósofos, engenheiros, médicos, literatos, pesquisadores… deve apenas ser um bom repassador de técnicas e conteúdos para suprir a sociedade do consumo e do espetáculo? É essa formação que ele deve perseguir com seus alunos?

A minha resposta é um contundente não! Por isso a intenção de participar sempre deste contínuo debate que estes nossos projetos junto a OEI perseguem. Eles continuam similares aos questionamentos que venho fazendo há anos. Trazem à cena as inquietações derivadas agora também dos cursos tecnológicos que se multiplicam pelo Brasil. Reforçam a busca por mudanças nas nossas ações em sala de aula que, sempre pela inexorável rapidez da mudança tecnológica, na maioria das vezes continuam a esquecer de imbricar a reflexão à técnica, as situações da vida prática aos conteúdos, e o desenvolvimento humano ao desenvolvimento tecnológico.

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