Catástrofes naturais

Por Carlos Vogt

Em junho de 1999 viajei para Macau - ainda possessão portuguesa e que seria devolvida à China na virada para o século XXI, obedecendo a acordo entre os dois países – para participar do IV Congresso Internacional de Jornalismo de Língua Portuguesa. Após uma viagem longuíssima, pela distância e pelas escalas de madrugadas intermináveis em Zurich e Bangkok, chegamos ao aeroporto e fomos recebidos por um calor úmido que denunciava a proximidade do oceano. Perto dos carros estacionados, um grupo de taxistas que conversavam animados e, de perto deles, destacou-se uma mulher que parecia ser – talvez pela nossa percepção formada em outras plagas e abalada pelo cansaço – uma carregadora. Ela se aproximou de nós e, com gestos, indicou que levaria nossa bagagem até o carro, o que efetivamente fez, sempre com gestos bastante ansiosos. Acomodando rapidamente as malas no carro, ela nos indicou as portas traseiras e, para nossa surpresa, sentou ao volante e arrancou já com uma velocidade maior que a esperada. Ela ria e gesticulava muito e não falava, absolutamente, nenhuma palavra nem em inglês, nem em português e nem em outra língua que conseguíssemos entender. O carro velho, o trânsito intenso e enormes arranha-céus onde, saberíamos mais tarde, funcionavam muitos cassinos, criavam um cenário onde poderia estar sendo filmada a continuação de Blade Runner , filme antológico de Ridley Scott. Fomos salvos por uma comunicação puramente gestual e por um mapa, impresso dias antes em casa após consulta à internet, que indicava a localização do hotel. Na manhã seguinte, como numa continuação do filme, fomos surpreendidos pela informação que não poderíamos sair do hotel porque havia um ciclone tropical na costa e que as portas e janelas estavam lacradas, provocando-nos aquela sensação de estranhamento aflito frente a situações inesperadas e desconhecidas.

Mais de dez anos depois, ainda guardo a sensação de impotência ante a força e a implacabilidade de um evento natural que, felizmente, não provocou nenhuma catástrofe. Ao contrário, deixou a viagem até mais interessante, aproximando as pessoas e marcando, com um vento forte e quente, a lembrança de um lugar tão parecido e tão diferente de outras costas “portuguesas”.

Nossa relação com os fenômenos naturais passam pelo medo, pelo respeito, pela admiração da beleza, pela dor da perda de pessoas e de lares, pelo escancaramento da fragilidade humana, pelo questionamento dos mistérios da vida, pela procura de soluções, pela explicação científica ou religiosa. De uma forma ou de outra, nos abalam profunda e definitivamente.

Vários rituais, lendas e mitos que se perpetuam pelos séculos nasceram dessa relação do homem com esses eventos, em particular os mais catastróficos. Os livros sagrados de várias religiões relatam histórias de “milagres”, chuvas de fogo, dilúvios, pragas destruidoras que parecem ser descrição de raios, terremotos, maremotos, erupções de vulcões. Descrevem também as consequências, físicas e psicológicas, de frágeis humanos atingidos pela fúria dos deuses que se manifestam usando a força da natureza.

Opostos que se apresentam sempre que há vida: fragilidade e força, beleza e horror, necessidade e prazer nos atraem para perto dos fenômenos naturais, produzindo comportamentos nem sempre de explicação simples e nunca pela simples curiosidade, como dos exploradores que arriscam a vida para estar perto de lavas de vulcão e pessoas que se recusam a abandonar um determinado local mesmo diante de perigo iminente.

Belíssimas fotos, em especial depois que foram colocados em órbita os satélites, mostram fumaças, crateras, marcas no corpo da Terra, que “não estava nua e, sim, coberta de nuvens” no belo verso da canção de Caetano Veloso. Imagens impressionantes do nosso belo e terrível planeta, por onde nos espalhamos procurando um lugar que nos dê abrigo afetivo e material, criando os laços com o local que, sendo especial, paradoxalmente, parece ser independente do planeta, o global.

Talvez um dos benefícios da globalização e da circulação da informação com o alcance e a rapidez das últimas décadas, seja a intensificação do sentimento de pertencermos a uma comunidade global que é atingida – prejudicada ou apoiada – pela ação local. Com exceção de membros de algumas correntes religiosas ou filosóficas, no decorrer da história da humanidade essa noção de ser parte de um todo é algo que se estabelece em várias sociedades mais recentemente, influenciando, inclusive, a economia, no sentido que a interrelação governo-empresas-sociedade passa a ter novos paradigmas que, com diferentes graus de comprometimento, tem um norte preservacionista, o que acaba nos despertando uma crença mais otimista na humanidade.

Nos últimos anos, cada vez mais e, em particular, depois da divulgação dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) demonstrando o impacto da ação humana sobre o meio ambiente, parece ter se estabelecido um sentimento bastante amplo de que se não mudarmos a atitude, em relação ao planeta e aos outros seres, vamos ser, cada vez mais, atingidos por eventos naturais crescentemente mais destrutivos. Mesmo sem ter a medida exata, sabemos que a ação predatória do homem em relação à natureza, no mínimo, acentuou a ocorrência de catástrofes naturais, o que é difícil de ser negado até mesmo pelos que defendem a teoria evolutiva que considera pouco importante a ação do homem num planeta que se mexe e se acomoda desde sempre e para sempre.

Hoje, olhamos para as catástrofes naturais, não só com as lentes de máquinas fotográficas que registram a beleza deslumbrante da erupção de um vulcão ou o horror da morte de populações inteiras, mas com uma postura de pensar em soluções que aumentem a proteção à vida dos seres vivos, no presente, e previnam a ocorrência de eventos que comprometam irremediavelmente nosso futuro. Compreender o meio ambiente e os habitantes do planeta – mesmo os microorganismos e não só pela noção de interdependência entre os seres – e adotar o princípio da sustentabilidade da vida são fatores de sobrevivência para a humanidade.

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