Brasília e os dois labirintos

Por Carlos Vogt

A última vez que vi Brasília, pela primeira vez, eu não estava lá. Estava por aqui, em São Paulo, na capital. Mais precisamente, na Rua São Bento, no centro velho da cidade, quem sabe para fazer, inconsciente, contraste com a Novacap que se inaugurava.

Quer dizer, o presidente JK inaugurava, Brasília, acompanhado de Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Israel Pinheiro e outros tantos e tantos outros, notáveis, notórios e anônimos que foram ajudando a empurrar o canteiro de obras para transformá-lo em cidade, em urbe e a povoá-la com 2,5 milhões de habitantes físicos, espirituais e políticos que hoje preenchem o seu censo populacional.

Vi Brasília num exemplar d'O Estadão que, acho, ainda se chamava só O Estado de S. Paulo : nas fotos, nas matérias, nas reportagens, nos artigos e editoriais, as descrições, as narrativas, a saga dos pioneiros, a transformação do cerrado em concreto alado e das asas do plano piloto no vôo de lançamento do país plantando-se no centro do descampado verde como um esquadrinhamento, uma geometrização de um labirinto já existente, pressuposto, só que aberto em vez de fechado.

Tinha 17 anos e estava em frente ao cursinho Castelões onde me preparava para os vestibulares de letras, na USP, Maria Antônia, e de direito, no Largo São Francisco. Brasília estava sendo inaugurada e nessa inauguração eu estava, a quilômetros de distância.

Anos depois desse 21 de abril de 1960, já professor na Unicamp, estive em Brasília pela segunda vez, agora sim de perto, para participar da Reunião Anual da SBPC, de 1976, se não estiver enganado, convidado pelo professor Paulo Sérgio Pinheiro a participar, como expositor, de uma mesa redonda sobre universalismo e relativismo cultural.

Tratei do tema do ponto de vista da linguagem e de diferentes teorias linguísticas em oposição, trazendo, assim, para o debate opiniões opostas de ensaístas, escritores, filósofos e estudiosos do assunto.

Eu mesmo, na época, tendia mais para um certo relativismo, embora tivesse sempre fascinação pelas soluções universalistas que a lógica e a linguística ajudavam as ciências humanas a formular.

Gravei a relatividade da oposição na escolha da epígrafe para o texto que preparei. Escolhi um trecho de “Os dois reis e os dois labirintos”, de Jorge Luis Borges e com isso me dei conta de que uma das motivações de meu artigo era também e, fortemente, o fato de sua apresentação se dar em Brasília, cidade universalmente provisória, ou ao revés, provisoriamente universal que lá no meio do deserto da modernidade plantava a desertificação do moderno e a sua superação pelo contemporâneo.

Me dei conta mais tarde que a escolha da epígrafe, que orientava o texto de minha exposição, orientava também, sem que eu ainda soubesse, as sensações de alegria e tristeza, de eufórica melancolia que, adolescente, eu experimentara, participando da cidade nova, vista do centro da cidade antiga.

Como não consegui, com os anos, livrar-me da imagem de Brasília ligada, não sei por que acrobacia do espírito, aos dois labirintos de Borges, deixo ao leitor a escolha de passear por um, por outro, por ambos, por todos, e neles se achar ou se perder, como uma metáfora de lucidez sobre a periodicidade do eterno e sobre a eternidade do efêmero:

“Oh rei do tempo e substância e símbolo do século, na Babilônia quiseste-me perder em um labirinto de bronze cheio de escadas, portas e muros; agora o Poderoso achou por bem que eu te mostre o meu labirinto, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te impeçam os passos.
Desatou-lhe, em seguida, as amarras e o abandonou no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede”

 

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