A banalização do banal

Por Carlos Vogt

Entre os muitos sinais de que o novo, no modernismo, trazia já, em si, os elementos de sua superação, um deles pode ser destacado, até porque é emitido de um lugar, de um topos cultural, menos esperado, mais discreto talvez e por isso, quem sabe, mais surpreendente.

Ele vem da linguística e de sua concepção tal como proposta no Curso de linguística geral, publicado em 1905 por obra de discípulos do mestre suíço, Ferdinand Saussure, reunindo em livro aulas, palestras e conferências que o autor, ele próprio, não teve tempo, em vida, de organizar.

E aqui vai o sinal de uma primeira ausência: Saussure é autor de um livro que ele não escreveu mas cujas ideias revolucionaram os estudos da linguagem humana e de todos os sistemas de signos. Daí que, ao fundar a linguística moderna, Saussure funda também a semiologia e lança as bases para os estudos de todos os sistemas de significantes em qualquer tipo de linguagem, tendo como princípio de sua organização a função comunicativa.

A segunda ausência, esta agora parte integrante e constitutiva da teoria, diz respeito à noção de valor do signo linguístico. Para Saussure, o valor do signo linguístico é relacional, não é uma coisa em si, não é uma substância. É na relação de um signo com outros, dentro do sistema a que ele pertence, que ele vale por alguma coisa que ele representa, mas que ele não é.

Desenha-se aqui, como consequência dessa noção relacional do valor do signo, o princípio de classificação e de organização dos fenômenos de comunicação, princípio que domina todo o estruturalismo, do ponto de vista teórico e metodológico, e que consiste em procurar estabelecer as regras de funcionamento de um dado sistema de significações pela estrutura das relações de oposição entre os elementos significantes que integram o referido sistema.

A linguística tem como objeto explicar como se dá a relação som/sentido, isto é, como uma cadeia material de sonoridades com propriedades mecânicas e físicas específicas produz sentidos e significados cuja natureza é imaterial, sem nenhuma relação de motivação necessária entre um nível e o outro.

O fenômeno da significação da linguagem humana e de todos os sistemas semiológicos é, assim, explicado negativamente, por uma ausência: a de ser o que ele não é. Isto é, para que a linguagem realize plenamente a sua função maior, que é a comunicação, ela nega sua materialidade física e afirma a imaterialidade do que ela significa nos atos de fala e de enunciação que entrelaçam a comunidade dos falantes numa rede de reconhecimentos e de estranhamentos que formam a dinâmica da vida em sociedade. Portanto, a linguagem é, para forçar o paradoxo, o que ela não é.

Essa visão negativa, relacional, da linguagem e da comunicação será fortalecida, ainda mais, com o advento da informática, da internet e da rede mundial de computadores e de seus vários produtos sociais como o são, entre outros, os sites, os blogs e o Twitter.  

Com eles ganha força o conceito de rede social, sobretudo com as últimas formas de organização da comunicação rápida, veloz e instantânea, baseada numa limitação cada vez maior do número de caracteres a serem utilizados pelos adeptos, em número crescente no mundo todo, dessa nova espécie de tribalismo virtual.

Com o processo de semiotização da vida social no mundo contemporâneo, ─ processo caracterizado pela substituição da coisa pela sua representação, isto é, pela sua imagem, pelo seu signo e no qual as tecnologias de informação e comunicação, as TICs, têm um papel fundamental ─, vem se constituindo também uma espécie de nova metafísica, uma metafísica não do ser, mas de seu simulacro, não do mundo real e das ideias de sua concepção, mas da virtualidade da forma de suas apresentações. Breve, uma metafísica da imagem.

Associe-se a isso a velocidade dos dados e informações e tem-se, com o instantaneísmo, a presentificação do tempo e do espaço feitos agora em imagens de simultaneidade que se oferecem a uma nova forma de percepção, sem perspectiva, porque sem passado, sem passado, porque sem distância, sem distância, porque sem futuro de possibilidades.

Se tudo cabe no cenário familiar da sala de jantar, da biblioteca, do escritório, da caminhada pelas ruas, da viagem de carro, de ônibus, de navio, de avião, entrando pela janela da TV, do computador, do laptop, do celular, tendemos também a estar em toda parte e em lugar nenhum, não como uma nova espécie de divindade jansenista, mas como uma ausência tecida nos intervalos dos nós que amarram a rede, feita do vazio relacional que nos constitui, no jogo dinâmico, veloz e fugaz das representações, em imagem, não do que somos ─ porque isso já não saberemos ─, mas do que somos levados a ser e logo a deixar de ser.

Um dos aspectos característicos da sociedade contemporânea, sublinhado pelo fenômeno das redes sociais, é o da banalização da privacidade, homólogo, de algum modo, ao da banalização da violência, já tão apontado, descrito e analisado como traço marcante do cotidiano de nossas vidas.

O Twitter, independente das utilizações práticas e boas que dele se podem fazer, como as que, por exemplo, permitem uma grande otimização dos serviços na administração pública, é uma consagração da banalidade e uma banalização da privacidade.

Consagra o banal porque registra para as tribos de seguidores a “planitude” infinita do sem-importância de que todos somos investidos em boa parte de nosso dia-a-dia. Acordamos, levantamos, vamos ao banheiro, escovamos os dentes, tomamos café, saímos, conversamos, trabalhamos, bebemos, comemos, vamos ao cinema, deitamos, dormimos, namoramos, e por aí vai. Não é viver que é banal. A banalização da vida é tentar fazê-la brilhar só pelo banal, erigindo-o, nas tribos, em mantras de revelação pela boca do sacerdote cuja eminência é, no momento, mais evidente, ou, o que dá no mesmo, cuja evidência é mais eminente.

Nesse sentido, é ilustrativa a mini-crônica de humor da coluna de Tutty Vasques publicada n’ O Estado de S.Paulo, caderno “Metrópole”, p. C-12, do dia 19/08/10, intitulada “Você conversa com o seu pillow?”, que abaixo transcrevo:

Se você é desses que de vez em quando vai dar umas voltinhas no Twitter e volta com a impressão de que não sabe andar nessa bicicleta, calma! Na maioria das vezes, a falta de intimidade com a linguagem das redes sociais é até louvável num ambiente sem cerimônia ou privacidade. Muita coisa que você lê ali e não entende não é mesmo da sua conta.

Quer ver só?

Dia desses, me embrenhei nas novíssimas mídias eletrônicas pra ver se aprendia a ganhar dinheiro com isso. Cheguei ao Twitter de Eike Batista já nos finalmente da conversa fiada do bilionário: “Vou bater mais um papinho com meu Pillow” ─ sem duplo sentido, por favor!

Como nunca tinha ouvido aqui no Brasil alguém chamar travesseiro de “Pillow” (ainda mais com inicial em caixa alta), resolvi pesquisar no Google a respeito. Descobri um certo Pillow Talk, travesseiros que, por meio de sensores, se comunicam a grandes distâncias, permitindo que namorados sintam a presença e até o batimento cardíaco um do outro quando dormem em cidades diferentes.

Daí a você começar a imaginar se a namorada do Eike Batista está viajando é um pulo que, sinceramente, parece coisa de maluco, né não? Sei lá se ele tem namorada, caramba!

À banalização do banal segue-se a banalização da privacidade a tal ponto que, há algum tempo atrás, foi noticiado em todo o país, por diferentes meios de comunicação, o caso do casal de jovens adolescentes que se expuseram e expuseram pelo twittcam uma relação sexual, sem outro propósito, ao que parece, se não o de tratar esse ato de grande intimidade na praça pública das trivialidades corriqueiras e das banalidades virtuais.

 Não sendo apenas isso, o que serão também as redes sociais?

 

 

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