Para Agir é Preciso Entender

Walter Antonio Bazzo Professor da UFSC
Engenheiro Mecânico, Doutor em Educação
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Coordenador do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Educação Tecnológica (NEPET)
Colaborador da OEI

A humanidade vive, mais do que nunca, sob os auspícios e domínios da ciência e da tecnologia (C&T). Isso ocorre de modo tão intenso e marcante que é comum a maioria das pessoas confiar no seu poder para resolver os problemas de qualquer natureza e ordem, tal qual aqueles que acreditam vigorosamente numa divindade. Este comportamento está tão arraigado na vida contemporânea que elas são levadas a pensar dessa maneira durante a sua permanência nos bancos escolares e, posteriormente, seguem fazendo no trato de suas profissões.

A lógica primordial do comportamento humano é a lógica da eficácia tecnológica; suas razões são as razões da ciência. As notícias do dia-a-dia exacerbam as virtudes da C&T; os produtos são vendidos calcados nas suas qualidades embasadas em depoimentos “científicos”. É uma relação estabelecida tão profundamente entre a sociedade e as máquinas que se traduz em incoerência e grave omissão as escolas das mais diferentes matizes, as associações profissionais e os cidadãos conscientes como um todo não procurarem ter uma atuação mais presente nas análises de seus resultados.

As avaliações da C&T e de suas repercussões sociais precisam seguramente tomar rumos mais transparentes e intensos nas atividades de todos os profissionais indistintamente. Debates e discussões – agora também nesta coluna – tem se tornado permanentes na grande maioria das instituições no mundo inteiro, realçando a sua pertinência e reforçando a necessidade de buscar alternativas capazes de produzir desenvolvimento científico-tecnológico e humano sem causar danos a natureza socioambiental e comprometer a vida da Terra. Obviamente, não se trata apenas de avaliar os possíveis impactos que fatalmente elas causam e causarão aos seres humanos e ao planeta de forma geral, mas sim, e principalmente, descobrir o irreversível a que tais usos conduzirão os homens e as mulheres – independentemente de classe social, credo ou etnia.

Um dos motivos dessas reflexões é, em parte, “desmascarar” a C&T e retirá-las de seu pedestal inabalável de caminho para a felicidade humana. Parece que, em função do tipo de comportamento que o assunto assume entre as pessoas, é urgente discuti-lo, para que a partir de análises minuciosas possamos conhecer seus verdadeiros impactos. Essas análises devem ser processadas para expor os seus compromissos e dependências em relação às diferentes forças sociais, inclusive – ou ainda com mais ênfase – as menos favorecidas, que operam em nossa civilização. Dentro dessa ótica, no entanto, devemos ter cuidado para não produzir o que poderíamos chamar de “vulgarização científica”, o que, longe de reduzir a alienação do homem relativa à ciência e à tecnologia, contribuiria, na realidade, para aumentá--la, fornecendo a ilusão, perigosa, de ter “compreendido o princípio” sem entrar na essência da atividade da ciência contemporânea: sua complexidade, sua coerência e seu esforço.

Na continuidade dessas constatações, uma citação de um pensador que me provocou significativamente – Abraham Moles – é importante porque procura mostrar que, independentemente do conhecimento das implicações da ciência e da tecnologia na sua vida cotidiana, o homem cultiva uma relação de dependência na tentativa de se “manter” atualizado com os problemas contemporâneos que lhe são diariamente pasteurizados para consumo:

Quer ele penetre ou não dentro dos segredos do pensamento científico, este ‘pequeno homem’ prefere para o seu conforto intelectual adorar as vacas sagradas da nova religião contemporânea. Há muitas delas, há uma mistura da ‘relatividade’, Einstein, Oppenheimer, com Monod e o inventor do náilon, os ‘laboratórios’ longínquos onde se destila a magia etc., em torno de seres, de lugares e de coisas incompreensíveis. Ele coloca a seu alcance ao mesmo tempo respeito e hostilidade. Certamente, ele tem maior respeito pela lista vertiginosa dos miligramas de cátion com nome grego sobre a etiqueta de água mineral que ele consome em sua mesa como indicações do doutor – em medicina: ele confunde alegremente a ciência do professor que assinou a etiqueta com a saúde física que ele retirará de seu consumo – técnica biológica. É, de maneira muito exata, o que se pode chamar de kitsch: os aspectos decorativos do vocabulário químico-latino tomando o lugar de funções que ele não compreende e não se espera mesmo que compreenda esse kitsch que se manifesta no jaleco branco ou no diploma de doutor, que às vezes pode até ser perigoso. Não é necessário insistir aqui sobre o potencial fenomenal da caixa de ressonância televisiva e de todas as mídias conjugadas para sustentar uma visão científico-prática da virtude cívica – ‘façam tal coisa...’ – que se reduz dentro da vida cotidiana a uma coleção de respeitos a proibições – ‘a carne grelhada dá câncer...’ –, de imposições – ‘coloquem os cintos de segurança’ –, de admirações beatas – ‘Freud, Einstein, Marx’ – em todos os pontos comparáveis às religiões das quais o homem tinha acreditado libertar-se as substituindo pela – deusa – Razão.²

A propaganda que se faz da C&T, provavelmente com vistas a melhores resultados das questões de ordem econômica, é deveras intensa que uma parcela significativa das pessoas acredita que elas, em quaisquer circunstâncias, podem sempre ser tidas como amigas leais, que arrastam consigo apenas benesses para a sociedade. Neil Postman – outro autor importante que problematiza essas questões – aponta, em relação à tecnologia, duas razões para esse julgamento:

Primeiro, a tecnologia é uma amiga. Torna a vida mais fácil, mais limpa e mais longa. Pode alguém pedir mais de um amigo? Segundo, por causa de seu relacionamento longo, íntimo e inevitável com a cultura, a tecnologia não convida a um exame rigoroso de suas próprias conseqüências. É o tipo de amigo que pede confiança e obediência, que a maioria das pessoas está inclinada a dar porque suas dádivas são verdadeiramente generosas. Mas é claro, há o lado nebuloso desse amigo. Suas dádivas têm um pesado custo. Exposto nos termos mais dramáticos pode-se fazer a acusação de que o crescimento descontrolado da tecnologia destrói as fontes vitais de nossa humanidade. Cria uma cultura sem uma base moral. Mina certos processos mentais e relações sociais que tornam a vida humana digna de ser vivida. Em suma, a tecnologia tanto é amiga como inimiga [...]”.³

Essas colocações, aliadas a muitas outras que por motivos óbvios não podem ser expressas aqui, já são suficientes para pensarmos as suas implicações sob outros ângulos nos assuntos que precisam estar ao alcance de todos. Sem nos deixarmos levar pelo passionalismo das análises direcionadas por interesses individuais, sentimos como inadiável semelhante tarefa, sempre procurando deixar claro que não se pode, contudo, colocar a tecnologia como uma arma perigosa, quem sabe como um míssil, apontada para a natureza, a cultura ou para a sociedade como se elas fossem um alvo ambulante frágil e desamparado. As ponderações aqui abordadas precisam ser constantemente trazidas à baila para não se cair na ingenuidade de achar que as técnicas vem de outro mundo, do mundo das máquinas, frio, sem emoção, sem intencionalidade político-econômica, estranho a qualquer significado e valor humanos, como tende a pregar, em determinadas situações, certa tradição intelectual. Se questionamentos ativos sempre acontecerem, estaremos objetivando um estudo maduro nessa direção, afirmando que não só as técnicas são imaginadas, fabricadas e reinterpretadas para uso dos homens, mas que é a própria utilização intensiva das ferramentas que constitui a humanidade.

É um comportamento habitual, portanto, entre uma parcela significativa da sociedade – agravado principalmente pelo “bombardeamento” de informações diárias – a consideração da ciência e da tecnologia como libertadoras em si mesmas, imbuída de uma visão redentora e salvacionista. Somada a isso, existe a perspectiva linear de progresso científico-tecnológico não só como um avanço do conhecimento, mas sim como uma melhoria real, inexorável e efetiva em todos os aspectos da vida humana. Desta forma, a ciência e os avanços tecnológicos fariam felizes os homens, independentemente das condições de suas aplicações.

Essa visão, que é notória no entendimento do senso comum, felizmente tem-se alterado para um número cada vez mais expressivo de pessoas que vem nela um mito a ser trabalhado para a sua erradicação. Essas pessoas começam a ter clara consciência de que a ciência e a tecnologia tem feito o homem mais feliz, mas que, junto com essa desejada felicidade, possuem a capacidade de também destruí-lo. Inúmeras obras escritas com tais abordagens nas últimas cinco décadas, entre as quais se pode citar Um mundo feliz, de Aldous Huxley, são testemunhas dessa posição mais reflexiva de “progresso” que se concede à ciência, não somente como libertadora, mas sim, em determinadas situações, como desumanizadora e escravizadora da vida humana.

Mesmo assumindo que no início, quando semelhantes discussões surgiram, tenha-se dado lugar, na maioria das vezes, a severas críticas, inclusive muitas vezes infundadas, referentes à ciência e à tecnologia, atualmente se tem a possibilidade e a razão suficiente para compreender as suas riquezas e complexidades, as oportunidades que oferecem e, sem dúvida, também os perigos que possuem. No entanto, apesar dessa razão que surge, ainda existe certa letargia por parcela dos seus usuários que pensam que elas só tem dados positivos a oferecer e que as suas conseqüências são fatos cujo uso deve ser aceito como inevitável. Tal percepção tem contribuído para que se perca uma rica oportunidade para melhorar a sua compreensão.

Não se pode crer, no entanto, que apenas uma maior vontade de educar em ciência e tecnologia seja suficiente para resolver os inúmeros problemas que estas questões arrastam consigo. Principalmente quando, se é que efetivamente ocorre, essa vontade se apresenta da forma como se tem configurado nos currículos da maior parte dos cursos que formam nossos profissionais, perpetuando-se o internalismo tecnicista. Igualmente se estaria dando uma resposta vazia; fracassaria por não levar em conta a estrutura inerente de valores ideológicos que a ciência e a tecnologia carregam do contexto político-social.

O que se pretende, na realidade, é alcançar uma compreensão cada vez mais sofisticada dos mecanismos internos e externos da C&T e, por extensão, das profissões técnicas, situando-a no contexto de uma interpretação de ambas como processos sociais – histórico, econômico, político e cultural. Há uma necessidade, portanto, de se verificar, em algumas situações, o caráter ambiental e socialmente destrutivo de muitas das atividades inerentes a esses processos. Faz-se premente ainda se reconhecer, como essencial para a própria sobrevivência da ciência e da tecnologia, os danos causados pela sua utilização, e não apenas minivalorizá-los como efeitos secundários ou consequências não previstas.

Somente quando a “alfabetização em C&T” – que ressalto aqui como decorrente de suas repercussões sociais – for entendida num contexto mais amplo poderá haver uma esperança real de que a configuração do nosso mundo futuro será traçada por um eficiente controle público, de modo que os processos científicos e tecnológicos beneficiem verdadeiramente a humanidade.

Não é mais admissível, e muito menos indicado, que se mantenha, como alguns opinam, num estado permanente de contemplação à espera do inexorável desenvolvimento científico-tecnológico. Essa atitude apassivada leva ao pensamento de que a questão, independentemente de suas repercussões, é inerente à fase de desenvolvimento humano, e que, à medida que a própria ciência e a tecnologia se desenvolvam, os problemas por elas causados serão automaticamente superados. É bastante claro que, potencializando os conteúdos, nos mais distintos níveis educativos, conseguir-se-á incrementar o grau de “cultura científico-tecnológica”. Deste modo, será crescente o número de cidadãos que se sentirão atraídos pela sua produção e, o que é mais importante, pela reflexão permanente de seus resultados. Talvez dessa forma, com análises bem fundamentadas, a atração pelos campos da pesquisa em C&T será mais substancial, inclusive como atividade profissional, e então sim os problemas causados por elas serão corrigidos por uma “tecnologia mais apropriada”, isto é, subordinada aos interesses da vida em sentido amplo e complexo.

Apesar das boas intenções, é necessário reconhecer as limitações que a tarefa impõe. Uma das limitações vem da inexorabilidade da utilização de certos artefatos que parece escapar da nossa escolha, ou do nosso controle, por estar sujeita a um “entrincheiramento tecnológico”. Esse termo, muito procedente para analisar tal aspecto, realça que as tecnologias entrincheiradas são aquelas profundamente arraigadas em nosso tecido sócio-econômico e em nossas formas de existência.

O melhor argumento, mesmo que anacrônico e defeituoso, com que parecem contar certas tecnologias para seguir entre nós, é que elas já se encontram no nosso meio e, ademais, seria extremamente difícil sua erradicação. Nessa situação são incluídas algumas conquistas sociais bem conhecidas, como a televisão, a energia elétrica, o rádio ou um sistema de transporte, já inerentes à vida social. São tecnologias fortemente solidificadas em nossos contextos, no sistema sócio-econômico e na organização político-social. Desse modo, parecem escapar à nossa capacidade de escolha e controle. No entanto, uma avaliação com antecedência e a monitoração do desenvolvimento de novas tecnologias, assim como a promoção da participação pública em tal controle, podem contribuir para a prevenção de novos entrincheiramentos e seus consequentes efeitos destrutivos.

Quando realço esse aspecto, que me parece inexorável, não pretendo colocá-lo como algo nocivo, mas sim como algo posto ao comportamento humano e que carece apenas de algum controle e, em certas situações, de adaptações para que continue socialmente aceitável e não prejudicial ao meio ambiente.

Continuando o raciocínio, surge como surpreendente o fato de que quando se trata de uma avaliação crítica literária ou teatral ou, mais ainda, quando se faz referência a qualquer obra de arte, as pessoas envolvidas no processo entendem tal atitude como positiva. Um crítico literário examina uma obra analisando sua abrangência, avaliando sua qualidade, buscando uma apreciação mais profunda que possa ser útil para outros leitores do mesmo texto. Algo similar acontece com os críticos musicais, teatrais, artísticos. Em geral, eles desempenham um papel valioso e, claro, apontando situações importantes entre os produtores e seus consumidores.

No entanto, aqueles que, de maneira semelhante, pensam em tecer comentários acerca das questões científico-tecnológicas, que poderíamos chamar como uma espécie de críticos de suas ações e repercussões, envolvendo-se nos modelos e problemas básicos de nossa cultura, são tachados rapidamente de antitecnologistas, arautos do atraso da evolução humana ou outros impropérios que os intimidam em suas ações, provocando, com isso, a retirada imediata de semelhantes discussões da pauta das responsabilidades sociais. Esse modo de concepção conduz a um conformismo e a uma falta de avaliação crítica indispensáveis, tornando-se mais agudos os questionamentos, as dúvidas e os assombros quanto à utilização e ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Os problemas aqui são mais prementes.

Para finalizar essa discussão e alimentar a sua continuidade, uma pergunta, entre muitas outras, por sua pertinência, se faz presente: é mais importante estar de acordo com os parâmetros internacionais em termos de pesquisa de ponta, ou é mais importante nos recolhermos a um contexto que ainda clama por soluções, muitas vezes rudimentares, de simples aplicações de técnicas já prontas?

REFERÊNCIAS
1. Um aprofundamento mais extenso dessas reflexões pode ser encontrado no capítulo 3 do livro “Ciência, tecnologia e sociedade e o contexto da educação tecnológica”, de Walter Antonio Bazzo, Editora da UFSC – Florianópolis, 2010. Mais detalhes em www.nepet.ufsc.br
2. MOLES, A. A. As ciências do impreciso. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995 (p. 358).
3. POSTMAN, N. Tecnopólio: a rendição da cultura à tecnologia. São Paulo: Nobel, 1994 (p.12).


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