Algumas possibilidades de ativar CTS nas escolas de engenharia

Prof. Walter Antonio Bazzo
Prof. Luiz Teixeira do Vale Pereira
NEPET (Núcleo de Estudo e Pesquisas em Educação Tecnológica)
Universidade Federal de Santa Catarina

Durante o ano de 2010 muitas discussões, dúvidas, possibilidades e acima de tudo reflexões de como tornar CTS mais efetivo foram trazidas nas páginas da OEI. O professor Cerezo, em um de seus pertinentes escritos nesta seção, nos trouxe uma profunda inquietação sobre o ativismo CTS. Sua razão sempre foi compartilhada pelo nosso grupo que, mesmo sem a estrutura e colaboração prestada pela enormidade de estudiosos que a OEI congrega, busca humildemente ativar de alguma maneira este aspecto em termos de Brasil. Por isso, ao findar este ano - sem dúvida muito produtivo, na nossa avaliação - gostaríamos de descrever nossa experiência nesta área para, talvez, contribuir com aqueles que comungam conosco tais dilemas em trabalhar estes assuntos nas salas de aulas. Principalmente para aqueles que estudam tecnologia e vão levá-la para o "consumo" da sociedade. Sair um pouco das infindáveis discussões acadêmicas para tornar, ou pelo menos iniciar, estas discussões efetivas nos parece um bom começo.

Eis uma premissa básica que o NEPET (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação Tecnológica) sempre teve: trazer novas reflexões, análises e procedimentos sobre assuntos humanísticos dentro da Educação Tecnológica nos tempos atuais, pois tal tarefa tem se constituído indispensável e inadiável nas Escolas de Engenharia. Temos lutado com veemência em nossa labuta diária para que tal aconteça.

Já em 1988, com essa disposição, começamos um projeto na disciplina Introdução à Engenharia Mecânica através do livro Introdução à Engenharia, que hoje já se tornou referência em grande parte das escolas brasileiras. Todo remodelado, atualizado e com novas abordagens, esse livro - agora com o título Introdução à Engenharia: conceitos, ferramentas e procedimentos - vem conseguindo sanar algumas dessas nossas preocupações.

Nessa lida constante sentimos que muito mais precisaria ser feito. Surge então nossa idéia de formar um grupo de estudos com este intuito. Nasce o NEPET (www.nepet.ufsc.br) dentro do Departamento de Engenharia Mecânica da UFSC, no ano de 1998. Muitas dificuldades vieram acompanhando esse nosso processo. Burocracia de manutenção, necessidades de verbas para formar o grupo, proceder algumas atividades extra-estudos e uma infinidade de questões que tiravam nosso tempo de aprofundamentos teóricos para sanar outras questões paralelas.

Mesmo assim o núcleo formado trouxe contribuições significativas graças a persistência de seus membros e colaboradores. Dezenas de artigos foram publicadas nos mais diferentes fóruns e revistas da área, artigos esses que também auxiliaram na edição de alguns livros sobre o assunto, como Ciência, tecnologia e sociedade e o contexto da educação tecnológica (1998), que agora, em decorrência de exaustivos aprofundamentos nos assuntos pertinentes, sempre aliados à inseparável ligação com a questão humanística, surge em uma nova edição publicado pela Editora da UFSC no ano de 2010.

Em consonância com esse texto escrevemos Ensino de Engenharia, na busca do seu aprimoramento, que já em 1999 tinha sua edição esgotada. No ano de 2000, dentro de um novo projeto, editamos Educação Tecnológica e o contexto do Ensino de Engenharia, que pela sua boa aceitação foi reelaborado, ampliado e republicado no ano de 2008.

Anota aí! Universidade: estudar, aprender, viver… foi o livro que há tempo nos remetia para uma conversa mais próxima de nossos alunos. Tínhamos consciência que além das pesquisas que fazíamos com os mais diversos aportes teóricos, precisávamos chegar mais perto dos estudantes e das salas de aula. Tal texto, em forma de crônicas, teve longo tempo de maturação. Em 2009 finalmente estava pronto e editado para a comunidade universitária com possibilidade de uma nova edição em 2011.

Dentro desse pequeno histórico, não podíamos deixar de citar a enorme importância que teve nesse trajeto toda nossa parceria com a OEI - Organização dos Estados Ibero-americanos -, que reunia em suas propostas rumos semelhantes ao que sempre embalou nossas preocupações dentro do NEPET. Junto a eles desenvolvemos alguns cursos virtuais - nos quais participamos como tutores - com o tema central voltado ao campo CTS. Nessa longa convivência nasceu mais um livro - Introdução aos estudos CTS - que serviu de base para os cursos virtuais e para a elaboração de diversos trabalhos que desenvolvíamos junto aos professores e estudantes da UFSC e, em menor escala, de outras universidades brasileiras.

Este pequeno retrospecto, que no decorrer dessa nossa nova empreitada será mais profundamente relatado em outra oportunidade, serve de preâmbulo para justificarmos o porquê de uma nova disciplina que a princípio elaboramos mais diretamente aos estudantes e professores das escolas brasileiras.

Nosso ensino de engenharia precisa de alguma remodelação. Modificar seu currículo como um todo nos parecia e ainda nos parece desproposital. Deixar tudo como está seria irresponsabilidade de nossa parte em deixar esse assunto apenas no "denuncismo" de apontar as mazelas sem procurar alguma solução.

Na nossa atividade dentro do Departamento de Engenharia Mecânica, por vários anos assumimos o cargo de coordenadores do curso. Muito trabalho, muita burocracia, muitas questões administrativas no caminho, porém pouca mudança epistemológica ou pedagógica nas nossas ações. Em 1999, dentro das inúmeras reuniões pedagógicas que sentíamos serem necessárias, sob a tutela da coordenadoria do curso, junto ao seu colegiado, foi lançada a ideia de uma disciplina optativa com enfoque mesclado entre tecnologia, sociedade e aspectos humanísticos da engenharia, com o nome de Tecnologia & Desenvolvimento.

No ano de 2000, a primeira experiência. Poucos alunos, pouca motivação por parte deles por julgarem assuntos sem relevância para sua formação paradigmática dentro da profissão. Insistimos, nos reprogramamos, alteramos temas, incluímos novas propostas e a disciplina começava a ganhar corpo e adeptos cada vez mais interessados em ver um pouco além da técnica pela técnica. Os resultados foram surgindo - veremos isso ao longo desta formulação de T&D como uma disciplina - com reflexões e artigos surpreendentes formulados pelos alunos - muitos deles publicados no mais importante congresso de educação em engenharia do Brasil (COBENGE) - e a disciplina ganhava uma dinâmica que a nós mesmos surpreendia.

Ano de 2006 e o colegiado do curso - agora sem a participação dos dois responsáveis pela ideia - tornava Tecnologia & Desenvolvimento obrigatória para todos que cursavam engenharia mecânica. Nossa responsabilidade aumentava em muito. Sentíamos a necessidade de deixar algo perene para servir de base para quem futuramente viesse a ter sob sua responsabilidade tais conteúdos.

Eis a ideia de uma seção na página do NEPET: elaborar um programa básico juntamente com as estratégias, metodologias e resultados alcançados em toda essa trajetória para servir de suporte para todas as escolas de engenharia que, oxalá, sintam a necessidade de ampliar os conhecimentos para além dos eminentemente técnicos. Sem a rigidez de uma conduta e metodologia estanque - e por isso sua constante mutação na página www.nepet.ufsc.br -, tal texto poderá auxiliar na conduta de uma disciplina e na elaboração de novos conceitos nessa área indispensável para a formação de engenheiros que tenham muito acima da questão ferramental a questão humana indispensável para sua atuação como cidadão. E quiçá, em 2011 tenhamos um novo livro para consubstanciar tal empreendimento.

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