A Autonomia do Indivíduo e do Coletivo passa pelos Valores na Educação

Walter Antonio Bazzo Professor da UFSC Engenheiro Mecânico,
Doutor em Educação Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Coordenador do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Educação Tecnológica (NEPET)
Colaborador da OEI
wbazzo@emc.ufsc.br

São geralmente habituais e contundentes os discursos mediante os quais se argumentam que os progressos sociais dependem sobremaneira das ações positivas da ciência e da tecnologia. Afirma-se que elas criariam condições materiais para a subsistência humana e que, na prática, ao se observar os produtos técnicos disponíveis, vem-se obtendo resultados exitosos. No entanto, algumas reflexões sobre esses entendimentos precisam ser aqui empreendidas.

Ora, no mínimo, deveria ser ponderado que as recentes e profundas modificações na organização das sociedades, das aspirações humanas, do nível de consciência dos cidadãos, da estrutura de relações entre as nações, principalmente, dos inúmeros atropelos climáticos e ecológicos, que o planeta Terra está sendo submetido, vem impondo mudanças de tal monta na ordem mundial que se faz mister repensar a própria forma de analisar a ação científica e tecnológica contemporânea. E mesmo se acreditássemos – não é o caso desse professor que aqui escreve – que a ciência e a tecnologia avançam em rumos certos, que mal haveria em tentar melhorá-las ainda mais?

Se avaliarmos o mundo técnico pelas suas realizações materiais, pela multiplicidade de produtos atualmente disponíveis no mercado de consumo, enxergando-o apenas pelas pretensas benesses que ele nos proporcionaria, é difícil não aceder a essas argumentações. O caminho da concordância, mesmo que soe como um navegar livre ao sabor de uma correnteza determinante, sempre é mais confortável que a confrontação, e nos promete frutos imediatos e mais fartos. E me parece que, nessa correnteza, estamos sempre tentando adivinhar o que o futuro nos reserva e muito pouco fazendo para que tenhamos tal futuro para usufruir.

Vejamos alguns exemplos que podem ampliar o debate ora em pauta. Acordado por recentes denúncias acerca de possíveis aspectos nocivos da tecnologia, o mundo passa aos poucos a encará-la com mais cautela. As explosões das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki – que detonaram análises menos ufanistas sobre as benesses da tecnologia; a descoberta do efeito estufa, provavelmente provocado por ação dos homens; o problema aparentemente incontornável da poluição em várias cidades, a exemplo de Vapi (Índia), Norilsk (Rússia), Chernobyl (Ucrânia) e Linfen (China) entre outras; os extensos derramamentos de óleo – o Golfo do México foi exemplo terrível no semestre passado –, que provocam fortes degradações ambientais, acidentes catastróficos com instalações industriais e construções civis, dentre tantos outros problemas se constituem uma série de acontecimentos que inquietam e preocupam aqueles que refletem sobre o futuro.

Não seriam os problemas anteriormente listados suficientes para colocar em xeque a credibilidade social da autoridade do conhecimento? Em parte, a concepção de autosuficiência científico-tecnológica pode ser decorrente da inadequação dos entendimentos tradicionais acerca da ciência e da tecnologia pela sociedade como um todo, em especial, pelos cientistas, tecnólogos, profissionais das mais diferentes matizes, além de professores que tem a responsabilidade de trabalhar questões relativas à ciência e à tecnologia na formação educacional das crianças, dos jovens e adultos.

Em adição a isso, uma nova ordem mundial se desenhou no final do século passado, cujas faces mais aparentes foram acontecimentos como a queda do muro de Berlim, em 1989, a crise na Ásia, iniciada com problemas cambiais na Tailândia, que respingaram com intensidade na situação da América Latina e provocaram fortes oscilações nas bolsas de valores em várias partes do mundo, as manifestações de rua na estabilizada Genebra, bradando contra a globalização – considerada por alguns sociólogos e estudiosos no assunto como uma das formas de colonialismo; as tentativas de fechamento da China – hoje já adaptada a um capitalismo selvagem e consumista – e do Irã às ingerências do mundo ocidental nos seus domínios, proporcionadas pela internet – moldada por interesses econômicos e forte intervenção da tecnologia.

Se as correlações de força entre as nações sofrem reajustes e se conceitos como os de nação e de empresa começam a destoar das suas concepções tradicionais, por que não repensar o processo de educação científico-tecnológica e, por decorrência, a atuação de seus profissionais a partir de outros enfoques? As mudanças deveriam servir de alerta para entendermos o tradicional modelo educacional que – além de formar os profissionais nas mais diferentes áreas de atuação do mundo contemporâneo e talvez tenha sido apropriado para outro momento histórico – pode estar prescindindo de profundas reflexões sobre a sua prática com vistas a atender as atuais perspectivas sociais, principalmente nos países emergentes.

Os desafios postos em termos de ciência e de tecnologia extrapolam o campo do assunto puramente produtivo. A exacerbação por uma educação voltada para adaptação linear à produção e à eficiência industrial, além dos confortos dos privilegiados que desfrutam de profissões consideradas “nobres”, visando sempre auferir o lucro desenfreado do “turbo capitalismo”, parece ainda dominar as discussões nos meios daqueles que buscam para si a responsabilidade de propor alternativas viáveis para o desenvolvimento social e científico-tecnológico a um só tempo.

Evidências ficam realçadas nos encontros entre os especialistas educacionais que, ainda seduzidos pelo “canto da sereia”, confundem desenvolvimento tecnológico/econômico com desenvolvimento humano. Com raríssimas exceções, os participantes pouco apresentam opções em termos de preocupações relativas à produção de conhecimentos em prol do desenvolvimento humano e muito de novas ferramentas de treinamento automático para a adaptação da produtividade desenfreada e do lucro exacerbado e imediato; pouco, quase nada, de reflexões sobre o destino dos produtos da ciência tecnológica e os seus efeitos a médio e longo prazo na sociedade; desinteresse pelas questões sociais, cognitivas e de ordem reflexiva, que possam apontar alternativas e indispensáveis tendências para se repensar o modelo de desenvolvimento social ainda adotado no Planeta, que desde a Revolução Industrial pensa que tudo que se produz se converte em felicidade humana.

Com efeito, defendo aqui a introdução de questões relacionadas às implicações da ciência e da tecnologia junto à sociedade, como forma de enfrentamento de problemas sociais, subjacentes às técnicas, na educação formal processada no nosso continente. No entanto, esta responsabilidade não poderá ficar só por conta das instituições educacionais. A população de um modo geral, especialmente as indústrias, os órgãos governamentais e, em caráter ainda mais categórico, os meios de comunicação. Daí porque este tema está sendo abordando de forma contundente e contínua por uma revista na área odontológica.

Se o objetivo da formação de um profissional, independentemente de sua área, for formar um cidadão capaz de lidar com a realidade do presente-futuro que se desenha atualmente – de uma forma muito mais complexa do que simplesmente a produção de artefatos tecnológicos –, haverá necessidade de investimentos permanentes na pesquisa científico-tecnológica, preferencialmente, voltados para a educação e não para a automação de processos e produtos e/ou o treinamento de conceitos já fossilizados! Passou a época em que se falava, num jargão perigoso e prejudicial, sobre pesquisa versus educação dentro das prioridades estratégicas.

Está emergindo com veemência um conceito educacional: a integração da pesquisa com a educação! Existem alguns locais no mundo onde já se percebeu que a educação em ciência e tecnologia é mais importante que a pesquisa considerada “pura” nesta área! Os atuais fatos e acontecimentos mundiais exigem reflexões e atitudes capazes de viabilizar essa visão de complementaridade. Aliás, esta coluna que nos permite este encontro trimestral me parece ter esta preocupação.

A educação também – ou muito mais que qualquer outro – tem que ser vista como investimento. Investimento é sinônimo de educação. Uma educação libertadora, reflexiva, analítica e, acima de tudo, voltada para a busca de uma sociedade mais igualitária e minimamente feliz. E não podemos mais ver isso como um discurso meramente político dirigido a certos interesses e sim como uma necessidade para a sobrevivência da espécie humana.

O despreparo profissional para a atuação na sociedade, de egressos das mais variadas escolas, tem sido denunciado em muitas oportunidades por alguns autores que parecem eleger, desde algum tempo, outro comportamento para o cidadão contemporâneo. É o que alertam em uma linguagem que, muito além da educação científico-tecnológica, prioriza a vida do coletivo de forma integradora e indissociável, Paulo Freire, Rubens Alves, Leonardo Boff, Eduardo Galeano, Morin, Wulf, Cristovam Buarque, Luc Ferry e tantos outros (ver www.nepet.ufsc.br).

Uma possível razão para essas leituras pode ser reputada à dinâmica empreendida pelos novos momentos da civilização, que provoca fortes desnorteamentos quando se analisa o quadro vigente sob antigos referenciais, nos quais se assentava o equilíbrio social. Alfin Tofler, em A terceira onda e Choque do futuro, registra uma compreensão similar a essa, quando se referia aos desconcertantes desequilíbrios momentâneos nos quais o ser humano se percebia envolvido no instante das grandes alterações sociais. Tal constatação tem constituído fator de preocupação para aqueles que tem sob sua responsabilidade o planejamento, a execução e a avaliação dos processos de ensino nas instituições educacionais e que, no entanto, desafortunadamente, mesmo que, com a melhor das boas intenções, continuam, na maioria das situações, estabelecendo mecanismos que contribuem para o agravamento de sérias questões sociais, elegendo sempre a eficácia da produção tecnológica e, por conseguinte, o lucro como o foco do trabalho.

Aliado a isso, agravando sobremaneira o problema que aqui quero abordar, os dados, não raro alarmantes, colhidos nos mais diferentes estabelecimentos de ensino, apresentados e discutidos em seminários e colóquios, mostram a evasão e a reprovação como resultado de uma frustrante procura de formação que não vem dando conta das expectativas dos participantes do processo, evidenciando que providências precisam ser implementadas. E esse desânimo é agravado em decorrência de um sentimento que vem tomando conta dos novos profissionais/cidadãos que em alguns momentos conseguem vislumbrar e, às vezes, sentir na “própria carne” que tal fato vem se tornando quase irreversível.

Neste espectro preocupante, de forma acintosa e equivocada, os meios de comunicação e alguns sistemas neoliberais continuam insistindo num discurso em que somente a produção de aparatos tecnológicos pode promover o bem-estar das gerações presentes-futuras. É gritante a evidência que, apesar das promessas geradas pelos grandes desenvolvimentos tecnológicos e, talvez estabelecendo um dos maiores paradoxos da nossa era, as questões sociais como a fome, a guerra, a aviltante distribuição de renda e as questões ambientais continuam se agravando cotidianamente.

Buarque (1994) é um dos autores brasileiros que aborda muito bem o tema no tocante à realidade do país, o que facilmente pode ser extrapolado para outras realidades latino-americanas. O autor afirma que no Brasil, quando se propõem mudanças, em geral, não se discute para onde ir, e se pensa apenas no desenvolvimento para uma sociedade rica, de consumo de massas, industrial e urbana, com preocupação na maioria das vezes somente na área econômica. Para o especialista, deve-se procurar caminhar, avançar de uma modernidade essencialmente técnica para uma modernidade ética, baseada em valores e objetivos sociais que permitam definir as intenções a serem concretizadas e, então, as prioridades e as medidas a serem executadas. Buarque aponta dez intenções da construção de uma modernidade ética e ligadas a elas dez prioridades, que para o enriquecimento da nossa reflexão ora em pauta enumero a seguir:

1. Modernidade é uma população educada e culta – Educação; 2. Modernidade é um país sem fome – Alimentação; 3. Modernidade é não morrer antes do tempo e viver com saúde – Saúde; 4. Modernização da cultura em vez da cultura da modernidade – Cultura; 5. Uma ciência e tecnologia modernas tecnicamente - Tecnologia adaptada; 6. A modernidade tem que ser permanente - Meio Ambiente; 7. Modernidade é uma ocupação descentralizada do território nacional, com cidades pacíficas e bem organizadas – Descentralização; 8. Não há modernidade sem eficiência econômica comprometida eticamente – Eficiência; 9. A modernidade do Estado é a sua ética - O Estado; 10. A modernidade é uma política externa independente que garanta a soberania nacional e seja um instrumento de reordenação da modernidade técnica para uma modernidade ética – Soberania.

Ao concluir sua proposta, Buarque alerta: se caso o país continuar com o atual modelo de crescimento – reconheçamos que muito vem mudando atualmente – , o futuro do Brasil estará comprometido, implantando a segregação social e explicitando a apartação entre ricos modernos e pobres atrasados. Se rejeitar essa alternativa invertendo o caminho, poderá tornar-se um retrato do que o mundo futuro pode vir a ser. Para tanto, precisa elaborar um projeto em que a ética e a democracia se casem, numa sociedade que respeite as liberdades individuais e coletivas, na ampliação do patrimônio cultural e assegure o equilíbrio ecológico, sem abandonar, mas considerando o sonho de consumo supérfluo como parte da meta civilizatória. Acredito que tudo isso pode ser visto como uma verdade para a América Latina e por extensão à civilização.¹

Finalmente, por considerar que para a autonomia do individual/coletivo é necessário um projeto de nação, isto é, de educação que priorize a vida, tomo emprestada uma citação do grande educador Paulo Freire:

Ao reconhecer que, precisamente porque nos tornamos seres capazes de observar, de comparar, de avaliar, de escolher, de decidir, de intervir, de romper, de optar, nos fizemos seres éticos e se abriu para nós a probabilidade de transgredir a ética, jamais poderia aceitar a transgressão como um direito mas como uma possibilidade. Possibilidade contra que devemos lutar e não diante da qual cruzar os braços. Daí minha recusa rigorosa aos fatalismos quietistas que terminam por absorver as transgressões éticas em lugar de condená-las[...]. Nada, o avanço da ciência e/ou da tecnologia, pode legitimar uma “ordem” desordeira em que só as minorias do poder esbanjam e gozam enquanto às maiorias em dificuldades até para sobreviver se diz que a realidade é assim mesmo, que sua fome é uma fatalidade do fim do século. Não junto a minha voz à dos que, falando em paz, pedem aos oprimidos, aos esfarrapados do mundo, a sua resignação. Minha voz tem outra semântica, tem outra música. Falo da resistência, da indignação, da “justa ira” dos traídos e dos enganados. Do seu direito e do seu dever de rebelar-se contra as transgressões éticas de que são vítimas cada vez mais sofridas. (FREIRE, 2005)

Para finalizar, estou ciente da complexidade sobre as questões que envolvem ciência, tecnologia e sociedade, o que requer mais espaço e tempo para seu aprofundamento. No entanto, sei também que, por hora, essas reflexões instauram o debate tão fundamental para a promoção de mudanças e avanços socioculturais e ambientais que tanto almejamos, compreendendo, como enfatiza Freire, que “nos tornamos seres capazes de” e, portanto, a educação se constitui o primeiro passo.

REFERÊNCIAS

BUARQUE C. A revolução das prioridades: da modernidade técnica à modernidade ética. São Paulo: Paz e Terra; 2000.
FREIRE P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra; 2005.

 

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