Gente, Poder, Educação, Livros!

Walter Antonio Bazzo
Engenheiro Mecânico, Doutor em Educação
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Coordenador do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Educação Tecnológica (NEPET)
Colaborador da Organização dos Países Ibero-americanos (OEI)

Adquiri um costume que preenche boa parte de minhas atividades, de meus estudos e do meu lazer. Comprar livros. De preferência sempre buscando as infindáveis promoções que acontecem quase todos os anos nas mais diferentes livrarias. Muitos deles, de excelente qualidade, por não constarem nas listas dos mais vendidos em revistas e em jornais, às vezes, jazem nas prateleiras produzindo prejuízos aos seus editores. Então eles vão à liquidação. Não pela ausência de qualidade, mas pela pouca procura. Compro aos quilos – no sentido metafórico –, obviamente dando uma raspada de olho nas “orelhas” e nos sumários para ver de que se trata. Confesso que não seleciono muito a área do conteúdo. Em todas elas sempre colhemos subsídios para aprimorar nossa missão de profissionais conscientes, cidadãos e, acima de tudo, educadores. Gosto de contar aos outros sobre os assuntos e suas correlações com a Educação Tecnológica, suas imbricações com Ciência, Tecnologia e Sociedade, com a Educação no seu campo mais geral, as Ideologias, a Política e por aí vai. Nem todos eu resenho ou divulgo na página do NEPET (www.nepet.ufsc.br) na seção “Muita Leitura! Sempre” – mas confesso que todos eles me provocam a fazer isso e, quem sabe, alguns outros eu ainda traga lá relatado, dependendo do tempo disponível e da relevância do assunto – mas este me chamou atenção pela utilidade do tema para quem pensa em educar e entender o mundo em que vive. A Doutrina do Choque – a ascensão do capitalismo de desastre, de Naomi Klein – mais um dos que junto a dezenas de outros colhi nas gôndolas das livrarias – me atiçou a entender que, mesmo educando em tecnologia, ou em qualquer área, tudo tem um começo mais amplo que passa pela consciência das pessoas em raciocinar pelos seus direitos e deveres, dentro de um contexto que nos mostra as veias da América Latina – e outros setores dominados deste mundo desigual – como bem nos dizia Eduardo Galeano em um dos ensaios mais completos sobre poder e dominação dos povos oprimidos.

A doutrina do Choque é um tratado de ideias que se lê com o coração, pois os fatos relatados de forma precisa, imparcial e completa foram vividos por uma geração que hoje se vê ainda “embrutecida” pelos resultados que tornaram nossa sociedade tão desigual. Personagens – muitos de nós ou nossos pais – que passam longe das análises históricas das academias, pois fizeram parte de um passado que para muitos deve ser irrelevado para não “incomodar” o caminho inexorável do progresso. Mas vou parar de falar deste especificamente. Ele veio à tona agora porque habitava a minha leitura dos últimos dois dias e me inspirou a escrever mais esta coluna. Mas tenho certeza que ele já instigou a curiosidade de muitos. Livros são para isso: chamar-nos à reflexão, encantar-nos pelas possibilidades da imaginação e, acima de tudo, mostrar-nos o mundo que vai muito além de nossas restritas ideias. Portanto, Anota aí! e eu sigo no meu raciocínio.

Lembro-me, quando fui convidado a escrever a primeira coluna desta revista, que fiquei muito feliz pela oportunidade de falar sobre educação e sobre nossas responsabilidades perante uma sociedade que clama por reestruturações profundas.

Pensei, naquele momento, que deveria valer-me de meus argumentos buscando mostrar – sempre dentro de minhas limitações conceituais – o porquê da necessidade de compreendermos que o entendimento da ciência e da tecnologia, no contexto social, era condição sine qua non para agirmos como cidadãos dentro das mais diferentes responsabilidades sociais que assumimos pela nossa formação acadêmica. Sem presunção, imagino que nas inúmeras colunas até aqui editadas este intento foi conseguido. Mas lembro também que insistia que isso não passava por um toque de mágica. Necessitava muito empenho e dedicação e acima de tudo leitura, muita leitura. Rose Marie Muraro, autora polêmica das épocas de chumbo da história recente brasileira, já dizia: “Tudo o que muda passa antes pelos livros e só depois a mídia enxerga”. Apesar de nossas discussões terem sido profícuas, novas ideias necessitavam reabastecimento de argumentos, de ideologias e visões de mundo. Apenas a leitura dos artigos diários colocados em jornais, TVs ou qualquer outro tipo de mídia moderna tem suas limitações. Seus conteúdos ou são impregnados de interesses ou discutidos de forma telegráfica, pela premência de tempo ou espaço, o que constitui uma grande limitação desta nossa vida atribulada do século XXI. Nos livros não! Repito, eles nos levam a viajar na constante formulação de ideias, argumentos e reformatação de formas de viver. Para nossa liberdade de pensamento e aprofundamento crítico – ver nossa última discussão: A autonomia do coletivo e do indivíduo passa pela educação – ¬ sempre temos que contar com a leitura nas mais variadas áreas. Quando realço estas questões, me vem à mente algumas considerações de Noam Chomsky – por paradoxal que possa parecer, extraídas da internet ¬– que quando fala em estratégias de manipulação pelo “metralhar de informações” diz textualmente :

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais”.

E segue, fazendo-nos ver, ou ao menos tentando, que com os livros o processo não passa pelas informações vazias e sim pelo tratamento mais aprofundado dos verdadeiros problemas humanos que nos dizem respeito.

Fazer uso do aspecto emocional, sem a devida reflexão – e nisso os livros são indispensáveis para servir de antídoto – é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido crítico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos.

No transcorrer dos últimos anos, os avanços da ciência e da tecnologia vêm gerando uma brecha entre o conhecimento do público – e aqui estamos incluídos, mesmo que exercendo profissões nobres na sociedade – e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Nosso poder de entender torna-se cada vez mais indispensável para podermos agir e darmos sentido à nossa vida. Reforço que os livros se tornam uma arma potente para isso. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle e um poder maior sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

Sei das limitações de tempo e de prioridades de cada um. Mas a aventura da leitura merece uma relevância maior nas nossas vidas. Ela nos confere mais autonomia. Por isso, modestamente, temos uma seção onde relatamos algumas obras literárias para podermos entender um pouco mais esta imbricada e complexa relação entre o homem, a ciência e a tecnologia. A propósito, comece por esta sugestão que encerra nossa coluna de hoje. Boa leitura.

A Doutrina do Choque – a ascensão do capitalismo de desastre
Naomi Klein, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2008, 590 p.

Um verdadeiro tratado sobre as estratégias, golpes, manipulações e incríveis revoluções para a manutenção do capitalismo. Seguramente, lido por alguém com “óculos” ideológico da ‘direita’ seria tachado de mais uma teoria da conspiração. Mas é um livro envolvente, escrito e baseado numa extensa pesquisa empreendida por Naomi Klein, escritora, documentarista e jornalista premiada. Sua narrativa é clara e, raramente, opinativa. Descreve os fatos sempre apoiada em diversas fontes – todas citadas na obra. São mais de mil – deixando a cargo do leitor a interpretação da história dos envolvidos, sem rotulações dos mais diversos sistemas ou regimes de governos. Todos, ou pelo menos aqueles que chamaram atenção do mundo, indistintamente passam pelo crivo histórico da autora.

Geralmente ficamos sabendo de um livro e de seu conteúdo quando o pegamos na mão e podemos verificar certos depoimentos impressos em seus adendos – orelhas, prefácio, citações de jornais e de outros autores – e por isso grandes conteúdos nos escapam por impossibilidade de escolhas para nossa leitura. Meu objetivo aqui sempre foi divulgar o que, a meu juízo, parece importante para a compreensão do momento que estamos vivendo. Pela clareza da descrição da obra, tomo a liberdade de transcrever o que Emir Sader comenta sobre o livro em uma das suas orelhas:

“Somente uma crise – real ou pressentida – produz mudança verdadeira. Quando a crise acontece, as ações que são tomadas dependem das ideias que estão à disposição. Esta, eu acredito, é a nossa função primordial: desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las em evidência e acessíveis até que o politicamente impossível se torne o politicamente inevitável.” A linguagem econômica, inodora, não revela as condições da realização das suas propostas. As palavras ascéticas de Milton Friedman parecem não ter nada a ver com as baionetas de Pinochet. No entanto, sem os choques elétricos, os choques econômicos não sairiam do papel. O “livre mercado” – quem diria –, irmão siamês da ditadura militar. Naomi percorre as ruínas resultantes dos choques econômicos, do Chile à Polônia, da Argentina à Inglaterra, da Rússia ao Iraque, traçando o mapa do capitalismo de desastre. Mas para os economistas neoliberais, as ditaduras pecavam apenas por alguns abusos aos direitos humanos, por um zelo excessivo pela ordem, como se a imposição do modelo que exportavam desde a Escola de Chicago não demandasse os instrumentos para impor duras perdas aos povos dos países onde era aplicado o mesmo modelo. E decifra as razões pelas quais a América Latina está no estágio mais avançado na revolta contra o neoliberalismo. Porque fomos o laboratório dos choques – tanto elétricos como econômicos – e vivemos, assim, uma ressaca dos dois. Somos uma espécie de tsunami e de Katrina somados: fomos vítimas privilegiadas de uma devastação e dos remédios que matam o doente. Quem quiser conhecer as turbulências do mundo no século XXI tem aqui um roteiro exemplar: rico, sofrido, mas que desemboca em esperanças de um mundo sem choques, “um outro mundo possível”, que talvez esteja sendo gestado nos desastres do capitalismo contemporâneo. Naomi Klein é a repórter exemplar das enfermidades e das alternativas da humanidade na era neoliberal.

Complementando as palavras de Sader, eu diria que, depois de ler este livro, parece-nos mais fácil fazer as relações políticas do poder, do capitalismo, do comunismo e suas intricadas conexões com armas, tecnologia, economia e tudo o que respinga na sociedade, inexoravelmente. O que víamos e ouvíamos nos noticiários telegráficos que sempre faziam parte dos “truques” das revoluções econômicas nem sequer “raspavam” as verdades dos fatos que ocorriam desde a década de 1930, 1940 e que ainda seguem sendo gestados nas mais diversas alquimias dos donos do poder. Realmente impactante.

Meus alunos comentam que sempre que leio um livro fico entusiasmado ao extremo. Sempre o último é melhor que o penúltimo. E é verdade. Apenas salientando que entre o último e o penúltimo existem vários outros que, mesmo me trazendo entretenimento e novas visões das mais diversas áreas, ficam apenas armazenados na minha memória. Outros não. E então quero – pela diferença de impacto que me causaram – dividir com aqueles que, como eu, modestamente, procuram entender um pouco mais do mundo em que vivemos para, quem sabe, reinventá-lo sob outra ótica.

Mas sigo ainda falando sobre este livro me munindo de novos argumentos agora num pequeno trecho que a autora coloca no prefácio de seu ensaio:

Este livro é uma contestação da suposição mais fundamental e acalentada da história oficial – a de que o triunfo do capitalismo desregulado nasceu da liberdade, de que mercados não-regulados caminham passo a passo com a democracia. Pelo contrário, vou mostrar aqui que essa espécie fundamentalista de capitalismo foi parida pelas formas mais brutais de coerção infringidas tanto sobre o corpo político coletivo quanto sobre os incontáveis corpos individuais. A história do livre mercado contemporâneo – mais bem compreendida como a ascensão das corporações – foi escrita com choques. As apostas são altas. A aliança corporativa está perto de conquistar suas últimas fronteiras: as economias petrolíferas fechadas do mundo árabe, e setores das economias do Ocidente que foram longamente protegidos da lógica do lucro – inclusive a defesa civil e os exércitos crescentes. Na medida em que não há sequer necessidade de manter as aparências e buscar o consentimento público, tanto no país quanto no exterior, para privatizar essas funções essenciais, o aumento dos níveis de violência, assim como desastres cada vez maiores, tornou-se imperativo para o alcance desse objetivo. O papel decisivo desempenhado por choques e crises foi efetivamente eliminado dos registros oficiais acerca da ascensão do livre mercado. Assim, as medidas extremas exibidas no Iraque e em Nova Orleans são frequentemente confundidas com a incompetência ou com o conluio existentes na Casa Branca de Bush. Na verdade, as proezas de Bush representaram apenas o ápice monstruosamente violento e criativo de uma campanha de mais de cinquenta anos pela total liberdade das corporações.

A vontade é seguir escrevendo, pois muito se tem a falar sobre esse livro, porém encerro com as considerações postadas na sua contra capa, desafiando àqueles que querem realmente entender a relação entre o desenvolvimento tecnológico e o paradoxo da crescente desigualdade social, conhecendo a história não oficial escrita nos porões do poder.

O que o furacão Katrina de Nova Orleans tem a ver com as ditaduras da década de 1960 na América Latina? Qual a relação entre o tsunami na Ásia e o massacre da Praça da Paz Celestial na China? Afinal, existe uma conexão entre a Guerra do Iraque e a democracia acorrentada da África do Sul? A resposta, segundo a jornalista canadense Naomi Klein, é SIM. Sua tese é a de que todas estas tragédias, naturais ou construídas, fazem parte do processo de ascensão do “capitalismo de desastre” – a forma atual que o sistema capitalista encontrou para se tornar hegemônico em lugares e situações em que até então ele não era. Exemplos? Em Nova Orleans, após o furacão Katrina, a educação foi reformulada – as escolas públicas foram, a partir de um “conselho” do economista Milton Friedman, privatizadas. Numa gafe tremenda, a secretária de Estado Condoleezza Rice declarou o tsunami uma “oportunidade maravilhosa” para a política externa norte-americana. Sob a “doutrina do choque”, o medo e o desespero se transformam em oportunidade de ganhar dinheiro. Das técnicas de tortura usadas pela CIA desde os anos 1950 à instalação de resorts de luxo nas praias da Tailândia devastadas pelo tsunami, Naomi mostra a lógica perversa de um sistema orientado pela busca do lucro. Um sistema que não produz diretamente as tragédias naturais, mas que não tarda em incorporá-las em sua agenda de negócios. Ao misturar depoimentos pessoais a uma análise histórica consistente do último meio século, Naomi Klein constrói com “A doutrina do choque” um novo Best-seller, um livro indispensável para entender o nosso mundo.

Tim Robbins, ator e diretor de cinema – ainda escrevendo na contra capa do livro –, tanto quanto eu entusiasma-se a comentar este conteúdo, que, depois de lido, nos dará uma visão mais abrangente do modelo capitalista que impera em nossa sociedade:

Uma revelação! Com rara coragem e clareza, Naomi Klein escreveu o livro mais importante e necessário de sua geração. Nele são expostos mentirosos, assassinos e ladrões, e é desmascarada a política econômica da Escola de Chicago, assim como a sua conexão com o caos e o banho de sangue em todo o mundo. A doutrina do choque é um livro tão importante e revelador que poderia se tornar um catalisador, um divisor de águas, um ponto de virada no movimento por justiça econômica e social.

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