Colaboraciones   


As bolhas ou o caldeirão efervescente?
Uma Abordagem Ecossistêmica da Qualidade de Vida

André Francisco Pilón


Resumo

Considerando os graves problemas contemporâneos que afetam a qualidade de vida, propõe-se a construção de um modelo ecossistêmico de cultura, mediante o enlace, em uma configuração dinâmica, de quatro dimensões de mundo (íntima, interativa, social e biofísica), visando o desenvolvimento de sua singularidade (identidade) e reciprocidade (apoio mútuo, doação e recepção). Os eventos não são reduzidos às bolhas de superfície (questões pontuais aparentes, objeto de exploração jornalística, política, mercadológica ou mesmo acadêmica), mas definidos no bojo do “caldeirão efervescente”, tendo em vista o papel conjugado das dimensões de mundo face a indução de eventos (favoráveis e desfavoráveis), conseqüências sofridas (desejadas e indesejadas) e potencial para a mudança. A construção de um modelo ecossistêmico de cultura opõe-se aos conceitos perversos de crescimento, trabalho, poder e riqueza que orientam os projetos de desenvolvimento que ignoram, subestimam e solapam valores essenciais à qualidade de vida, à cultura, à educação, à ética, à cidadania, ao ambiente natural e construído, à saúde física, mental e social, hoje prejudicados pela desumanização, despersonalização e reificação dominantes, pelo "apartheid" social e cultural e pela violência nos centros urbanos,   Além da equidade política e econômica, os direitos humanos incluem o acesso ao que há de melhor na herança da humanidade, os direitos à educação, à cultura, à beleza, à criatividade, ao convívio, à tranqüilidade e à paz, produtos de um modelo ecossistêmico de cultura.

Palavras-chave ¾ Ecossistemas, Qualidade de Vida, Ambiente, Sociedade, Cultura,

Introdução e Diagnóstico

A compreensão dos graves problemas que atualmente afetam o ambiente natural e construído, o bem-estar físico, mental e social, a qualidade de vida e o futuro dos seres vivos em geral, vem sendo prejudicada pela redução das questões às “bolhas” de superfície (representações fragmentadas da realidade), sem atentar para as graves e profundas anomalias no bojo do caldeirão efervescente.
 Deteriora-se a qualidade de vida, espaços necessários à cidadania, segurança, trabalho, lazer, convivência e cultura são explorados, de forma às vezes sutil, às vezes brutal, pelos chamados interesses de mercado. Diante deles, as salvaguardas públicas se calam, populações são segregadas, as condições de vida tornam-se anômalas, serviços públicos, moradia, transporte, educação e trabalho tornam-se caóticos.
A qualidade vida, a saúde física, mental e social dependem de uma complexa configuração de fatores políticos, econômicos, sociais e culturais, de estratégias de desenvolvimento que garantam o acesso não apenas a bens materiais, mas também ao que há de melhor na herança da humanidade: ambientes naturais e construídos, arte, cultura, beleza, criatividade e convívio com seres e coisas.
Vítima das calamidades do dia, o “homem comum” não consegue desembaraçar-se da rede diabólica dos interesses e artimanhas políticas e econômicas, do círculo vicioso da pobreza, da deterioração cultural e ambiental, da derrocada dos valores, que reduzem a condição humana ao estado de necessidade das bestas selvagens, gerando agravos que desafiam as proclamadas competências tecnológicas.

Figs.1 e 2. Os problemas básicos estão no bojo do caldeirão efervescente, não nas bolhas que aparecem na superfície.

 “Problemas-bolhas” eclodem nas manchetes dos jornais e na televisão, diagnósticos redutores levam a ações fragmentadas, em um círculo vicioso de novos agravos. Na busca da resolução ilusória de questões pontuais, sacrifica-se a complexidade em nome de uma pretensa objetividade, tenta-se pinçar bolhas de superfície, sem alterar as profundas anomalias no bojo do caldeirão efervescente (fig.s 1; 2).

A tentativa de "inclusão", no atual sistema de coisas, leva os "incluídos" a integrarem o coro daqueles que atribuem a desigualdade, o clientelismo, as diferenças de origem, às próprias vítimas, sem que as opções de desenvolvimento sejam argüidas (desenvolvimentista; neo-liberal; de desenvolvimento humano). Os meios de comunicação, alienados de sua missão educacional e cultural, passam a ser explorados como veículos de marketing e propaganda da sociedade de consumo.

A capacidade de escolha e decisão é duplamente prejudicada: do lado da demanda, pelo empobrecimento do campo cultural, da sensibilidade e do juízo crítico e, do lado da oferta, pela manipulação da informação e “do gosto do consumidor”. A degradação da cultura é mais grave do que a ausência de direitos e deveres prescritos, pouco podem os códigos e instituições, a proclamação de “direitos humanos”, sem o desenvolvimento dos sujeitos e das condições que os sustentam.

Pactos de interesses ou de legítima defesa não obviam a situação das periferias de grandes cidades do mundo, onde crianças e jovens, fora da escola e do “mercado” de trabalho, ficam às voltas com a criminalidade das ruas, abandonados às tentações de consumo, na ausência de espaços comunitários de acolhimento, de projetos voltados para suas necessidades de educação, saúde, esporte, cultura e lazer,.
 Os valores gerados nesse sistema refletem o próprio sistema ("valor sistêmico"), não podendo ser analisados isoladamente (valor "intrínseco"). Uma ecologia social (a palavra "social" é derivada de socius ou companheiro) implicaria a visão da sociedade como uma relação entre companheiros, em termos de um sistema cultural subjacente, associado abandonados às tentações de consumo a qualquer preço, abandonados às tentações de consumo a qualquer preço,  às formas vigentes de interação, comunicação,. produção e consumo,

Objetivos de Mudança
Face aos dilemas, conflitos e desafios do mundo de hoje, propõe-se como objetivo principal é o desenvolvimento de um modelo ecossistêmico de cultura, visando novas formas de ser e estar no mundo, em que prosperem a ética, a cultura, a educação, a cidadania, a confiança mútua, o bem-estar e a qualidade de vida, em termos de transdisciplinaridade, interconexão, intencionalidade, criatividade, criticidade, cooperação e responsabilidade. [quadro 1]
Educação e cultura não agrega remendos em tecidos rotos, nem se limita a conhecimentos e habilidades para ganhar a vida, mas implica em capacidade crítica, aspectos éticos e estéticos, respeito à herança cultural e biológica, às idéias, crenças e pessoas, desenvolvendo auto-estima, criatividade, cidadania e qualidade de vida nos diferentes nichos sócio-culturais, atuais e potenciais.
. A assunção solidária de responsabilidades, tanto pelo devir pessoal como pelo coletivo, passa pela ipseidade [RICOEUR, 1991], pela descoberta do outro, não apenas o outro "próximo", mas um "novo outro" em nós mesmos, envolvendo valores, expectativas e vínculos: identidade-isolamento versus ipseidade-alteridade; domínio-sujeição versus compromisso-integração; abertura-investigação versus controle-instrumentação

Quadro 1
CARACTERÍSTICAS DA ABORDAGEM ECOSSISTÊMICA DE CULTURA

• Analisa os eventos no bojo do caldeirão efervescente, não os reduzindo às bolhas de superfície (questões aparentes ou em voga; sintomas; problemas segmentados, mal definidos).
• Desenvolve novos paradigmas e novas formas de estar-no-mundo.
• Entrelaça, mediante processos de doação e recepção, quatro dimensões de mundo: íntima, interativa, social e biofísica.
• Desenvolve a identidade de cada dimensão e a reciprocidade entre todas elas (singularidade e mutualidade são aspectos que se complementam).
• Gera, de forma de forma endógena, como decorrência do próprio processo, ambientes saudáveis, saúde, ética, educação, cidadania e qualidade de vida.
• Apresenta como atributos transdisciplinaridade, interconexão, intencionalidade, criatividade, criticidade, cooperação e responsabilidade.
• Ética, educação, saúde, cidadania e qualidade de vida não prosperam em modelos não-ecossistêmicos de cultura e neles permanecem como meros simulacros.

PILON, 2003

Questões de disciplinaridade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade devem ser discutidas: a disciplinaridade e o aumento das especializações geram separação, domínio, dualismo, competição e hierarquia [O’ SULLIVAN, 1987]; a multidisciplinaridade permanece nas fronteiras entre “áreas” de conhecimento; a transdisciplinaridade as transcende, apontando para novos objetos de conhecimento.
Os princípios organizadores do conhecimento apoiam-se nas relações entre os fenômenos, no reconhecimento de sua complexidade, nos saltos qualitativos e nos processos dialéticos entre realidades subjetivas e objetivas. A prescrição cede lugar à invenção e à descoberta, o compromisso com a “problematização” vai além da “solução de problemas”.
Nos “nichos ecológicos de geração de conceitos” [POSNER, 1983], prescrição, auto-suficiência e pensamento paradigmático devem ser substituídos por interconexão, isonomia e flexibilidade, envolvendo capacidade crítica para reconhecer o sentido das coisas e as implicações de uma idéia nas situações mais complexas. A análise dos problemas exige conhecimento, não apenas informação, ação-reflexão, não meros esquemas operacionais ou táticos, atenção aos atos, situações e valores implicados, não simples identificações e classificações [LEFEBVRE, 1978]..

Quadro 2      
CONFIGURAÇÃO DE CAMPO DO MODELO ECOSSISTÊMICO DE CULTURA

DIMENSÕES

RECEPTORAS

 

Íntima

Interativa

Social

Biofísica

DOADORAS

Pessoas

Grupos

Sociedade

Ambiente

Intima
Pessoas

Auto-Cuidado
e Desenvolvimento

Adesão
 Participação

Cidadania
 Interesse Público

Cuidado Ambiental
Seres e Coisas

Interativa
Grupos

Apoio às Pessoas
Acolhimento

Compartilhamento
Participação

Associativismo
Ações Coletivas

Projetos Solidários
Ações Ambientais

Social
Sociedade

Salvaguarda de Direitos e Deveres:

Políticas Associativas
Grupos e Redes:

Aperfeiçoamento
das Instituições

Proteção Ambiental e dos Seres Vivos

Biofísica
Ambiente

Sustentação da
Vida das Pessoas:

Sustentação da
Vida dos Grupos

Sustentação da
Vida  Coletiva

Equilíbrio Biofísico
Diversidade

Leitura horizontal (linhas): O que cada dimensão pode doar a si mesma e às demais
Leitura vertical (colunas): O que cada dimensão pode receber de si mesma e das demais..

Metodologia de Trabalho
Há duas formas de planejar o futuro: a normativa projeta para amanhã as tendências de hoje, a exploratória define previamente os objetivos e explora novos caminhos para atingi-los [JUNGK, 1974].  Novas formas de ser e estar no mundo dependem de experiências que propiciem a revisão de paradigmas e formas de pensar, sentir e agir, em diferentes circunstâncias e situações.
O diagnóstico e o prognóstico dos eventos implicam a análise das configurações existentes e o planejamento de configurações futuras, em um campo dinâmico em que realidades "internas" e "externas" se conjugam, em termos de ofertas e demandas, doação e recepção, entrelaçando, como numa porta giratória, quatro dimensões de mundo: íntima, interativa, social e biofísica.
No modelo ecossistêmico [Quadro 2], as dimensões se beneficiam do desenvolvimento conjunto (princípios de singularidade e reciprocidade), apoiando e recebendo apoio das demais, em termos de criatividade e originalidade (dimensão íntima), participação e acolhimento (dimensão interativa), equidade e responsabilidade (dimensão social), equilíbrio e diversidade (dimensão biofísica).
Embora os eventos resultem de configurações dinâmicas, do entrelaçamento das diferentes dimensões de mundo, todas elas tem um papel indutor, atual e potencial, embora não autônomo, na geração dos fenômenos, importando distinguir, para efeito de diagnóstico e planejamento, diferentes atores:

  • face à dimensão íntima, os sujeitos, enquanto mediadores entre variáveis “subjetivas” (aspectos cognitivos e afetivos) e variáveis “objetivas” (condições de vida), em termos de horizontes cognitivos e afetivos,  locus de controle existencial, habilidades, auto-estima, motivos, expectativas, crenças, desejos, etc.;
  • face à dimensão interativa, os grupos primários e de referência, as redes de relações (familiares, colegas, amigos, pares, associados), enquanto locus de acolhimento, apoio mútuo, trocas afetivas, construção de significados comuns, liderança compartilhada, diálogo, coesão e inclusão.
  • face à dimensão social, a coletividade, o poder público, em termos de políticas públicas, direitos e deveres, equidade e qualidade de serviços, garantia de trabalho, segurança, cultura, comunicação, educação, cidadania, saúde, ambiente, transporte, moradia, lazer.
  • face à dimensão biofísica, o ambiente natural e construído, os seres vivos e as coisas, os ecossistemas, matéria e energia, fauna, flora, cenários, logradouros, vias, ecúmenos, habitats.

Educação, formação, informação e instrução têm conotações diferentes. A educação implica em intercâmbio e transformação dos elementos do universo conceitual dos interlocutores [fig.s 3 e 4], conjugando aspectos cognitivos, éticos e estéticos, sem os quais transforma-se numa questão meramente metodológica, integrando conteúdos esvaziados dos valores, incapaz de propiciar novas visões de mundo face à cultura vigente.

Nos nichos sócio-culturais de ensino-aprendizagem, a utilização de objetos intermediários1 desvela a relação entre sujeitos e objetos de conhecimento, sentimento e ação, envolvendo, as dimensões íntima (subjetividade), interativa (redes de relações), social (aspectos culturais, políticos, sociais e econômicos) e biofísica (ambientes naturais e construídos, seres vivos, matéria e energia).

Projetos de bem-estar social, educação, saúde, segurança e cidadania devem ser desenvolvidos de forma ecossistêmica, articulando diferentes áreas [fig.s 5 e 6]; no campo, princípios bastante divulgados [ROCKFELLER FOUNDATION, 2002], podem servir como roteiro de trabalho:

  • considerar as pessoas e os grupos como componentes essenciais de sua própria mudança, ao invés de objetos da mudança.
  • apoiar o diálogo e o debate dos assuntos fundamentais de preocupação, ao invés de elaborar, testar e distribuir mensagens.
  • introduzir as mensagens com sensibilidade no diálogo e debate, ao invés de repassar informações de peritos e técnicos de forma didática.
  • enfocar as normas sociais e políticas, a cultura e os apoios ambientais, não comportamentos individuais.
  • negociar com as pessoas o melhor modo de levar adiante um processo participativo (alianças), ao invés de tentar persuadi-las a fazerem algo.
  • enfatizar o papel central das pessoas afetadas pelas questões em pauta, ao invés de dirigir o processo por peritos e técnicos de agências externas.

Quadro 3
RECIPROCIDADE DE PAPÉIS NO MODÊLO ECOSSISTÊMICO DE CULTURA SITUAÇÃO DE DOAÇÃO

SITUAÇÃO DE RECEPÇÃO

ÍNTIMA

INTERATIVA

SOCIAL

BIOFÍSICA

ÍNTIMA

Criatividade

Apoio pessoal

Serviços

Vitalidade

INTERATIVA

Cooperação

Coesão grupal

Facilitação

Nichos

SOCIAL

Cidadania

Parcerias/redes

Equidade

Manutenção

BIOFÍSICA

Cuidado

promoção

Sustentação

Equlibração

No modelo ecossistêmico de cultura cada dimensão de mundo apoia e recebe apoio das demais (princípios de singularidade e reciprocidade), promovendo o desenvolvimento de uma configuração global favorável à qualidade de vida.

Quadro 4
PERVERSÃO DE PAPÉIS NO MODÊLO NÃO-ECOSSISTÊMICO DE CULTURA SITUAÇÃO DE DOMÍNIO

 

SITUAÇÃO DE AGRAVO

 

ÍNTIMA

 

INTERATIVA

 

SOCIAL

 

BIOFÍSICA

 

ÍNTIMA

 

AUTISMO

 

CO-OPTAÇÃO

 

DOMINAÇÃO

 

AGRESSÃO

 

INTERATIVA

 

MANIPULAÇÃO

 

FANATISMO

 

INSTRUMENTAÇÃO

 

DISPERSÃO

 

SOCIAL

 

TIRANIA

 

CORPORATIVISMO

 

TOTALITARISMO

 

EXTINÇÃO

 

BIOFÍSICA

 

PREDAÇÃO

 

DANIFICAÇÃO

 

ESPOLIAÇÃO

 

SELVATIZAÇÃO

No modelo não-ecossistêmico de cultura ocorrem rupturas, isolamento e manipulação das dimensões de mundo, busca de hegemonia e conflitos permanentes prejudicam a sustentação recíproca, deteriorando a qualidade de vida.

4. Conclusões

A qualidade de vida exige um novo conceito de normalidade, apoiado no desenvolvimento, não na "reparação" ou "conserto" de coisas ou pessoas [MIAH, 2003].. Mudanças éticas, culturais, educacionais, políticas, sociais e econômicas, equidade, justiça e paz, dependem de novos paradigmas, de um “upgrade” das formas de estar-no-mundo, de um novo patamar, além do progresso tecnológico.

As questões de convivência, segurança, saúde, educação, cultura e qualidade de vida serão melhor encaminhadas se as políticas públicas, ao invés de limitar-se apenas às questões emergentes, a programas segmentados, às bolhas-problema de superfície, atentarem para o caldeirão efervescente, integrando as quatro dimensões de mundo. O futuro dependerá do modelo de cultura adotado:

  • se o modelo for ecossistêmico [quadro 3],haverá interação, “feed-back” e desenvolvimento mútuo; como receptoras e doadoras, as dimensões serão proativas, o crescimento será recíproco, as diferenças serão enriquecedoras, a liberdade estará associada à responsabilidade;
  • se o modelo for não-ecossistêmico  [quadro 4], diferenças e conflitos serão exacerbados, o poder permanecerá como “domínio e exploração”; a riqueza, como “exploração predatória”; o crescimento, como “expansão ilimitada”; o trabalho, como “especialização segmentada” [O’SULLIVAN, 1987].

Fig. 7.  Da convivência com a natureza nas sociedades primitivas à sua destruição nas sociedades contemporâneas

Além das medidas reguladoras, é necessário compreender e responder às necessidades das pessoas, articular diferentes setores e territórios, influenciar os que detém poder de informação e decisão, utilizar meios de comunicação com o público, associar a informação às políticas de intervenção, encorajar participação e autonomia, combinar desenvolvimento pessoal, informação, educação, serviços e ação comunitária, prover apoio técnico e administrativo [CATFORD, 1992].
Para que as pessoas possam associar liberdade e responsabilidade e participar de um novo projeto de vida coletivo, é preciso desenvolver um modelo ecossistêmico de cultura, conjugando a participação de atores de diferentes faixas etárias e condição social e econômica, tendo em vista o encontro, a troca de experiências e o diálogo como aspectos essenciais para a elaboração conjunta de um novo projeto de vida [fig. 8].
Face às crescentes ameaças que pairam sobre o planeta, processos caóticos nos centros urbanos que mais crescem no mundo impedem o desenvolvimento de “cidades saudáveis”, que deveriam reunir as características seguintes {W.H.O, 1992]:

  • comunidades fortes, solidárias e não auto-destrutivas;
  • ambientes seguros e limpos (inclui a moradia);
  • ecossistemas estabilizados e sustentáveis;
  • ampla participação e controle públicos das questões de qualidade de vida;
  • atendimento às necessidades básicas;
  • acesso a variada gama de experiências e recursos;
  • possibilidade de contatos, interação e comunicação;
  • acesso universal aos cuidados de saúde/doença;
  • alto nível de saúde pública;
  • entorno compatível com a memória urbana e a herança cultural e biológica dos cidadãos;
  • economia diversificada, vital e inovadora.

A outorga de direitos não é suficiente para consolidar a democracia: pouco serve, por exemplo, dar a todos o "direito de tocar piano" se não houver liberdade para tocá-lo, isto é, se ninguém aprendeu como fazê-lo. Liberdade não é apenas a ausência de coerção externa (liberdade "de"), mas é a capacidade de agir adequadamente, escolhendo, de forma responsável, o que é melhor para si e para os demais (liberdade "para") [FROMM, 1966].
As questões de convivência, segurança, ambiente, saúde, educação, cultura e qualidade de vida dependem de um desenvolvimento ecossistêmico de cultura [quadros 5 e 6]; as políticas públicas não podem ser definidas em termos de programas segmentados, voltados apenas para questões emergentes, para as bolhas-problema de superfície, sem atentar para o bojo do caldeirão efervescente, para os diferentes fatores que se acumulam e se refletem sobre todas as dimensões de mundo [fig. 7].
O neo-liberalismo, como um anarquismo “às avessas”, ao rejeitar valores básicos e práticas democráticas de controle, possibilita que grupos políticos e econômicos hegemônicos, de forma manifesta ou camuflada, extendam sua dominação e exploração, em detrimento da cooperação, da produção em escala humana, da descentralização política e econômica, do respeito ao ambiente natural e construído, com as terríveis consequüências que testemunhamos no mundo de hoje.

Referências bibliográficas

ARON, R. Main currents of sociological thought. Ancor Books, Garden City, N. Y., 1970.
CATFORD, J. Foreword. Vital Signs of Health Promotion. in Bunton, R. & MacDonald, G. Health promotion. Disciplines and diversity. Routledge, London, 1992:  X-XII.
FROMM,  E. O medo da liberdade. Zahar Edits., S. Paulo, 1966
JUNGK, R. Pari sur  l’homme. Ed. Robert Laffont, Paris, 1974.
LEFEBVRE, H. Le manifeste differentialiste. Paris. Galimard, 1970.
MIAH, A. Be Very Afraid: Cyborg Athletes, Transhuman Ideals & Posthumanity. The Journal of Evolution and Technology, 13 (2), October, 2003.
O’SULLIVAN, P. E. Environment science and envinonment philosphy. The Int’l J. of Environment Studies, 28, 97-107; 257-267,1987.
PILON, A. F. Experience and Learning in the Ecosystemic Model of Culture. The Communication Initiative, Health e Communication - Lectures,  2003       http://www.comminit.com/pmodels/sld-8179.html
PILON, A. F. Educação Ambiental  em Quatro Dimensões de Mundo: uma Proposta Ecossistêmica. Faculdade de Saúde Pública, Universidade de S. Paulo, 2002       http://www.bvs-sp.fsp.usp.br/tecom/docs/2002/pil001.pdf
POSNER, G. J. The conceptual ecology of science education: a response to W. F. Connell. Paper presented at the Annual Meeting of the American Educational Research Association, Montreal, april, 1983.
RICOEUR, P. O si-mesmo como um outro. Papirus, Campinas, 1991.
ROCKEFELLER FOUNDATION’S Communication and Social Change Network. Exploring the development of indicators derived from a social change and social movement perspective The Communication Initiative Forum www.comminit.com
WORLD HEALTH ORGANIZATION Twenty steps for developing a healthy cities project. Reg. Off. For Europe, 1992.

Figs 3 e  4     A educação implica em intercâmbio e transformação dos elementos do universo conceitual dos interlocutores, em termos de originalidade, criatividade e autonomia, favorecendo o desenvolvimento do conhecimento, tanto “ popular” como “erudito”.

Fig. 5 e 6       Diferentes nichos sócio-culturais podem ser articulados em termos das necessidades básicas do ser humano
Fig. 8
VIOLÊNCIA E PAZ EM DOIS MODELOS DE CULTURA

Conseqüências nas Quatro  Dimensões de Mundo

Dimensões

Modelo Ecossistêmico

Modelo Não-Ecossistêmico

Intima

Auto-estima, abertura, conduta pró-ativa

Depressão, delinqüência

Interativa

Apoio mútuo, inclusão

Rigidez ou ruptura

Social

Diversidade social e cultural

Totalitarismo,  criminalidade

Biofísica

Equilíbrio ambiental

Desequilíbrio ambiental

PILON, 2003

Quadro 5

CONFIGURAÇÃO DO MODELO ECOSSISTÊMICO DE CULTURA

 

Dimensões receptoras

 

Íntima

Interativa

Social

Biofísica

Dimensões
doadoras

Bem-estar Subjetivo

Desenvolvimento
dos Grupos

Bem-estar Coletivo

Equilíbrio Biofísico

 

Intima
(papel das pessoas)

O que as pessoas podem fazer
pelas dimensões do mundo

Tornarem-se pessoas:

Buscar o próprio desenvolvimento cognitivo, afetivo, ético e cultural; exercer controle existencial

Estabelecer vínculos:
Desenvolver solidariedade e compreensão mútua  (famílias, colegas, companheiros, outros grupos sociais

Exercer a cidadania:

Participar em questões de interesse público a nivel mundial, nacional e local,
Assumir responsabilidades

Cuidar de si e do entorno:

Cuidar
do ambiente
natural e
construído e
dos seres que
neles vivem

 

Interativa
(papel dos grupos)

O que os grupos podem fazer pelas dimensões de mundo

 

Acolher as pessoas:

Facilitar o acolhimento e desenvolvimento das pessoas em diferentes grupos (família, pares, associações)

 Sustentar a si e a outros grupos:

Desenvolver processos de dinâmica de grupo
(coesão, liderança, cooperação, alianças e parcerias)

Organizar
a ação coletiva:
Apoiar movimentos sociais em prol da qualidade de vida, cidadania, educação, cultura,  saúde  e bem-estar social

Atuar sobre a vida e entorno:

Cuidar dos seres vivos e do ambiente natural e construído a nível local, regional e global

 

Social
(papel público)

O que a sociedade  pode fazer pelas dimensões do mundo

Promover as pessoas:

Garantir às pessoas acesso à saúde, educação, abrigo, segurança, cultura, trabalho, transporte, lazer e cultura e justiça.

Promover os grupos:
Facilitar a formação de grupos formais e informais (associações cívicas, culturais, esportivas, educacionais etc)

Aperfeiçoar as Instituições

Promover políticas públicas  visando o bem estar social (participação,
acessibilidade,
equidade,
justiça)

Promover o entorno e a vida
Promover o desenvolvimento de ambientes naturais e construídos saudáveis, estéticos e seguros

 

Biofísica
(papel do entorno)

O que o entorno natural e construído pode fazer pelas dimensões de mundo

Prover recursos e espaços às pessoas:
Satisfazer necessidades vitais, estéticas,  contemplativas e
de lazer ;
vida saudável no campo e nas cidades

Prover recursos e espaços à vida em grupos:

 Prover locais
 para atividades associativas e o convívio humano
(nichos sócio-
culturais)

Prover recursos e espaços à vida em sociedade:

Prover ambientes e instalações para  atividades sociais, econômicas, culturais, esportivas e de
lazer

Propiciar equilíbrio ecossistêmico:

 

Manter  o equilíbrio  vital: biodiversidade, habitats, nichos, flora, fauna,
qualidade do ar, água, solo

PILON, 2003

Quadro 6

Geração de Eventos em Quatro Dimensões de Mundo
Diagnóstico e Prognóstico de Situações Associadas à Qualidade de Vida

1. Definição dos Eventos   A configuração formada pelas quatro dimensões de mundo (íntima, interativa, social e biofísica) deverá ser descrita em termos da totalidade do campo dinâmico formado pela ação recíproca de cada dimensão sobre si mesma e sobre as demais, campo esse responsável pelos eventos tal qual se apresentam; a definição dos eventos implica na definição das circunstâncias e dos espaços de vida das populações nas quatro dimensões de mundo:

1.1. Definição da População         As populações deverão ser descritas mediante indicadores nas quatro dimensões de mundo: dimensão íntima: aspectos cognitivos e afetivos; dimensão interativa:  dinâmica dos grupos de filiação; dimensão social: condições políticas, econômicas, sociais, educacionais e culturais e dimensão biofísica: fatores demográficos, sanitários e biofísicos (idade, gênero, naturalidade, etnia, etc.)

1.2. Definição do Espaço de Vida                       O espaço de vida deverá ser descrito sob as dimensões biofísica e social: aspectos geopolíticos, culturais, ecúmeno (urbano/rural), assentamentos, entornonatural e construído, edificações e vias públicas, logradouros, locais de moradia, trabalho, estudo, lazer e cultura, serviços de utilidade pública, organizações comunitárias, condições ambientais, saneamento e ecossistemas (solo, água, ar, flora, fauna),..

2. Definição de estratégias de intervenção        As estratégias de intervenção (capacitação da população, construção de redes de apoio, desenvolvimento de políticas públicas, geração de ambientes saudáveis) deverão considerar as quatro dimensões de mundo, face à sua situação atual e futura, em termos do desenvolvimento recíproco (papéis de doação e recepção), visando a alteração da configuração atual em benefício de nova configuração, favorável aos objetivos de qualidade de vida, cidadania, educação, cultura, saúde, ambiente etc.

2.1 Definição da abordagem educativa e psicossocial           Os componentes educativos e psicossociais do projeto de intervenção deverão ser descritos, visando a capacitação da equipe de apoio e da população face às quatro dimensões de mundo: propiciando desenvolvimento pessoal e controle existencial (dimensão íntima), constituição de redes de apoio (dimensão interativa), participação política, econômica, cultural, cidadania e “empowerment” (dimensão social), qualidade ambiental e condições de vida (dimensão biofísica).

2.2. Definição de formas de implementação, seguimento e avaliação       As modalidades de trabalho junto à população, organizações públicas e privadas, meios de comunicação social e agências da comunidade deverão ser descritas, explicitando programas e atividades conjuntas, parcerias, critérios de execução, avaliação e seguimento do projeto, conseqüências e resultados esperados face a variáveis relevantes nas quatro dimensões de mundo.
PILON, 2003


André Francisco Pilon

Profesor Asociado, Facultad de Salud Pública, Universidad de São Paulo, Brasil. Doctor en Salud Pública, Especialista en Promoción de la Salud y en Educación para la Salud, Ocupó los cargos de Director de la División de Educación Sanitaria del Ministerio de la Salud, Brasil; de Psicólogo del Juzgado Central de Menores de la Comarca de São Paulo y de Director-Responsable de la Revista Academus  (BLISSN  0001-4230). Miembro del World Council for Curriculum and Instruction (WCCI), de la Unión Internacional de Promoción de la Salud y Educación para la Salud (IUHPE) y del Centro de Investigación, Documentacioón y Desarrollo de Ciudades Saludables (CEPEDOC). Representante institucional en el Consorcio InterAmericano de Universidades y Centros de Promoción y Educación para la Salud.
Faculdade de Saúde Pública - Universidade de São Paulo
Av. Dr. Arnaldo, 715, S. Paulo, S.P., Brasil, 01246-904
Fax: 55 11 3083-3501 - E-mail:  gaiarine@usp.br


Nota:

1- Objetos intermediários propiciam a revelação das relações sujeito-objeto e facilitam a análise de conteúdos e processos envolvidos nas formas de conhecer, sentir e agir em termos dos sujeitos, do grupo, da cultura e do entorno de vida, fornecendo subsídios epistemológicos e antropológicos para a análise das formas-de-estar-no-mundo que afetam a qualidade de vida.