ComCiência - No. 100 - 10/07/2008
EntrevistaPor Nereide Cerqueira e Marta Kanashiro
A revista ComCiência, em comemoração à sua 100ª
edição, publica uma com seu diretor de redação,
Carlos Vogt. Poeta e lingüista, ele trata das origens da revista, da cultura
científica e da institucionalização da divulgação
científica no Brasil. Vogt, que já foi reitor da Unicamp e presidente
da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp), atualmente é coordenador do Laboratório de Estudos
Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp) e Secretário de Ensino
Superior do Estado de São Paulo.
Carlos Vogt es miembro de la Comisión Asesora de Expertos de la OEI
Como foi o surgimento da revista ComCiência?
A revista ComCiência nasceu com a primeira turma do Curso de Especialização
em Jornalismo Científico, como parte de um processo de formação
dos estudantes. Isto é, a revista foi proposta como um laboratório
para o exercício dos alunos do curso, para a fazerem a apresentação
pública dos textos. O nome ComCiência foi produto de um concurso
realizado entre os próprios estudantes, para sugestão de nomes.
Desta idéia, de termos uma publicação eletrônica
no Labjor para o exercício da produção de textos dos alunos
do curso, e da qualidade da produção que observamos, seguiu-se
a proposta para SPBC que essa fosse também uma publicação
associada Labjor-SBPC.
Em 1999, na reunião do conselho da SBPC, onde estávamos eu e
Mônica Macedo (uma das idealizadoras do projeto), fizemos para o conselho
uma apresentação da revista. Apesar de incipiente, a ComCiência
já estava bem estruturada, com o perfil que prevalece até hoje,
e o conselho da SBPC aprovou que a revista passasse a ser uma publicação
SBPC-Labjor. Até hoje ela carrega o logo da SBPC como uma das instituições
que patrocinam a produção da revista.
O número 100 é interessante porque marca o desenvolvimento de
uma publicação que começa como exercício acadêmico,
escolar, para formação dos alunos e que continua desse modo, com
essa função e, ao mesmo tempo, tem essa expressão mais
profissional de publicação na área de divulgação
científica. A revista passou a ser um referencial nas publicações
eletrônicas, tanto para a leitura descomprometida, por prazer, como se
pode ver pelo perfil dos leitores, como também do ponto de vista de formação
dos alunos de ensino médio que usam a revista como fonte para trabalhos
escolares, e ainda em outro nível, como referência para produção
de textos acadêmicos.
A revista não é só uma publicação empenhada
na divulgação científica para públicos diversos,
seja de ensino médio ou de especialistas, como ela também abarca
a formação na área de jornalismo científico e divulgação
científica. Isso torna a revista um caso particular. Ela é uma
revista de divulgação, mas é um laboratório de formação
acadêmica, é uma revista de referência acadêmica porque
aparece citada em trabalhos acadêmicos, como teses. E isso tudo porque
ela tem uma estrutura, que foi a concepção original da revista,
que trabalha com diferentes níveis da divulgação, e associa
textos de especialistas sobre um tema específico, com reportagens mais
gerais. O que se busca é um equilíbrio entre o olhar mais focado
e o mais generalista em torno do assunto que está sendo tratado. Uma
outra particularidade da revista é que ela, desde o começo, se
propôs tratar da ciência enquanto divulgação científica,
no sentido amplo, isto é, tratar das ciências humanas, das ciências
exatas, das ciências da vida, das humanidades, isto é, tratar desse
universo que é abarcado pelo conceito amplo de cultura científica.
Qual é esse conceito de cultura científica e como isso influi
na forma de divulgação científica?
Há um conceito bastante difundido de que cabe à divulgação
científica preencher uma lacuna de informação que o leigo
não tem em relação à ciência, isto é,
que o leigo é, portanto, analfabeto cientificamente. Por isso os norte-americanos
chamam essa atividade de scientific literacy, que é alfabetização
científica, isto é, tornar, portanto, o leigo informado das questões
da ciência. A partir de surveys e enquetes sobre essa questão,
notaram que também nos Estados Unidos o percentual da população
que tinha informação sobre muitas questões, eventos ou
fatos científicos era relativamente pequeno. Esse déficit de informação
- teoria do déficit - orientou durante muito tempo as atividades de divulgação.
O que cabia à divulgação científica? Cabia suprir
o déficit de informação da população leiga
em relação à ciência. Portanto, considerava-se como
pressuposto que a população leiga era ignorante do ponto de vista
científico e era preciso então levar a ela o conhecimento.
Com o decorrer das atividades em vários países, na Inglaterra,
na França, na Europa de modo geral, e com o reflexo disso em países
como o Brasil, essa teoria do déficit foi sendo substituída por
uma visão mais democrática do papel da divulgação
científica. Nessa visão, não cabe à divulgação
científica apenas levar a informação, mas também
atuar de modo a produzir as condições de formação
crítica do cidadão em relação à ciência.
Não só cabe à divulgação a aquisição
de conhecimento e informação, mas a produção de
uma reflexão relativa ao papel da ciência, sua função
na sociedade, as tomadas de decisão correlatas, fomentos, aos apoios
da ciência, seu próprio destino, suas prioridades e assim por diante.
Isso vai além da atitude inicial, na qual o cientista era o sábio,
o cidadão era o ignorante e o jornalista científico ou divulgador
da ciência era o construtor da ponte entre essas figuras, de maneira a
suprir o tal déficit de informação. Essa visão foi
sendo enriquecida. E, na Inglaterra, desenvolveu-se o que se chama public understanding
of science, que é diferente do scientific literacy, do ponto de vista
americano e, em seguida, um conceito que é ligado ao primeiro, mas um
pouco diferente, que é o public awareness of science. Um é o entendimento
público de ciência, e o outro é a consciência pública
da ciência. Nesses casos, o que está sendo enfatizado não
é só a aquisição da informação, a
possibilidade de acesso à informação, mas a formação
do cidadão no sentido em que ele possa ter opiniões e uma visão
crítica de todo o processo envolvido na produção do conhecimento
científico com sua circulação e assim por diante. Esse
é um conceito relacionado à cultura científica que modifica
os modos de se fazer e pensar a própria divulgação.
Os projetos institucionais do Labjor, que de uma forma geral, envolvem divulgação,
e mesmo sua própria concepção de cultura científica,
podem ser considerados como instrumentos de inclusão?
O pressuposto é de que se você oferece condições
de acesso democrático à informação a toda população,
viabiliza um conhecimento que tem a força para socializar, portanto,
para produzir o chamado fenômeno da inclusão social do ponto de
vista da informação. É claro que questão social
é uma questão de fundamento material e econômico. Mas com
relação à informação, esses projetos e a
proposta de cultura científica são inclusivos, pois promovem informação
reflexiva e de qualidade sobre ciência. A revista ComCiência tem
pela qualidade dos textos, dos colaboradores e da produção, um
papel muito importante. É um site interessante porque ele é livre,
é aberto e é em português. É interessante observar,
por exemplo, o número de acessos crescente da revista. Hoje tem 800 mil
visitações, é um número significativo.
Mas, e quando se trata da ciência em nível decisório?
Com a institucionalização da ciência cada vez mais acentuada
e mais forte, e com a sofisticação de toda infra-estrutura necessária
para a produção de conhecimento de pesquisa em diferentes áreas,
as condições dessa produção foram cada vez mais
sendo dependentes também dos investimentos que devem ser feitos para
que essas coisas aconteçam. E esses investimentos são disputados
por diferentes programas, por diferentes prioridades. E as decisões são
decisões que cada vez mais se tomam em fóruns de participação
mais aberta, ou seja, não só por cientistas, mas por políticos
e empresários. Isto é, quem são os decision makers? Essa
história da democracia participativa foi gerando também a necessidade
de que a divulgação pudesse cumprir um papel de formação
crítica no leigo, que muitas vezes é quem vai representar uma
ONG, um sindicato, e para isso não se espera que ele fique lá
batendo estaca, batendo o pé no chão, sem a visão crítica
da coisa.
Um dos conceitos, uma das conseqüências, um dos efeitos, digamos
assim, perlocutórios da ciência e da tecnologia é a questão
dos riscos implicados. E isso passou a ser debatido em fóruns que não
têm mais o fechamento que tinha antes, em que o cientista decidia isso,
o empresário sozinho decidia ou o governo sozinho decidia. Hoje há
uma participação tão mais aberta da sociedade, que é
necessário que as questões estejam sob um entendimento mais claro,
mais desenvolvido. Porque mesmo que uma pessoa não seja um cientista,
se ela tiver uma visão minimamente razoável do que se trata, sua
decisão, seu voto, a sua participação será uma participação
criticamente valiosa. Então, isso vale para as tomadas de decisão,
para o destino dos investimentos. Onde botar o dinheiro? Por que botar dinheiro
aqui, não botar ali e assim por diante. Quem decide isso?
Eu brinco com uma frase do Nelson Rodrigues que dizia que pênalti é
uma coisa tão importante que é o presidente do clube que devia
bater, eu digo que ciência é um negócio tão importante
que não pode ser decidido só pelos cientistas. Agora, não
é só pelos cientistas, é pela sociedade como um todo. Não
fazer a ciência, não estou dizendo que você vai votar no
piloto do avião, em quem vai ser o piloto do avião, não
é isso que estou dizendo. Estou dizendo que essas decisões são
decisões que devem ser tomadas em fóruns mais abertos do que fóruns
propriamente técnicos.
No Brasil você tem uma instituição que foi criada dentro
desse espírito, que é a CTNBio (Comissão Técnica
Nacional de Biossegurança) e que tem uma participação representativa
de cientistas, de acadêmicos, de agentes governamentais, de sindicatos,
etc, e que é um órgão normativo. Então isso é
um novo cenário no mundo todo. Estou dizendo isso para enfatizar o fato
de que a questão da divulgação tem um papel estratégico
principalmente, um papel fundamental do ponto de vista da participação
crítica da sociedade como um todo nessas questões de ciência,
que dizem respeito aos destinos, às formas, aos investimentos, aos riscos
e assim por diante, aos aspectos todos que envolvem a produção
científica.
E como o Labjor atua dentro desse contexto de produção e circulação
do conhecimento científico?
Eu penso que nós aqui no Labjor entramos exatamente nesse momento de
mudança de visão, da science literacy para uma visão mais
crítica e reflexiva. O Labjor foi fundado em 1994, e éramos o
Alberto Dines, o José Marques de Melo e eu com a idéia de fazermos
um laboratório de estudos avançados em jornalismo que tratasse
dos temas do jornalismo em geral, desenvolvendo uma atitude crítica,
capacitando profissionais. A idéia de nós enfatizarmos uma linha
de jornalismo científico surgiu logo em seguida, com a criação
do curso. Isso foi em 1997, com a 3ª edição do Pronex (Programa
de Apoio a Núcleos de Excelência) - um grande programa nacional
criado pelo Ministério da Ciência e da Tecnologia, administrado
pelo CNPq. Apresentamos um programa de desenvolvimento de um núcleo de
jornalismo científico, com um programa de pós-graduação,
de especialização, incluindo as publicações e linhas
de pesquisa. A aprovação desse projeto, na época com 700
e poucos mil reais pra cinco anos, permitiu que traçássemos uma
linha de atuação que associou o trabalho de produção
das revistas como a ComCiência, Ciência e Cultura, revista Patrimônio
e outras publicações, como a revista Inovação e
depois Conhecimento e Inovação, com as atividades de formação
de pesquisadores e divulgadores na área (de formação, portanto,
de educação para divulgação, de educação
para a ciência). Portanto, ao mesmo tempo, constituímos linhas
de pesquisa que permitissem o aprofundamento do trabalho de formação
de especialistas, de produção do conhecimento e de divulgação
científica. Foi algo extremamente original e fecundo na história
da atividade de divulgação científica, porque criamos um
projeto, que incluiu um programa de pós-graduação, linhas
de pesquisa, publicações, formação de pessoal, tudo
isso com intuito de dar institucionalidade à atividade de divulgação
científica como formação, chamando para o curso não
só jornalistas, mas especialistas de todas as áreas, como é
o caso de vários colegas de curso.
Além disso, é interessante pensar que todo esse cenário
que eu estava desenhando, sobre as decisões acerca da ciência e
a participação da sociedade nesse processo, isso tudo veio acontecendo
junto e, no Brasil, também foi se sentindo a necessidade de iniciativas
que apoiassem, que incentivassem, que mobilizassem os acadêmicos, os profissionais,
etc no sentido do interesse pelo tema da divulgação. Ao mesmo
tempo em que nós estávamos criando o curso, essa coisa toda, a
Fapesp estava criando o programa MídiaCiência, com características
interessantes porque é um programa para concessão de bolsas de
até um ano para que o estudante possa se dedicar à sua formação
em divulgação científica. Isso tudo tem a ver com esse
cenário que eu estava desenhando, com essa preocupação
de se criar condições institucionais, para motivar o médico,
o biólogo, o físico, o economista, o engenheiro, os jornalistas,
etc, a focar a questão da divulgação científica.
O MídiaCiência é um programa ao qual nosso curso recorre
bastante intensamente e que tem nos apoiado de maneira muito forte e importante.
De que forma essa trajetória conecta-se com sua proposta de “espiral
da cultura científica”?
A atividade científica também é uma atividade cultural
específica, tem especificidades, tem características dos pontos
de vista lingüístico, sociológico, epistemológico,
filosófico. É uma atividade cultural que tem características
muito específicas no que diz respeito aos aspectos da produção
do conhecimento científico e que tem características que vão
se agregando a esta do ponto de vista não só da produção
do conhecimento, mas da circulação social do conhecimento científico,
pelo ensino, pelas atividades de motivação em torno da ciência
e das atividades de divulgação. Então, com isso, eu tentei
representar na “espiral da cultura científica” que é
a idéia desse movimento.
É claro que isso é uma visão que supõe que o conhecimento,
que a história caminha por superação de etapas. Não
tem aí ainda os abalos que depois se instalariam e que um pouco estão
instalados nessa história de pós-modernidade. O conceito de cultura
científica que eu tentei explicitar com a “espiral da cultura científica”
possui essa dinâmica, e é algo que está muito presente nas
publicações que fazemos. A ComCiência é muito isso.
Ela não é uma publicação científica clássica,
ela não é uma publicação jornalística no
sentido específico. Ela é uma publicação de cultura
científica. E a revista Ciência e Cultura é a mesma coisa,
porque ela é uma revista que está entre a expressão do
especialista e a visão generalista dos temas que são tratados.
É algo que hoje está muito presente nos grandes projetos institucionais
que caracterizam as atividades científicas do mundo, não só
do país como fora daqui. Os Cepids (Centros de Pesquisa, Inovação
e Difusão) da Fapesp são muito isso. Então, são
projetos que supõem produzir conhecimento, pesquisar, portanto, mas também
circular esse conhecimento, tanto pelo ensino, pela difusão, como pela
divulgação do conhecimento. Assim como, no caso do CInAPCe, que
é um programa que tem características fortes de pesquisa, altamente
compartimentada, mas multidisciplinar e, ao mesmo tempo, uma atividade que se
relaciona fortemente com a interação social desse conhecimento
e as relações que se produzem.
O conceito de cultura científica é mais interessante porque é
mais amplo, mais envolvente. Permite trabalhar nesses segmentos onde o conhecimento
compartilha essa dubiedade que é característica da dinâmica
própria do conhecimento que é estar entre a ciência e a
arte, e assim por diante. Além do curso de especialização
(lato sensu), o mestrado (stricto sensu), que se tornou uma realidade no Labjor
agora, é também a expressão institucional desse movimento.
Implementar um mestrado em divulgação científica e divulgação
cultural é um esforço de tentar trabalhar nessa linha.
O Labjor faz algum tipo de pesquisa, de medição, para avaliar
o modo como a ciência e a tecnologia chegam ao público?
Tudo isso deve ser integrado. A ação institucional tem que ser
sempre uma ação organizada e organizadora, tem que ser orgânica
nesse sentido. As instituições, em geral, são orgânicas,
senão, não funciona. Então, por um lado temos a idéia
do curso, das revistas, que vão trabalhando com essa questão da
divulgação e dessa relação entre ciência e
sociedade. Ao mesmo tempo, há a preocupação em colocar
o laboratório em linhas de pesquisa que tem a ver com a percepção
pública da ciência, isto é, através dos surveys,
realizar pesquisa quantitativa e análise qualitativa do modo como a ciência
e a tecnologia chegam ao público. Nesse trajeto temos o SAPO (Scientific
Automatic Press Observer). É uma mudança em relação
às análises centimétricas, como era feita tradicionalmente
a avaliação quantitativa da ocorrência dos temas de ciência
e tecnologia na mídia, ou o destaque e a importância dados nos
jornais para ciência. O que imaginamos para essa mudança foi um
dispositivo, um motor de buscas, como é o Google, por exemplo, que faz
varreduras e consegue oferecer resultados que podemos quantificar e assim gerar
condições para fazer análise qualitativa da freqüentação
dos temas de ciência e tecnologia nos jornais e consequentemente do modo,
do quanto e do como esses temas são freqüentados pelo leitor.
O curso, as revistas, a percepção pública, o SAPO, tudo
isso vai formando partes de um corpo comum, que é trabalhar exatamente
essa relação entre ciência e sociedade sobre diferentes
entradas e diferentes ângulos. Acredito que isso caracteriza o esforço
institucional que realizamos numa universidade como a Unicamp, que tem peso,
que tem importância, que forma pesquisadores.
ComCiência
10 de diciembre de 2008 |