Aprender a tocar violão, teclado ou bateria da mesma forma como fizeram
os maiores talentos da música. Ou quem sabe, utilizar garrafas PET para
confeccionar os próprios instrumentos. Se no passado a formalidade das
partituras e a disciplina dos exercícios afugentavam as gerações
mais jovens, hoje aprender música pode ser sinônimo de um aprendizado
mais interativo, informal e dinâmico. Seja qual for a metodologia, o que
importa é fazer com que os alunos se interessem pela música da
maneira mais divertida possível.
Professora do Departamento de Música da Universidade de Brasília,
Cristina Grossi começou a testar no Brasil, em 2008, uma nova metodologia
de educação musical. Desenvolvido na Inglaterra pela pesquisadora
Lucy Green, o método se baseia na forma como a maioria dos grandes músicos
e bandas aprendeu a tocar seus instrumentos: informalmente. “O segredo
desse método é simples: tirar músicas de ouvido”,
resume a professora.
Segundo Cristina, foi observado na Inglaterra que há um alto nível
de estímulo quando as crianças estão começando a
aprender música, mas, na faixa dos 14 anos, o desinteresse aumenta muito.
Na tentativa de mudar esse fenômeno, a pesquisadora Lucy Green entrevistou
bandas, músicos iniciantes, músicos já formados e roqueiros
por quatro anos com o objetivo de descobrir como eles aprenderam a tocar. O
resultado da pesquisa de Green foi uma metodologia que se fundamenta em cinco
princípios básicos.
Com estes conceitos em mente, Cristina decidiu testar a metodologia de Green
nas escolas brasileiras. Ainda em fase piloto, no Centro Educacional Paulo Freire,
localizado em Brasília, o projeto foi realizado com 150 alunos. Durante
dois meses, alunos e professores exploraram instrumentos musicais, trabalharam
em grupo para tirar músicas de ouvido e se familiarizaram com habilidades
técnicas da música.
A metodologia tem sete etapas. Na primeira, os alunos se dividem em grupos,
escolhem uma música para ’tirar de ouvido’ e depois apresentam para toda
a turma. Segundo Cristina, não é necessário que os alunos
toquem perfeitamente, muito menos que consigam tocar a música inteira.
O objetivo desta etapa é oferecer aos alunos um primeiro contato com
o instrumento.
No início, a reação dos estudantes é de estranhamento.
“A primeira pergunta é: não sei tocar nenhum instrumento,
como é que vou tirar uma música de ouvido?”, conta Cristina.
Entretanto, a metodologia prevê que os alunos aprendam uns com os outros,
descobrindo aos poucos os instrumentos. “Sempre tem alguém na turma
que já sabe tocar violão, pandeiro ou flauta doce. O professor
então assume o papel de coordenador, organizando a turma e interferindo
somente quando é necessário”, explica a docente.
A próxima etapa, envolve a utilização de Riffs (acordes
básicos de cada instrumento). Neste momento, os professores explicam
que são aqueles acordes, tocados em conjunto com os demais, que vão
compor um determinado ritmo ou música. Com essa bagagem, os alunos passam
para a terceira fase, na qual vão tentar tirar outra música de
ouvido. “É altamente estimulante porque eles vêem que a música
é composta por partes de instrumentos que, juntos, formam uma melodia”,
salienta.
Em seguida, um músico da cidade é chamado para fazer uma palestra,
para contar como aprendeu a tocar e dar algumas dicas. Na próxima fase,
os professores apresentam Riffs mais complexos de música erudita, e as
duas últimas etapas são dedicadas à experimentação,
em que mais uma vez os grupos escolhem músicas para tirar de ouvido.
Na sexta etapa, eles tocam uma música clássica e na última
escolhem uma música de que gostam.
Garrafas PET – Apaixonado por bateria, o professor Marcelo Capucci decidiu
unir a conscientização ambiental ao ensino da música. Com
o projeto Percussucata, ele utiliza garrafas PET e materiais recicláveis
para montar uma verdadeira batucada nas escolas de rede pública de ensino
do Distrito Federal. Cerca de 1.200 crianças de cinco escolas já
participaram de sua oficina desde que o projeto começou, em 2007.
O Percussucata é composto por três fases: palestra socioambiental,
produção de instrumentos e musicalização. Na primera
etapa, os alunos assistem a um palestra sobre poluição, poder
poluidor do PET, aquecimento global, coleta seletiva, reciclagem e reaproveitamento
de materiais, entre outros. Durante essa palestra também são apresentados
dados sobre a história da bateria – que fica montada na frente dos
estudantes.
Depois, são apresentados instrumentos de percussão alternativos:
o ganzá (garrafa PET abastecida com pedrinhas, formando um tipo de chucalho),
tamborim (garrafa PET tocada com varetas de bambu) e filomena (garrafa PET tocada
com cabo de vassoura reaproveitado). Assim, os alunos são encaminhados
para suas salas, onde, numa divertida aula de artes, ’fabricam’ seus próprios
instrumentos, com o auxílio dos professores.
A fase final marca o momento mais esperado pelos alunos: a hora de tocar. Sob
orientação de Capucci e tendo a bateria como referência
visual e sonora, os alunos realizam um movimento percussivo em grupo. “Munidos
de seus instrumentos musicais alternativos, os educandos vivenciam situações
de respeito ao próximo, elevação da auto-estima, musicalização
(tempo e ritmo) e principalmente de socialização através
de uma ferramenta lúdico-sociomusical”, explica o professor.
Assista ainda a apresentação dos alunos do professor Marcelo
Capucci. Com garrafas PET, eles descobrem o mundo da bateria.
Mais informações sobre este e outros temas ligados à educação
podem ser encontradas no Jornal
do Professor.
Renata Chamarelli
5 de febrero de 2009 |