| |
Mais além da participação pública na ciência:
buscando uma reorientação dos Estudos sobre Ciência,
Tecnologia e Sociedade em Ibero-américa.
Renato Dagnino
1 Introdução
Como quase sempre ocorre quando se procura formular uma proposta que
possa alterar a orientação de um processo qualquer, é
necessário uma (auto)crítica acerca modo como se tem atuado
no interior deste processo.
Neste caso, se trata de criticar a forma como se têm
orientado os ECTS no âmbito da comunidade de pesquisadores ibero-americanos
e mostrar porque esta orientação não parece capaz
de atender ao que consideramos seus dois objetivos centrais. Ou seja,
em primeiro lugar, capacitar cidadãos (incluindo aí, coisa
que nem sempre é feito, a própria comunidade de pesquisa)
a relacionar o fenômeno científico-tecnológico aos
seus condicionantes e conseqüências de caráter social,
político, econômico e ambiental, criando uma concepção
crítica à clássica visão essencialista e triunfalista
da C&T (Lopez Cerezo, 2000). E, em segundo lugar, proporcionar aos
atores envolvidos com a elaboração da Política de
C&T (incluindo aí os analistas da PCT e a própria comunidade
de pesquisa) um marco analítico-conceitual que torne este processo
coerente com essa concepção crítica. É o resultado
desse duplo movimento a condição para que se reduza o hiato
entre as expectativas que a sociedade tem depositado no desenvolvimento
da C&T e o caráter que tem assumido a PCT1
.
Essa crítica será realizada retomando uma questão
chave da análise do desenvolvimento científico e tecnológico
e, em especial, na história dos ECTS: o modelo da cadeia linear
de inovação (pesquisa básica ' desenvolvimento tecnológico
' desenvolvimento econômico e social) e as críticas que ele
tem recebido nas últimas duas décadas. De modo a tornar
mais claro o argumento, iniciaremos não com a crítica formulada
pelo PLACTS nos anos 60, já apresentada em outros trabalhos, mas
com a que pode ser entendida como contida na proposta da Teoria da Inovação.
Ao fazê-lo estamos de certa forma seguindo o fio da meada das análises
sobre C&T. De fato, tal como se argumenta em Dagnino, Thomas e Davyt
(1996) e em Dagnino (2003), a adoção da Teoria da Inovação
pelos pesquisadores que a partir dos 80 passaram a analisar o desenvolvimento
de C&T na América Latina ocorreu como se não tivesse
sido formulado na região um marco de referência analítico-conceitual
ao qual, se não pela sua pertinência, pelo menos por respeito
a uma regra do trabalho científico (dialogar com as abordagens
herdadas), deveria ser levado em conta.
Por essa razão, os ESCT latino-americanos tiveram que assumir
uma posição, não de tréplica às críticas
formuladas por uma nova corrente de análise, mas de simples réplica
a proposições de quem atuava como se estivesse penetrando
um campo que não tivesse sido tratado anteriormente.
2 A crítica da Teoria da Inovação à cadeia
linear (o slogan CT+I)
Pode-se dizer, talvez de maneira caricatural, embora
conveniente para a exposição de nosso argumento, que a crítica
da Teoria da Inovação ao modelo da cadeia linear de oferta
de conhecimento se concentra no questionamento do que seria o seu primeiro
elo (Dias, 2005). Isto é, na suposição de que o desenvolvimento
científico, ou a pesquisa básica e a formação
de recursos humanos qualificados, levaria automaticamente ao desenvolvimento
tecnológico2 .
A observação dos processos de catching up dos países
asiáticos e a perda de competitividade que apresentavam países
detentores de grande capacidade científica no marco de uma revisitação
de autores como Schumpeter, que levou ao que ficou conhecido como evolucionismo,
estava mostrando que a suposição que implicava esse primeiro
elo não deveria ser tomada como uma normativa de PCT.
O slogan Ciência, Tecnologia e Inovação (CT+I) que
propõem os partidários da TI vem, justamente, expressar
esse fato: a capacidade científica não era uma condição
suficiente, e talvez nem fosse uma condição necessária,
para o desenvolvimento tecnológico e a consecução
da competitividade dos países. Era imprescindível inovação,
aquilo que a interpretação neo-schumpeteriana entendia como
o resultado virtuoso da concorrência intercapitalista em busca da
maximização do lucro pelo empresário inovador e da
"destruição criadora" para o aumento da competitividade
da nação e do bem-estar dos seus cidadãos. Claro
que sem desprezar a atenção que um Estado keynesiano deveria
conferir à C&T, seja promovendo a "competitividade sistêmica",
seja re-equilibrando o balanço nação-cidadania e
controlando a concorrência predatória e as implicações
sociais negativas do processo inovativo. No âmbito dessa visão
otimista da Teoria da Inovação que busca a "eficientização"
do modelo dominante caracterizado por aqueles dois processos relacionados
ao neoliberalismo e à globalização, a aliança
entre a comunidade de pesquisa e a empresa privada, entendida como o único
veículo possível para entregar o conhecimento gerado na
sociedade (e promovido em última instância pelo Estado) ao
conjunto dos indivíduos que a integram.
As idéias-força do slogan CT+I podem ser associadas a expressões
apologéticas bem conhecidas, como "Sistema Nacional de Inovação",
"Modo 1 X Modo 2", "Hélice Tripla", "empresa
= locus da inovação", "ambiente inovativo",
"cultura de inovação", "empreendorismo",
"incubadoras, parques e pólos tecnológicos", "empresas
de base tecnológica", e outras, de conteúdo positivo
menos consensual como "globalização", "competitividade",
"redução do grau de intervenção do Estado".
3 A crítica dos Estudos Ciência, Tecnologia e Sociedade
Prosseguindo com essa maneira quase caricatural escolhida para a exposição
de nosso argumento, podemos dizer que a crítica dos ECTS ao modelo
da cadeia linear de oferta de conhecimento se concentra no questionamento
do seu segundo elo. Isto é, na suposição de que o
desenvolvimento tecnológico, sendo ele decorrente ou não
da pesquisa básica e da formação de recursos humanos
qualificados, levaria automaticamente ao desenvolvimento econômico-social.
Ainda que correndo o risco de "chover no molhado", dado que
é importante para desenvolver o nosso argumento, é importante
destacar algumas características do slogan CTS, que se afirma ao
longo da última década como uma alternativa ao slogan CT+I
e que expressa a cautela com que os ECTS vêem a forma como se vem
orientando o desenvolvimento científico e tecnológico. A
primeira, é que ele supõe uma percepção crítica
do modelo político e econômico-social dominante e a necessidade
(e a possibilidade) de um maior controle social da C&T. A segunda
é
que, ao ensejar uma combinação dessa percepção
com um dos seus princípios fundacionais - a idéia da construção
social da C&T - ele autoriza uma ponte e um contraste especialmente
profícuos com a interpretação do marxismo tradicional
acerca da C&T.
Essa interpretação, que mais adiante denominaremos Determinismo,
seria coerente com a célebre frase escrita por Marx no final do
século 19: "... o moinho dar-vos-á a sociedade com
o suserano; a máquina a vapor, a sociedade com o capitalista industrial".
O avanço contínuo e inexorável da C&T (ou, no
seu jargão, o desenvolvimento das "forças produtivas")
seria a força motriz da história que, pressionando as "relações
técnicas e sociais de produção", levaria a sucessivos
e mais avançados "modos de produção". Para
eles, a evolução das forças produtivas não
seria controlada pelo Homem; é ela que, utilizando-se do avanço
do conhecimento do mundo natural, verdadeiro e neutro, molda (e empurra
para um futuro cada vez melhor) a sociedade mediante as exigências
de eficiência e progresso que ela mesma estabelece.
Válida em relação ao longo prazo, entendido como
aquele que abrange períodos tão extensos e complexos como
a sucessiva transição dos "modos de produção"
escravista, feudal, capitalista, socialista, não impediu que os
marxistas denunciem o fato de que a ciência e a tecnologia, no curto
prazo, manifestem um caráter negativo para a classe trabalhadora
e para o conjunto da sociedade. Como se sabe, o marxismo postula que,
ao serem convertidas em "forças produtivas" ao serviço
da "acumulação do capital", mediante extração,
por parte dos "proprietários dos meios de produção",
da "mais-valia relativa" produzida pelos "vendedores da
força de trabalho", são elementos analiticamente fundacionais
do capitalismo. Apoiadas pelo Estado, que ao garantir (se preciso pelo
exercício da violência) e "naturalizar" (através
do "consentimento" que produz a ideologia capitalista) as condições
que garantem a prevalência daquelas relações sociais
de produção elas viabilizariam um desequilíbrio dinâmico
do balanço do poder entre as classes sociais. Mas, ao mesmo tempo,
segundo esta percepção, as "forças produtivas"
que servem ao "capital" e oprimem a "classe operária"
seriam as mesmas que, apropriadas por ela, depois da "revolução",
a "liberariam" e construiriam o ideal do "socialismo".
De fato, a combinação dessas duas dinâmicas - de longo
e de curto prazos - e a interveniência de fatores de natureza "subjetiva"
e política sintetizadas na idéia de que a classe trabalhadora
pudesse transformar-se de "classe em si" em "classe para
si", seria uma condição da idéia de transição
ao socialismo.
Para seguir com a apresentação de nosso argumento, é
conveniente representar essa visão através de um esquema
como o que segue, e que será retomado adiante, que a situa num
eixo horizontal que indica que a C&T seriam autônomas e possuiriam
um caminho linear e inexorável de desenvolvimento não passível
de controle pelos atores sociais. Nele se mostra, à esquerda, a
visão do Marxismo tradicional que entende a C&T motor da história
e que caberia aos interessados na mudança social aproveitar essa
inexorabilidade em seu beneficio removendo as travas sociais que impedem
o seu desenvolvimento e possibilitando a sua apropriação
pelos agentes de mudança e, em geral, pelo conjunto da sociedade.
Também à esquerda se situaria a visão da Teoria da
Inovação que costuma entender o desenvolvimento da C&T
como autônomo ou, no máximo, como controlado pelas forças
de mercado.
A posição contrária, proposta pelos ECTS, que sustenta
a possibilidade de controle social da C&T, se situa à direita.
FIG 1: A VISÃO MARXISTA TRADICIONAL E A VISÃO CTS

É nesta altura que se adentra ao terreno que sinalizamos no início
deste capítulo, de (auto)crítica acerca do modo como se
têm orientado os ECTS. Iniciamos essa análise crítica
mantendo o recurso à caricatura para diferenciar o que seriam duas
tendências ou correntes de trabalho presentes no interior dos ECTS
e que mais adiante se detalha. A CTS1, que associamos ao slogan "não-neutralidade
e controle externo", que pode ser entendida como o resultado de uma
trajetória que se inicia nos anos de 1970 nos países avançados
e que se apresenta hoje como dominante na Ibero-américa. E a CTS2,
expressa no slogan "não-neutralidade e reprojetamento",
que se afigura como um movimento emergente.
Antes de caracterizar com maior detalhe essas duas tendências e
diferenciá-las apropriadamente, é conveniente nos concentrarmos
numa outra diferença, em relação à qual ela
aparece como uma contradição menor (o que não significa
que seja pouco importante quando se trata de conceber uma estratégia
para fortalecer os ECTS em Ibero-américa). Por isso, e retomando
nossa intenção anteriormente referida de criticar as percepções
instrumental e determinista da C&T que, por serem predominantes no
ambiente de elaboração da PCT e da sociedade em geral, se
interpõem como empecilho (ou obstáculo cognitivo) para que
esta política seja concebida de modo coerente com o contexto sócio-econômico.
4 A relação Ciência, Tecnologia e Sociedade e as
percepções sobre a Tecnociência
De modo a conceituar de modo apropriado aquelas duas percepções
- instrumental e determinista -, e para ressaltar o fato de que, ao contrário
daqueles que as advogam, elas não são as únicas possíveis,
é necessário situá-las no âmbito de outras
duas, que podem ser entendidas a partir de seus dois elementos constitutivos
aportados pela filosofia da ciência e da tecnologia e pelas contribuições
da construção social da tecnologia.
Esses dois elementos podem ser associados aos dois eixos
representados na figura que segue. Ela é tributária, no
que se refere às contribuições relativas à
tecnologia, a Andrew Feenberg (2002), à ciência, a Hugh Lacey
(1999), e ao conceito de tecnociência, que nos parece mais apropriado
do que o de "C&T" para a finalidade desse trabalho, a Jorge
Núñez (2000)3 . É importante assinalar
que ao utilizar este conceito que denota a cada vez maior imbricação
e funcionalidade entre os processos de desenvolvimento científico
e tecnológico queremos reforçar, como o fazem muitos pesquisadores
ibero-americanos dos ECTS, o argumento de que a ciência - considerada
por alguns, diferentemente da tecnologia, como desprovida de valores -
não pode mais ser tratada de modo independente.
Para estabelecer as diferenças entre as duas tendências
ou correntes de trabalho presentes no interior dos ECTS (CTS1, ou "não-neutralidade
e controle externo", e CTS2, ou "não-neutralidade e reprojetamento"),
iniciamos por adicionar ao esquema anterior um outro eixo, vertical.
FIG 2: OS EIXOS DA NEUTRALIDADE E DO DETERMINISMO

O eixo vertical permite situar as percepções
a respeito do elemento "neutralidade" da tecnociência.
Nele se representa, na parte superior, a perspectiva que considera a tecnociência
como neutra. Isto é, livre dos valores (ou interesses) econômicos,
políticos, sociais ou morais (de raça, etnia, gênero
etc) dominantes no ambiente em que ela é produzida. O qual pode
ser entendido, dependendo da perspectiva que a análise de uma situação
qualquer demandar, de modo abrangente e mais abstrato, como uma determinada
formação histórico-social ou regime de acumulação,
ou de maneira mais específica e concreta, como um dado país,
âmbito disciplinar, ou contexto profissional (laboratório
de pesquisa universitária, centro de P&D de uma empresa transnacional
etc)4 . Na parte inferior do eixo vertical, se representa
a perspectiva que entende a tecnociência como condicionada por esses
valores.
Segundo a perspectiva neutra, o resultado material da tecnociência,
um dispositivo técnico qualquer, é simplesmente uma concatenação
de mecanismos causais "que pode ser usado para o bem ou para o mal".
Já para a perspectiva que entende a tecnociência como condicionada
por valores, esse resultado material, enquanto entidade social, tem um
modo especial de carregar valores em si mesmo e a reforçá-los.
O eixo horizontal permite situar as percepções a respeito
do elemento do "determinismo tecnológico" da tecnociência.
Nele se representa, à esquerda, a perspectiva que considera a tecnociência
como autônoma e, à direita, a que a entende como passível
de ser controlada pelo Homem. De acordo com a primeira, a tecnociência,
no seu aspecto eminentemente científico, e apoiada no método
científico, conduziria um Homem infinitamente curioso em contato
com uma natureza, também infinitamente, bela, à verdade.
E, e no seu aspecto técnico (ou tecnológico) na direção
da maximização da eficiência (entendida esta como
um conceito primitivo que não admite a pergunta "eficiência
para quem"). Ela teria suas próprias leis imanentes, seguiria
uma trajetória linear e inexorável, governada por esse impulso
endógeno. A sociedade, submetida a este poder de determinação
da tecnociência - ou a este "determinismo tecnológico"
- apenas aceitaria seus impactos e tentaria tirar dela o melhor proveito.
De acordo com a segunda perspectiva, a sociedade ou os grupos sociais
estaria em condições de decidir em cada momento os rumos
que irá seguir a tecnociência, ou, como se discutirá
em seguida, a forma como ela será aplicada. De qualquer forma,
dependeria dessas decisões as características que assumiriam
os sistemas técnicos que crescentemente condicionam nossa sociedade
contemporânea.
Uma vez que os entendimentos a respeito da natureza do conhecimento tecnológico
(ou com mais propriedade, tecnocientífico) representados nos dois
eixos podem ser considerados como independentes, a combinação
das quatro perspectivas extremas, duas a duas, dá origem a quatro
percepções que podem ser representas em cada um dos quadrantes
delimitados pelos dois eixos, tal como mostrado no esquema.
FIG 3: AS QUATRO PERCEPÇÕES SOBRE A TECNOCIÊNCIA
A primeira dessas quatro percepções, que combina as perspectivas
do controle humano da tecnociência e da neutralidade de valores,
é denominada Instrumentalismo. Apesar de ser herdeira do iluminismo
e do positivismo, ela expressa uma percepção contemporânea
que concebe a tecnociência como uma ferramenta gerada pela espécie
humana (em abstrato e sem qualquer especificação histórica
ou que diferencie os interesses de distintos segmentos sociais) através
de métodos que, ao serem aplicados à natureza, assegurariam
à ciência atributos de verdade e, à tecnologia, de
eficiência. Dado que pode atuar sob qualquer perspectiva de valor,
o que garante o seu uso (e também a sua orientação)
"para o bem" é algo estranho ao mundo do conhecimento
científico-tecnológico e dos que o produzem: a "Ética".
Só se esta não for respeitada pela sociedade, esse conhecimento
poderá ter implicações indesejáveis.
O Instrumentalismo aceita a possibilidade de um controle externo e ex-post
da tecnociência. Isto é, a possibilidade de que, depois de
produzida através das atividades realizadas em organizações
públicas (universidades, institutos de pesquisa) e privadas (empresas,
centros de P&D), se poderia exercer um controle social baseado num
conjunto de princípios éticos de tipo moral, social, ambiental,
étnico, de gênero, reconhecido consensual e explicitamente
como positivo. Seria esse conjunto de valores o que asseguraria que a
utilização do conhecimento ocorresse de modo com eles coerente.
A segunda percepção - do Determinismo -, que combina autonomia
e neutralidade, é a associada à visão marxista tradicional
em relação ao longo prazo, acima abordada.
A terceira percepção - do Substantivismo - entende a tecnociência
como dotada de autonomia e intrinsecamente portadora de valores. Seus
partidários compartilham o conteúdo mais abrangente da crítica
ao marxismo tradicional formulada pela Escola de Frankfurt a partir da
década de 1960 e a particularizam em relação à
questão da tecnociência (ou da tecnologia) da seguinte forma.
Enquanto a idéia de neutralidade do Instrumentalismo atribui à
tecnociência a busca de uma eficiência (abstrata, mas substantiva),
a qual pode servir a qualquer concepção acerca do modo ideal
de existência humana, o compromisso da tecnociência com o
regime de acumulação capitalista dominante (que embora pareça
natural e único, é ideologicamente sustentado), faria com
que os valores a ele inerentes fossem a ela incorporados. A tecnociência
seria, então, substantiva e intrinsecamente, capitalista.
Em conseqüência, ela não poderia ser usada para viabilizar
propósitos de indivíduos ou sociedades que patrocinem outros
valores. Ela carregaria consigo valores que têm o mesmo caráter
exclusivo das religiões que estipulam as crenças, orientam
a conduta e conformam ideologicamente o inconsciente coletivo de grupos
sociais. A tecnociência capitalista tenderia inevitavelmente a se
afinar com os valores imanentes da "sociedade tecnológica",
como a eficiência, o controle e o poder. Valores divergentes - alternativos
- não conseguiriam com ela conviver e, seu poder de determinação
seria tamanho que eles não poderiam prosperar ou mesmo sobreviver
num ambiente como o que ela tende cada vez mais, na sociedade contemporânea,
a conformar.
O Substantivismo (radical e pessimista) se diferencia do Determinismo.
Este, ao aceitar que a tecnociência, por não ser portadora
de valores, é o servo neutro de qualquer projeto social e deve
ser entendida como uma força produtiva que empurra inexoravelmente
a modos de produção cada vez mais perfeitos, idealiza um
final sempre feliz para a história da espécie. Também
otimista é a visão moderna tradicional padrão do
Instrumentalismo. Ao entender a tecnociência como uma simples ferramenta
que incorpora um conhecimento verdadeiro e eficiente acerca do mundo natural
mediante a qual chegaremos, mediante a aplicação de princípios
éticos, a satisfazer todas as necessidades sociais, ele professa
uma fé liberal no progresso.
A quarta percepção é a que se denomina Teoria Crítica.
Ela combina as perspectivas da tecnociência como humanamente controlada
e como portadora de valores. Seus partidários concordam com o Instrumentalismo
(a tecnociência é controlável), mas reconhecem, como
o faz o Substantivismo, que os valores capitalistas conferem à
tecnociência características específicas, que os reproduzem
e reforçam, que implicam conseqüências sociais e ambientalmente
catastróficas, e que inibem a mudança social. Mas, ainda
assim, vêem na tecnociência uma promessa de liberdade. O problema
não estaria no conhecimento como tal, mas no pouco êxito
que temos tido até o momento em criar formas institucionais que,
explorando a ambivalência (graus de liberdade) que possui o processo
de concepção de sistemas tecnológicos e resignando-nos
a "não jogar a criança com a água do banho",
sejamos capazes de exercer o controle humano - coletivo e socialmente
equânime - sobre ela.
Segundo a Teoria Crítica, a tecnociência atualmente existente
(ou dominante) "emolduraria" não apenas um estilo de
vida, mas muitos outros possíveis. Cada um refletindo diferentes
escolhas de projeto científico-técnico e diferentes extensões
da mediação sócio-técnica. Todos os quadros
de um museu têm molduras, mas não é por isso que eles
estão ali. As molduras são limites e suportes para o que
elas têm em seu interior. A eficiência é uma moldura
(valor formal) que pode carregar tipos diferentes de valores substantivos.
Para a Teoria Crítica, a tecnociência não é
vista como ferramenta, mas como suporte para estilos de vida.
A tecnociência não é percebida como uma ferramenta
capaz de ser usada para qualquer projeto político ou em qualquer
regime social de acumulação como pensam, otimisticamente,
os partidários do Determinismo. Nem como algo que deve ser usado
e orientado pela "Ética", como ingenuamente querem os
Instrumentalistas. Tampouco como um apêndice indissociável
de valores e estilos de vida particulares, privilegiados em função
de uma escolha (ou imposição) feita na sociedade, como os
Substantivistas. Segundo eles, desde que "reprojetada" segundo
critérios alternativos com características democráticas,
e tendo seus objetivos subvertidos, como aconteceu com os programas de
pesquisa sobre AIDS que não atendiam o interesse dos usuários
ou com a rede centralizada que deu origem à Internet, ela pode
servir como suporte para estilos de vida alternativos.
Apesar de as sociedades modernas sempre visarem à eficiência
naqueles domínios em que aplicam suas capacidades e habilidades
cognitivas (ou a tecnociência), afirmar que tais domínios
não podem compreender nenhum outro valor significativo além
da eficiência (capitalista), como proporia o Substantivismo, é
negligenciar o poder de influência que possuem os grupos sociais
para orientar a tecnociência, defendido pelo Instrumentalismo.
Existe uma óbvia diferença entre armas eficientes, medicamentos
eficientes, propaganda eficiente, educação eficiente, exploração
eficiente de gênero, raça ou condição econômica,
e pesquisa eficiente. Nestes casos, a eficiência é uma moldura
(valor formal) que pode carregar diversos tipos de valores substantivos.
A tecnociência não é percebida como simples ferramenta
(Instrumentalismo) nem como apêndice indissociável de valores
e estilos de vida particulares, privilegiados em função
de uma escolha feita na sociedade. Ela é entendida como suporte
para vários estilos de vida possíveis. Abre-se, assim, um
espectro de possibilidades para pensar esse tipo de escolhas, questioná-las,
e submeter sua tradução em projetos e desenvolvimentos a
controles mais democráticos.
No início deste trabalho, quando se tratou das percepções
dominantes no âmbito da comunidade de pesquisa se fez referência,
em conjunto, às percepções de natureza instrumental
e determinista. O fato de que ao longo desta seção se tenha
explicitado as diferenças entre essas duas percepções
e feito referência a outras duas, não implica que elas não
possam aparecer, na realidade, mescladas. De fato, ao analisar o comportamento
dos atores que advogam cada uma dessas percepções no processo
de elaboração da PCT (entendido como um processo que envolve
os três momentos de formulação, implementação
e avaliação), verifica-se que eles atuam de forma semelhante.
Ou, por outra, que a maior parte deles não se filia (ou poderia
ser assimilado) a uma delas. Mas que, ao contrário, eles tendem
a assumir uma postura determinista ou instrumental dependendo da questão
a resolver ou situação a que se enfrentam. O que não
deve surpreender, uma vez que os atores que participam de processos desse
tipo raramente adotam posturas estritas: o mais usual é a adoção
posições determinadas por soluções de compromisso,
de "bom senso" e de "consenso".
5 As duas tendências: CTS1 (o slogan "não-neutralidade
e controle externo") e CTS2 (o slogan "não-neutralidade
e reprojetamento")
Tendo com referência a moldura conceitual estabelecida pela classificação
que se acaba de apresentar, é possível voltar à questão
da necessária diferenciação entre as duas tendências
ou correntes de trabalho presentes no interior dos ECTS. As tendências
que denominamos de CTS1, ou "não-neutralidade e controle externo",
e CTS2, ou "não-neutralidade e reprojetamento".
O esquema acima apresentado é duplamente útil
para operacionalizar essa diferenciação. Em primeiro lugar
porque permite, ao evidenciar uma das características mais importantes
dos ECTS, a não-aceitação da percepção
determinista que caracteriza o marxismo tradicional, os situa à
direita, na região que nega o caráter autônomo da
tecnociência. Em segundo, porque ele possibilita situar a análise
da possibilidade de um controle externo da tecnociência, que é
o que diferencia as tendências CTS1 e CTS2. Isto é, a possibilidade
de que depois de produzida através das atividades realizadas em
organizações públicas (universidades, institutos
de pesquisa) e privadas (empresas, centros de P&D), se possa exercer
um controle social baseado em princípios éticos5
de tipo moral, social, ambiental, étnico, de gênero, que
assegurasse que sua utilização se desse de modo com eles
coerente.
FIG 4: A VISÃO DA TEORIA DA INOVAÇÃO E AS DUAS
TENDÊNCIAS DA VISÃO CTS
A tendência CTS2, expressa no slogan "não-neutralidade
e reprojetamento", pode ser facilmente representada no lado inferior
direito do esquema, uma vez que ela se confunde com a percepção
da Teoria Crítica.
A visão CT+I pode também, embora com menor precisão,
ser situada no esquema. Não há dúvida de que ela
deve ser representada na sua parte superior, uma vez que aceita a idéia
da neutralidade da tecnociência. Essa visão está representada
como abarcando tanto a percepção Instrumental como a Determinista
porque, tal como acima referido, em algumas oportunidades é possível
identificar no interior da comunidade de pesquisa manifestações
que, dependendo da questão a resolver ou da situação
a que ela se enfrenta, se assemelham a uma ou a outra das percepções.
Em termos da formulação expressa no esquema que apresentamos,
a tendência que denominamos CTS1 - "não-neutralidade
e controle externo" -, não poderia, a rigor, ser representada.
Ela não pode ser associada à percepção Instrumental,
e representada no primeiro quadrante, uma vez que aceita a idéia
que a tecnociência possui valores, refutando a tese da neutralidade.
Não obstante, ela supõe, no limite, que
independentemente do contexto e dos interesses econômicos, sociais,
políticos, e dos vieses e valores6 relativos a
questões de natureza ambiental, étnica, de gênero,
que envolvem a produção da tecnociência, esta poderia
ser "controlada" e usada com o objetivo de favorecer outros
interesses, reforçar a prevalência de outros contextos e
potencializar outros vieses e valores.
Ao adotar essa posição, a tendência CTS1 parece adentrar
num terreno pantanoso e contraditório. Como aceitar a idéia
de que a tecnociência não é neutra, e que, pelo contrário,
carrega consigo os valores predominantes no ambiente em que é gerada
(eventualmente condenáveis de um ponto de vista ético) e
que tende a materializar os objetivos técnico-econômicos
pré-concebidos a ele inerentes e, ao mesmo tempo, supor que poderia
haver mecanismos de controle social (baseados em princípios éticos)
ex-post suficientemente efetivos e poderosos para garantir sua utilização
no sentido de alcançar objetivos que contemplem outros valores
e interesses.
Essa posição, que como se pode perceber se aproxima da
percepção Instrumental se combina a uma outra, mais próxima
à percepção Determinista. Seus partidários
acreditam que o conhecimento científico verdadeiro e o conhecimento
tecnológico eficiente sempre serão úteis e necessários,
uma vez que fazem avançar a roda da história no sentido
da construção, ainda que em longo prazo, das condições
que levarão ao progresso sócio-econômico. Eles também
estão dispostos a privilegiar controles externos. Os de tipo ético,
por uma questão tática, uma vez eles favorecem a dinâmica
sócio-econômica e política no sentido dos setores
mais penalizados. Os de tipo estritamente acadêmico, por uma questão
estratégica, uma vez eles favorecem a criação do
conhecimento que, alcançadas as condições políticas
propícias, será apropriado por aqueles setores para construir
a nova sociedade que almejam e que, por isso, precisa ser de "qualidade".
A combinação ou pelo menos a convivência entre essas
duas posições dá origem a uma postura que se apresenta
como dominante no meio acadêmico, que erige a ética como
garantia, externa à comunidade de pesquisa, dos valores não-epistêmicos
(morais, sociais etc) capaz de controlar e evitar o "mau-uso"
da C&T, e a qualidade como garantia, internalizada na prática
da comunidade de pesquisa, dos valores epistêmicos. Essa postura,
como temos ressaltado, não vê como necessária e por
isto não propõe uma atuação direta, no âmbito
da produção do conhecimento, daqueles que possam estar descontentes
com a situação sócio-econômica ou política
existente. Essa situação, quando percebida como algo relacionado
ao conhecimento, é sempre entendida como um resultado da forma
como ele está sendo utilizado pelos interesses dominantes e não
como algo associado às suas próprias características.
Assim sendo, os descontentes devem envolver-se diretamente no sentido
da mudança da situação, atuando no campo da luta
social ou política ou, no máximo, caso considerem que a
tecnologia pode desempenhar um papel coadjuvante, buscar mediante atividades
de avaliação da tecnologia, foresight, etc, ou de ECST.
6 Considerações Finais
Tal como se procurou mostrar, a tendência CTS2, não nega
a possibilidade de que possam ocorrer situações em que um
controle externo mediante a conscientização e participação
da sociedade nas decisões relativas à C&T possa ser
efetivo para a orientação da PCT. Percebe também,
como o faz a tendência CTS1, a importância dessa conscientização.
De fato, desde os primeiros eventos historiados por González,
López y Luján (1996), que remontam a meados da década
de 1940, a preocupação com a participação
publica na C&T só fez aumentar. Vários autores têm
salientado que quanto maior for o número ou diversidade de indivíduos
ou grupos envolvidos, mais democrático é o mecanismo de
tomada de decisão em C&T e que participação cidadã
deve ocorrer em pé de igualdade com os especialistas e as autoridades
governamentais.
Sua preocupação é com a precariedade que parece
ter este mecanismo de controle externo.
Uma de suas propostas é, por isso, a criação de
um outro mecanismo, mais eficaz, uma espécie de "controle
interno" (ou "autocontrole") da atividade científica
e tecnológica. "Autocontrole", este, baseado na internalização
dos valores de um estilo alternativo de desenvolvimento sócio-econômico
por parte dos cientistas e tecnólogos que com ele se identifiquem
e que passariam a produzir um conhecimento com ele coerente.
ssa idéia de "autocontrole", bem como a de "atalho"
adiante apresentada, está baseada na percepção de
que é no momento em que o conhecimento é gerado, durante
o seu processo de produção no interior de um determinado
ambiente, que ele adquire as suas características, pode ser entendida
através de uma analogia com o que Marx chama de fetiche da mercadoria.
Depois de explicar que o lucro, numa sociedade capitalista,
não advém da "órbita da circulação",
isto é do ato de comprar barato e vender caro no mercado, mas sim
da "órbita da produção", onde a força
de trabalho transforma as matérias-primas adicionando a elas mais-valor,
ele dizia que seus antecessores entendiam a mercadoria como um "fetiche"
por não entender que o fato do lucro (ou, mais precisamente, da
mais-valia) se realizar no ato de troca, no mercado, não quer dizer
que ele já não estivesse incorporado ao valor da mercadoria
desde o momento de sua produção. Ou seja, que a mercadoria,
por ser o resultado de um processo conduzido mediante uma relação
técnica conformada por uma relação social baseada
na propriedade privada dos meios de produção e por ser produzido
para o mercado, e não para o uso de seus produtores, como ocorria
em modos de produção anteriores, já chegava à
órbita da circulação com uma composição
de valor social e historicamente determinada pelo modo de produção
- capitalista - em que foi, mesmo antes de ser produzida, concebida. E
que, portanto, a mercadoria não adquiria seu valor - capitalista
-, que incorpora a relação social da mais-valia, em função
do que seria um primeiro contato com uma órbita externa ao ambiente
cooperativo da fábrica em que dá a sua produção7
.
Poderia ser dito, prosseguindo com a analogia, que os
partidários da tendência CTS2 entendem que o fato das características
(valores etc) que a tecnociência absorve do ambiente em que é
gerada, só se "realizarem" no momento posterior, de sua
utilização, no ambiente de produção dos bens
e serviços aos quais incorporará valor, não quer
dizer que estas características não estejam já presentes
desde o momento anterior8 . E que, portanto, pensar que
seria só neste momento ulterior, da produção dos
bens e serviços, que os valores ali dominantes se incorporariam
ao conhecimento, é não compreender a verdadeira natureza
da tecnociência. A idéia de que seria quando da sua utilização,
em função do que seria um primeiro contato com uma órbita
externa ao ambiente asséptico de sua geração, essa
sim contaminada por valores e interesses de toda espécie, é
entendida pelos partidários da tendência CTS2 como uma espécie
de fetichismo semelhante àquele que Marx aponta com relação
à mercadoria. Que seria um caráter de construção
social da tecnociência semelhante ao que possui a mercadoria o que
serviria de fundamento a essa analogia.
Outra idéia insistentemente defendida pelos partidários
da tendência CTS2 e que assinala uma diferença em relação
à tendência CTS1, é, que, na conjuntura atual, especialmente
a que se enfrenta nos países latino-americanos, é necessário
um "atalho" ao caminho da participação pública
na ciência, que conduziria à democratização
da PCT.
"Atalho", este, que deve ser entendido em dois aspectos. O
temporal, tendo em vista o escasso resultado das ações visando
à participação pública na ciência (ou
à alfabetização científica, como muitas pessoas
as denominavam) através dos ECTS, que há mais de trinta
anos vem sendo realizadas nos países avançados junto a uma
população que possui um acesso à educação
formal bem maior do que aquele que caracteriza a maior parte dos países
de Ibero-américa. E no seu aspecto societal, uma vez que se a condição
necessária - maior capacidade cognitiva da sociedade para participar
- não ocorre em simultâneo a uma outra - possibilidade de
participação democrática na elaboração
das políticas públicas -, não se gera o conjunto
de condições que é suficiente para reduzir o hiato
entre as expectativas que a sociedade tem depositado no desenvolvimento
da C&T e o caráter que tem assumido a PCT.
A situação descrita através da idéia de "atalho"
relacionada a esses dois aspectos, e seu desdobramento na proposta de
"autocontrole" antes apresentada, conforma um aspecto essencial
da tendência CTS2. Dado que ele marca uma significativa diferença
em relação à forma como se tem desenvolvido os ECTS,
ele será abordado com algum detalhe nestas Considerações
Finas.
Essa diferença não implica uma negação
da importância conferida aos ECTS como vetor desse aumento na conscientização
e participação da sociedade. Tal como indicado, um dos trabalhos
sobre os ECTS mais importantes e de maior difusão em Ibero-américa9
parece concordar que para alcançar o "objetivo de otimizar
os mecanismos de participação, quer dizer, que o público
possa manifestar a sua opinião, que exerça o seu direito
ao voto ou, simplesmente, que possa comprar sabendo o que faz em função
das opções disponíveis, os ECTS são uma peça
fundamental" (Palacios e outros, 2001:140).
Tampouco existe qualquer discordância em relação
à colocação de que "a democracia pressupõe
que não só os seus representantes políticos tenham
a capacidade de entender alternativas e, com tal base, expressar opiniões
e, em cada caso, tomar decisões bem fundamentadas". E de que,
nesse sentido os ECTS "para propiciar a formação de
amplos segmentos sociais de acordo com a nova imagem da C&T que emerge
ao se ter em conta o seu contexto social" sejam fundamentais (Palacios
e outros, 2001:144).
A discordância, se é que se pode chamar assim, se relaciona
à importância que confere a tendência CTS2 à
necessidade de atuar diretamente junto à comunidade de pesquisa
no sentido de alterar sua percepção da tecnologia e, assim,
contribuir para ajustar sua agenda de pesquisa e da PCT às demandas
do novo estilo de desenvolvimento.
A incisiva crítica que fazem os ECTS à
visão tradicional da C&T que possui a comunidade de pesquisa,
de caráter "essencialista e triunfalista", parece contraditória
com a postura cautelosa que propõem em relação à
comunidade de pesquisa e pela escassa ênfase dada à necessidade
de atuar diretamente junto à comunidade de pesquisa10
. Mais ainda quando se constata o reconhecimento que faz da importância
da sua participação na elaboração da PCT e
da possibilidade de que essa influência seja usada em seu próprio
beneficio.
Essa possibilidade é explicitada no trabalho recém indicado
quando se citam os oito argumentos apresentados por Mitcham (1997) em
favor da participação pública na ciência. Depois
de destacar, no primeiro argumento - o do realismo tecno-social - que
os especialistas não podem escapar da influência de governos,
grupos de interesses, e então, que as decisões tecno-científicas
nunca são neutras, ele vai mais além. Negando a idéia
de que a comunidade de pesquisa não possui, em si mesma, valores,
e interesses a defender e que a possibilidade das decisões não
serem neutras, dever-se-iam a influência do meio externo, ele coloca,
no seu terceiro argumento, que "vem da psicologia", que "não
é pouco freqüente que os especialistas tendam a promover seus
interesses às expensas daqueles do público em geral"
(Palacios e outros, 2001:133).
O mesmo trabalho pode ser usado para exemplificar essa
postura cautelosa, expressa neste caso como de "renegociação"
com a comunidade de pesquisa. Segundo os autores, "o núcleo
da questão não é impor limites a priori ao desenvolvimento
da C&T nem estabelecer alguma classe de controle político ou
social do que fazem os cientistas ou engenheiros, mas sim renegociar as
relações entre ciência e sociedade: estabelecer quem
deveria determinar objetivos políticos em C&T e quem deveria
supervisionar o seu cumprimento" (Palacios e outros, 2001:135). Como
se pode constatar, a postura de "renegociação"
supõe a incorporação de um novo ator ao processo
decisório da C&T e não uma "reificação"11
do ator comunidade de pesquisa mediante processos semelhantes aos que
aqui se denominaram de "atalho" ou "autocontrole".
A postura de que os ECTS deveriam estar voltados apenas para a conscientização
dos estudantes e dos cidadãos em geral, de modo a possibilitar
sua participação na tomada de decisão a respeito
dos assuntos atinentes à C&T se evidencia também em
outra passagem do mesmo trabalho quando menciona o que denomina "Silogismo
CTS" (Palacios e outros, 2001:127). Este silogismo estaria composto
por quatro premissas: (1) C&T resultam de um processo social conformado
por fatores culturais, políticos e econômico, além
de epistêmicos; (2) C&T são determinantes de nossas formas
de vida e de ordenamento institucional e um assunto público de
primeira magnitude; (3) os ECTS possuem um compromisso democrático
básico; e (4) por isso, devem promover a avaliação
e controle social da C&T, o que significa construir as bases educativas
para a participação social e criar os mecanismos institucionais
para tal participação. A assertiva que deixa transparecer
um tom radical quase que indevido, de que a natureza valorativa da terceira
premissa justifica o "devem" que aparece na quarta, permite
pensar que a construção das bases educativas para a participação
social mediante a criação dos mecanismos institucionais
para tal participação seria a fronteira de atuação
possível dos ECTS. E que ultrapassar esta fronteira, avançando
no sentido de estender aquele "compromisso democrático básico"
dos ECTS aos demais integrantes da comunidade de pesquisa que compartilham
a idéia da necessidade de construir um estilo de desenvolvimento
alternativo seria, contraditoriamente, desrespeitar um limite colocado
pelo caráter verdadeiro do conhecimento que ela desenvolve e difunde.
Indo, talvez, mais além do que pretende esta crítica fraterna
e construtiva, poder-se-ia dizer que a percepção Instrumental
que apresentamos acima parece reincorporar-se e afastar a possibilidade
de que processos de "atalho" ou "autocontrole" sejam
implementados junto à comunidade de pesquisa.
A idéia da necessidade de instaurar um "controle interno"
da atividade científica e tecnológica, uma espécie
de "autocontrole" baseado na internalização dos
valores de um estilo alternativo de desenvolvimento sócio-econômico
por parte dos cientistas e tecnólogos que com ele de fato se identificam
à sua agenda de pesquisa e docência e à PCT que ajudam
a elaborar, conduz a uma outra linha de reflexão policy oriented
dos partidários da tendência CTS2. Isso porque, tal como
ressaltado anteriormente, muitos analistas da PCT e participantes da comunidade
de pesquisa que se identificam com esse estilo alternativo não
dispõem de um marco analítico-conceitual que oriente o processo
de formulação de sua agenda de pesquisa e docência
e da PCT de modo coerente com essa concepção crítica.
Nesse sentido, um movimento que se verifica no nível micro, mas
que pode desencadear um outro de implicações significativas
no nível macro, merece ser mencionado. Trata-se da possibilidade
de, inaugurando linhas de atuação custeada pelo governo
em institutos de pesquisa e de extensão universitária viabilizar
alianças institucionais duradouras entre os movimentos sociais
emergentes protagonistas da implementação desse estilo alternativo
de desenvolvimento e a comunidade de pesquisa. À medida que seus
integrantes que se identifiquem com os interesses (políticos, econômicos)
e valores (ambientais, mortais, étnicos, de gênero) desses
movimentos sociais sejam capazes de incorporá-los às suas
agendas de pesquisa e docência e ao processo decisório da
PCT, se irá gerando um conjunto alternativo de critérios,
variáveis, procedimentos e estratégias que, ao invés
do hoje dominante, possa construir a base cognitiva necessária
à implementação daquele estilo alternativo de desenvolvimento.
Em relação à questão dos atores que deveriam
ser alvo da preocupação dos ECTS - a comunidade de pesquisa,
de um lado, e os estudantes e o público em geral, de outro - o
que se pode concluir a é uma postura de conciliação
entre as duas tendências que decorre do fato desses atores estarem
presentes nas atividades de docência, pesquisa e extensão
que se realizam na universidade. Atuar ao longo do espectro que vai do
público em geral aos professores, passando pelos estudantes, incorporando
a visão crítica dos ECTS na produção mesma
da tecnociência seria, então, o desafio.
Como resultado da elaboração de uma PCT que incorpore como
diretriz a enorme demanda cognitiva que, se atendida propiciará
satisfazer necessidades materiais cuja existência é um dos
aspectos mais tristes de nossa condição periférica,
se estará também absorvendo nosso "excesso" relativo
de capacidade de pesquisa que há quarenta foi explicado como uma
faceta contraditória desta mesma condição periférica
e que hoje passou a ser um fantasma que povoa os pesadelos da comunidade
de pesquisa.
Este trabalho é distinto dos que até agora nos têm
ocupado, na medida em que pretende ser uma contribuição
para a remoção de um obstáculo ao desenvolvimento
científico e tecnológico em Ibero-américa que não
é de natureza estrutural e também não poderia ser
classificado como institucional, mas sim cognitiva.
Seu ponto de partida é a idéia de que é possível
atacar esse obstáculo, presente também nos países
avançados, as percepções instrumental e determinista
da C&T, a partir dos ECTS, e mais especificamente mediante o fortalecimento
da tendência que denominamos CTS2. Seu argumento é de que
essa tendência pode estimular a elaboração de uma
política universitária e de P&D que tome como diretriz
as características do contexto sócio-econômico em
que o conhecimento que ela fomenta deve ser produzido (mediante atividades
de pesquisa), disseminado (atividades de docência), e aplicado junto
à sociedade (extensão). Conhecimento que deve estar orientado
a modificar esse contexto e promover as condições para a
construção de um estilo de desenvolvimento economicamente
igualitário, socialmente justo e ambientalmente sustentável.
Bibliografia
DAGNINO, R. (2003): A Relação Universidade-Empresa no Brasil
e o 'Argumento da Hélice Tripla. Convergencia - Revista de Ciencias
Sociales. México, D.F.: v. 11, n. 35, 2003.
DAGNINO, R. e THOMAS, H. (1998) "Os Caminhos da Política Científica
e Tecnológica Latino-Americana e a Comunidade de Pesquisa: Ética
Corporativa ou Ética Social?". Avaliação - Revista
da Rede de Avaliação Institucional da Educação
Superior. Campinas: v. 1, n° 3.
DAGNINO, R., THOMAS, H. e DAVYT, A. (1996): El pensamiento en Ciencia,
tecnología y sociedad en América Latina: una interpretación
política de su trayectoria, REDES, V.3, n.7.
DIAS, R. (2005): A Política Científica e Tecnológica
Latino-Americana: Relações entre Enfoques Teóricos
e Projetos Políticos. Dissertação de Mestrado em
Política Científica e Tecnológica. Instituto de Geociências,
Unicamp.
FEENBERG, A. (2002): Transforming Technology. Oxford University Press.
GONZÁLEZ, M.; LÓPEZ, J. ; LUJÁN, J. Ciencia, tecnología
y sociedad - una introducción al estudio social de la ciencia y
la tecnología. Madrid: Tecnos, 1996.
LACEY, H. (1999): Is Science Value-free?: Values and Scientific Understanding.
Londres: Routledge.
LÓPEZ CEREZO, J. (2004): Ciência, Tecnologia e Sociedade:
o Estado da Arte na Europa e nos Estados Unidos. In: SANTOS, L. W. E OUTROS
(orgs.) (2004) Ciência, Tecnologia e Sociedade: o Desafio da Interação.
Londrina: IAPAR.
NÚÑEZ, J. (2000): La ciencia y la tecnología como
procesos sociales. Lo que la educación científica no debería
olvidar. www.campus-oei.org/salactsi/nunez00.htm
NELKIN, D. (1984); Science and technology policy and the democratic policy.
Em Peterersen, J. (ed) (1984), Citizen participation in science policy.
University of Massachusetts Press.
Notas:
1 Ao enfatizar, como fazemos neste
trabalho, um obstáculo cognitivo ou ideológico, mas institucional,
à redução desse hiato de natureza genérica
(isto é, existente também nos países avançados),
não estamos querendo minimizar outros, especificamente relacionados
à condição periférica. Ou seja, os de natureza
estrutural e abrangente (como a concentração de poder político
e econômico, a distribuição regressiva da renda e
a influência dos centros internacionais de poder na definição
das políticas públicas) e outros de natureza institucional
e específica (como o modelo ofertista linear e o papel hegemônico
da comunidade de pesquisa na elaboração da PCT), que restringem
um processo de concepção da política de C&T a
partir do contexto sócio-econômico.
2 O raciocínio aqui desenvolvido
segue uma apresentação na Mesa Plenária sobre Innovación
do II Congreso Iberoamericano de Filosofía de la Ciencia y la Tecnología
realizado na Universidad de La Laguna (Tenerife) de 29 de setembro a 1o
de outubro de 2005.
3 Segundo Núñez (2000),
"La ciencia y la moderna tecnología son inseparables; en consecuencia
han llegado a ser actividades casi indistinguibles, y si la Revolución
Científica del Siglo XVII, y la Revolución Industrial iniciada
en el Siglo XVIII fueron procesos relativamente independientes, la fecundación
recíproca y sistemática entre ciencia y tecnología
es, sobre todo, un fenómeno que se materializa a partir de la segunda
mitad del siglo XX y se acentúa notablemente en el siglo actual.
Por eso, es difícil saber a que se dedican las personas que trabajan
en un laboratorio de I+D de una gran industria: ¿hacen ciencia
o hacen tecnología? Quizás simplemente hagan "tecnociencia",
actividad donde los viejos límites son desdibujados". E segue,
"La imagen de la ciencia como una actividad de individuos aislados
que buscan la verdad sin otros intereses que los cognitivos no coincide
con la realidad social de la ciencia contemporánea; la CyT ha sido
impulsada por la búsqueda de hegemonía mundial de las grandes
potencias y a las exigencias del desarrollo industrial y las pautas de
consumo que se producen y se difunden desde las sociedades que lideran
los procesos de modernización".
4 Os ECTS têm consistentemente
mostrado como, nos países avançados, o complexo industrial-militar,
primeiro, e as grandes corporações, hoje, possuem um poder
de definição da agenda da pesquisa que, freqüentemente
contraria os princípios éticos de quem a realiza. No caso
dos países periféricos, entretanto, devido ao fato conhecido
de que a agenda da comunidade de pesquisa tende a ser mimética
e muito fracamente determinada pelos interesses e demandas provenientes
do Estado, das empresas e da sociedade em geral (Dagnino, 2004), a probabilidade
de que os pesquisadores percebam a pesquisa que fazem como orientada por
critérios estritamente científicos, e não econômicos
ou militares, é muito maior. De fato, quando um pesquisador de
Física teórica afirma que o que ele faz no seu laboratório
é "ciência pura e desinteressada" que não
possui utilidade no curto prazo, etc, possivelmente não estará
longe da verdade. Para alcançar um nível de entendimento
daquele grau de definição semelhante ao dos seus colegas
de países avançados, o pesquisador de um país periférico
teria que estar disposto a perceber uma incômoda mediação.
Isto é, teria que estar disposto a reconhecer, além daquele
grau de determinação que ocorre nos paies avançados,
um outro, atinente à condição periférica.
5 Utilizamos o termo "ético"
na sua acepção de senso comum para fazer referência
a um conjunto excludente, de valores intrinsecamente positivos e moralmente
defensáveis, situado mais além de considerações
relativas aos interesses e preferências particulares dos indivíduos.
A precariedade epistemológica que essa opção envolve
não parece comprometer o desenvolvimento do trabalho nem invalidar
os argumentos que defende.
6 Utilizamos o termo "valores"
para denotar aqueles que, na classificação mais usual seriam
aqueles de natureza não-epistêmica ou não-cognitiva.
Isto é aqueles que de acordo com a postura que ela adota seriam
contraditórios aos objetivos de veracidade, confiabilidade, comunismo,
replicabilidade etc.
7 A órbita da circulação,
o ambiente do mercado, em que ao contrário do anterior, aparentemente
infenso às relações de coerção e de
exploração capitalistas, se explicita o caráter contraditório,
muito distinto do ambiente anterior, em que o conflito entre as classes
não pode prescindir da intermediação de um "terceiro
ator", o Estado capitalista, sob pena de fugir do controle da classe
capitalista.
8 Levar adiante essa analogia nos obrigaria
a fazer uma diferenciação entre o momento da produção
do conhecimento tecnocientífico e o da produção de
bens e serviços propriamente ditos. O fato de que este conhecimento
é uma mercadoria particular, que é produzida durante (e
visando a) o processo de desenvolvimento ou concepção dos
bens e serviços aos quais irá incorporar valor, teria que
ser precisado para evitar confusões entre o momento de sua produção
aquele da produção propriamente dita desses bens e serviços.
9 Esta apreciação se
deve à consideração de que este trabalho (Palacios
e outros, 2001) é uma ampliação de outro mais antigo
(González, López e Luján, 1996).
10 Esta escassa atenção
não implica que não se considere os integrantes da comunidade
de pesquisa críticos em relação aos rumos da C&T
como um dos atores a serem mobillizados através da participação
pública na ciência (Nelkin, 1984).
11 Esta é a expressão
utilizada em Dagnino e Thomas (1998) para fazer referência ao processo
mediante o qual a comunidade de pesquisa, em particular o seu segmento
identificado com um novo estilo de desenvolvimento, alteraria sua concepção
acerca da C&T e, em conseqüência, sua prática de
docência e pesquisa e a forma como participa na elaboração
da PCT.
[Subir]
[Portada]
[Contactar]
|