O papel da divulgação científica em nossa sociedade
de risco: em prol de uma nova ordem de relações entre ciência,
tecnologia e sociedade
Marcelo Valério*
Walter Antonio Bazzo**
Síntese: O presente artigo retoma a discussão acerca
do papel desempenhado pela ciência e a pela tecnologia no contexto
da sociedade contemporânea, buscando construir uma reflexão
sobre seus impactos no modo de vida humano. Faz uso de dois referenciais
básicos – os estudos CTS (ciência, tecnologia e sociedade)
e a noção de ‘sociedade de risco’ – para
problematizar a necessidade e capacidade dos cidadãos influenciarem
e exercerem controle sobre as inovações científicas/tecnológicas.
Reafirma a aproximação entre ‘CTS’ e ‘sociedade
de risco’ e insere a divulgação científica
como ferramenta educativa imprescindível no sentido de responder
aos anseios desses referenciais. Pressupõe uma função
educativa para a divulgação científica e a localiza
na construção de um modelo social onde as relações
entre ciência, tecnologia e sociedade precisam ser reconstruídas.
Palavras-chave: divulgação científica; sociedade
de risco; CTS (ciência, tecnologia e sociedade).
1. Introdução
“Chegamos a pensar, em muitas situações, que
a única solução para os problemas são de caráter
científico-tecnológico. Em suma, precisamos trabalhar o
fato de que mais ciência, mais técnica, não significa,
necessariamente, vida melhor para todos” (SANZ et al.
1996)
O desafio de lançar uma reflexão sobre o papel da ciência
e da tecnologia (C&T) na sociedade contemporânea é uma
tarefa ao mesmo tempo, infindável e imprescindível. Infindável
porque ao invés de gerar respostas cabais, este exercício
reflexivo alimenta crescentemente o repertório de questões
sobre as quais se debruçar. E imprescindível porque se torna
cada vez mais evidente a influência da C&T na nossa cultura.
Ciência e tecnologia têm sido, sobretudo nas últimas
décadas, elevadas a verdadeiros símbolos dos tempos modernos.
Responsáveis por renovar as esperanças e expectativas sociais
em suas projeções sobre o futuro, os novos “avanços”
vem sendo encarados como ferramentas capazes de suplantar qualquer problema
com o qual podemos nos deparar e/ou criar. Contudo, é importante
considerar que existem incertezas sobre a aplicabilidade e o acesso a
esses avanços, além do fato de que – quase sempre
– eles ensejam riscos potenciais merecedores de tanta atenção
quanto seus pretensos benefícios.
A consideração dessas ressalvas tornou crescente os sentimentos
de ceticismo e resistência às promessas cientificas/tecnológicas,
mas parece haver ainda muito caminho a percorrer para que se construa
uma concepção crítica sobre o papel da C&T na
sociedade contemporânea. Atualmente, a visão social corrente
configura apenas uma representação caricaturada de C&T,
e que não se mostra condizente com sua construção
histórica. Ideais de autonomia e neutralidade ainda são
associados às práticas científica e tecnológica,
o que não possibilita uma reflexão significativa sobre os
impactos sociais de suas inovações.
Vivemos dias de intensa interferência de inovações
científicas/tecnológicas no contexto social. As relações
humanas são fortemente re-significadas pela influência desses
aparatos e nosso cotidiano é totalmente permeado por eles. Nosso
futuro se apresenta como fruto daquilo que a C&T nos puder oferecer.
E devemos reconhecer que a vida humana, tal qual admitimos, dificilmente
poderia ser imaginada sem considerar a presença e o significado
social da C&T.
As últimas décadas evidenciaram ainda mais este imbricamento
entre ciência, tecnologia e sociedade. As recentes revoluções
em áreas como a Computação, Genética e Automação,
por exemplo, provocaram intenso impacto social e isto vem contribuindo
para despertar o interesse público sobre esses assuntos.
Esse interesse tem levado ao reconhecimento de efeitos nefastos decorrentes
da aceitação apressada de inovações científicas/tecnológicas,
e assim, tem reformulado – ainda que gradativamente – a ingênua
fé progressista na C&T que figura no âmbito social. O
até então inabalável otimismo desestrutura-se frente
à exposição de significativos riscos potenciais atrelados
aos ditos avanços científicos/tecnológicos.
Neste contexto de dúvidas e incertezas, esta é a resposta
mais clara e evidente da influência social exercida pela C&T:
o crescente interesse público pela discussão e participação
nas decisões sobre assuntos relacionados a elas. Essa nova atribuição
dos cidadãos vem ganhando força e expressão nas diferentes
partes do mundo e parece apresentar-se como imperativo de uma sociedade
moderna – e que se quer democrática. Parcelas significativas
de cidadãos estão deixando a perplexidade e inatividade
frente às ações da C&T na sociedade e galgando
um posto de atuação e reflexão sobre as mesmas, construindo
assim uma nova ordem de relações entre esses espaços.
Entretanto, essa nova ordem depende, para concretizar-se, de que os
cidadãos comuns – também chamado de leigos
– tenham ampliado seu acesso a informações, em quantidade
e qualidade, sobre as práticas de C&T e seus frutos. A criação
de um público crítico e reflexivo parece só ser viável
através da democratização dos conhecimentos e principalmente
dos valores que sustentam a C&T em seus bastidores. E esta é
uma tarefa na qual a educação científica e tecnológica
constitui um componente primordial.
Nesta nova perspectiva, a divulgação da ciência
e da tecnológica surge como importante ferramenta educativa. Inserida
no âmbito social através de uma ampla gama de meios de comunicação,
faculta a si própria a possibilidade de atingir os mais diversos
públicos, além da capacidade de fomentar neste público
a devida reflexão sobre os impactos sociais da C&T. Desta feita,
a divulgação se coloca no contexto da educação
científica e tecnológica, e alia-se ao ensino formal na
construção de uma sociedade alfabetizada científica
e tecnologicamente, capaz de refletir criticamente e atuar a respeito
dos assuntos de C&T em seu contexto.
2. Uma nova conjuntura de relacionamento entre ciência, tecnologia
e sociedade
A racionalidade crescente no século XIX atingiu seu apogeu no
século que seguiu, no qual se atrelou o conceito de desenvolvimento
científico/tecnológico à noção de desenvolvimento
humano. Durante este período, o otimismo e a fé no progresso
através da C&T construíram uma noção social
dessas como provedoras do bem estar comum (ANGOTTI & AUTH, 2001).
O fato é que, ainda hoje, pesquisas como a de VOGT & POLINO
(2003) têm demonstrado que este modelo de percepção
pública sobre C&T persiste. Grande parte das pessoas as confere
todo o mérito pela condição humana atual e aposta
nelas como principais esperanças para um futuro ainda “melhor”.
Entretanto, esta concepção de credibilidade total à
C&T vem sendo desconstruída – ainda que paulatinamente
– nas últimas décadas (em especial após II
Guerra Mundial) com o maior reconhecimento e exposição dos
riscos atrelados ao progresso científico e tecnológico.
A segunda metade do século XX tem as marcas desta exposição.
O até então desconhecido “outro lado” da C&T
tem abalado a crença no pretenso objetivo de bem estar comum e
exposto as possibilidades de mau uso do conhecimento científico
e da técnica. A partir deste momento, vem sendo criada uma nova
postura pública em relação à C&T, na qual
fica claro que seus avanços além de não beneficiarem
a todos, congregam, muitas vezes, efeitos bastante indesejáveis.
Atualmente as preocupações sobre o desenvolvimento científico
e tecnológico e o uso de seus resultados têm sido cada vez
mais evidentes. Mais recentemente, contudo, novas facetas têm se
somado a este o rol de questões: mais do que conseqüências
meramente técnicas, aspectos como a concentração
de poder e riqueza, por exemplo, passaram também a serem encarados
como resultado de relações deturpadas entre ciência,
tecnologia e sociedade.
Enfim, embora persista a concepção de que os benefícios
da C&T são maiores que seus efeitos nocivos, ainda assim parece
haver realmente uma mudança em curso. E ao que tudo indica, ela
dirige-se no sentido de aproximar cada vez mais o público leigo
das decisões a respeito de temas em C&T (VOGT & POLINO,
2003).
As palavras de HOLTON (1979) esclarecem como esta mudança já
vem se fazendo premente há pelo menos duas décadas do final
do século XX. Segundo este autor, deverá ser esta uma mudança
não só do ponto de vista público, mas também
nos que diz respeito aos cientistas e tecnólogos:
“Os cientistas e os não-cientistas precisam agora,
certamente, também de um maior contato com as discussões
substanciais sobre o impacto da ciência e tecnologia sobre os valores
humanos e éticos. A fuga da maioria dos membros de uma profissão
para o alto empíreo, onde podem trabalhar tranqüilamente em
problemas puramente científicos isolados da agitação
da vida real, talvez fosse adequada a uma fase anterior da ciência;
no mundo de hoje, é um luxo que não podemos sustentar”
(HOLTON. G. A imaginação científica. 1979; 217).
Afirmações como esta, anteriormente restrita ao âmbito
acadêmico ou a parcelas específicas da população,
renovam-se em nosso tempo mediante aos estrondosos avanços da C&T
no final do século passado. Atualmente, os últimos avanços
na área da biotecnologia, por exemplo, como os alimentos transgênicos
ou a clonagem se mostram profundamente inseridos no tecido social, representando,
no mínimo, alterações radicais na maneira como concebemos
nossa alimentação e nossas formas de reprodução.
Se considerarmos também as novas tecnologias do campo da comunicação,
torna-se evidente que num breve espaço de tempo C&T foram capazes
de reconstruir inclusive nossa noção de distância
e de relacionamento inter-pessoal.
O fato é que esta nova e emergente ordem de relações
entre ciência, tecnologia e sociedade, têm nos mostrado uma
tendência de reaproximação entre as partes, e onde
a última irá ecoar cada vez mais forte sobre as duas primeiras.
E como já foi dito, este padrão de mudança resulta
justamente da crescente inserção e impacto das inovações
científicas/tecnológicas no âmbito social; da onipresença
da C&T em nosso cotidiano, conferindo novos significados para os sentimentos
e valores humanos, numa mostra do que parece ser a característica
mais marcante de nossos dias.
A atual conjuntura de relacionamento entre ciência, tecnologia
e sociedade aponta para impactos sociais cada vez mais profundos, modeladores
das relações e do comportamento humano. Mas como historicamente
tem sido mostrado, não se pode delegar apenas aos cientistas e
tecnólogos a competência para ditar os rumos de toda uma
sociedade. Caberá ao cidadão comum a tarefa de dizer que
tipo de desenvolvimento científico/tecnológico é
necessário e aceitável, para assim aproximar – verdadeiramente
– a prática de C&T de seu pretenso objetivo de melhorar
a qualidade de vida de todas as pessoas.
Finalmente, o empreendimento de formas de controle social da C&T
constitui-se, além de uma meta democrática, em uma questão
fundamentalmente ética. Somente a construção de mecanismos
que permitam aos cidadãos apropriar-se de informações
sobre C&T e inserir-se em contextos de tomada de decisões políticas
poderá impedir novas formas de exclusão social e até
mesmo de escravidão. Contudo, esse compromisso, em favor principalmente
das futuras gerações, deve ser confiado, mais do que às
leis, à necessidade de evolução moral de nossa sociedade
(GARRAFA et al., 2000; BERLINGUER, 2004).
3. Os ‘estudos CTS’ e a noção de ‘sociedade
de risco’
Obviamente, antes de atingir o grande público, o intuito de avaliar
e repensar o desempenho da C&T e sua influência junto à
sociedade se fez presente nos domínios acadêmicos. Das diversas
análises que emergiram, sobretudo na área de filosofia e
sociologia, avultaram os ‘estudos CTS’ e a noção
de ‘sociedade de risco’.
Os ‘estudos CTS’ têm sua origem entre as décadas
de 60 e 70 e definem hoje um campo de trabalho e docência em franca
consolidação. Suas abordagens são de caráter
crítico frente à tradicional imagem essencialista da C&T,
e de caráter interdisciplinar por coincidir em disciplinas como
a filosofia, a história e a sociologia da ciência, além
de relacioná-las com a política e a economia por exemplo.
Ocupam-se primordialmente em estudar a dimensão social da ciência
e da tecnologia, tanto do ponto de vista de seus antecedentes como de
suas conseqüências (CEREZO & LUJÁN, 2000).
Para os estudos CTS, como apontam BAZZO et al. (2003a), se
é consenso que não há crescimento ou desenvolvimento
se estes não estiverem alicerçados em avanços científicos
e tecnológicos, deve ser igualmente consensual que estes processos
devem estar necessariamente atados com questões sociais e culturais
contextualizadas.
Pode-se dizer que esses estudos caracterizam-se por reconhecer a complexidade
da relação entre a tríade ciência, tecnologia
e sociedade, se propondo a analisar suas recíprocas influências
de forma a superar a ingênua aplicação da clássica
relação linear entre elas. Suas análises visam extrapolar
a tradicional e fragmentada dimensão acadêmica e colocam
o processo tecnocientífico no contexto social, defendendo assim,
a participação democrática na orientação
do seu desenvolvimento (BAZZO et al., 2003b).
Em corrente expansão, as abordagens CTS vêm ganhando espaço
principalmente nos países periféricos, justamente onde as
concepções sobre C&T parecem ainda mais deturpadas –
e isto é bastante animador. No caso dos países ditos desenvolvidos,
já é possível inclusive reconhecer diferentes direcionamentos
dos estudos CTS. Como nos expõem BAZZO et al. (2003b),
já se pode reconhecer a existência de duas tradições
de estudos CTS: a primeira delas é norte-americana, e enfatiza
questões de cunho social, prioriza a influência da tecnologia
e caracteriza-se por questões éticas e educacionais; já
a tradição Européia confere maior importância
para os fatores sociais antecedentes, possui um caráter mais teórico
e descritivo, e caracteriza-se por reflexões sociológicas,
psicológicas e antropológicas.
Não obstante às possíveis diferenças, importa
que os estudos CTS sejam entendidos como uma área onde a preocupação
fundamental é tratar ciência e tecnologia na perspectiva
de suas relações, conseqüências e respostas sociais.
Assim sendo, confere-se um caráter de atualidade a esta referência,
de forma que ela responde aos anseios de composição de uma
sociedade democrática, que considera as repercussões da
C&T e se propõe a construir estruturas para orientá-las.
Em sua dupla faceta, de movimento de participação social
e estrutura acadêmica, as abordagens CTS resumem um exemplo de uma
dinâmica social de crescente aceleração, orientada
à criação de uma consciência sobre temas de
C&T. Tal dinâmica se mostra possível mediante o direcionamento
e o controle social da investigação científica e
do estabelecimento de planos de ação específicos
de participação cidadã em assuntos tecnológicos
que afetem de forma direta a vida cotidiana da sociedade (DONAS, 2004).
Bastante interessante e provocativa, e sob o mesmo foco de análise,
encontramos a noção de ‘sociedade de risco’.
Este termo foi cunhado em 1986 pelo sociólogo alemão Ulrich
Beck, tendo se popularizado cada vez mais por sua contemporaneidade.
O autor faz uso deste conceito para explicar as características
da alta modernidade, na qual a radicalização de alguns princípios
traz riscos principalmente à saúde humana e ao meio ambiente.
Esses riscos passam a ser apontados como componentes centrais das sociedades
contemporâneas e não apenas mais uma das faces do avanço
científico/tecnológico. Para Beck, a sociedade
industrial moderna, fundada sobre as disputas das riquezas socialmente
produzidas, é substituída por uma sociedade que precisa
administrar a produção social dos riscos (BECK, 1992; MARTIONS
& GUIVANT, 2003).
A caracterização da sociedade de risco conta também,
por parte de seu fundador, com um importante questionamento dos princípios
da ciência e da tecnologia moderna. Sob esta ótica, vivemos
numa sociedade de risco por conta de nossa cultura industrializada e da
contínua inserção de inovações científico/tecnológicas
em nosso meio social. Estas inovações têm criado constantemente
novas formas de risco, e impõe uma periculosidade qualitativamente
distinta da que vivemos no passado. Estes riscos seriam danos (potenciais
ou reais) aos quais estamos nos submetendo por conta de nossa relação
com C&T, e que estão sendo democraticamente distribuídos
já que não respeitam fronteiras de países ou de classes
(CEREZO & LUJÁN, 2000).
Neste contexto de re-significação das relações
entre ciência, tecnologia e sociedade, onde os riscos se fazem mais
importantes que os pretensos benefícios científicos/tecnológicos,
incorpora-se compulsoriamente o modelo de sociedade que vive sob um processo
que Beck chama de ‘modernização reflexiva’.
Resultante da sociedade de risco, a modernização reflexiva
consiste na tomada de consciência por parte do público das
relações entre ciência, tecnologia e sociedade. Sua
finalidade é o aparecimento de mecanismos para minimizar os efeitos
de viver num estado de incerteza, o que vai certamente ao encontro da
necessidade de participação pública defendida nos
dos estudos CTS.
Desta forma, mesmo contando apenas com uma breve apresentação
desses referenciais, faz-se inegável a possível aproximação
entre seus ideais. Ambos versam sobre a problemática em torno do
relacionamento entre ciência, tecnologia e sociedade, e se ocupam
em apresentar de que forma essas influências recíprocas têm
contribuído para construir nosso modelo de sociedade atual.
Os estudos CTS e a noção de sociedade de risco se encontram
diretamente ao reconhecer a urgente reavaliação do papel
da C&T na vida dos cidadãos. Como comentam CEREZO & LUJÁN
(2000), esta sintonia ressalta a necessidade da participação
pública para uma adequada gestão dos riscos na sociedade.
Ou seja, se levados a cabo seus pressupostos nos apontam a necessidade
de que se crie publicamente uma capacidade crítica e reflexiva
para avaliar a prática e os frutos da C&T, sendo este, o alicerce
para um novo modelo de sociedade onde a participação e o
controle público sobre C&T surgirão como imperativos.
4. O papel da divulgação científica na construção
de uma nova ordem social
Durante o século XX, a busca e as implicações dos
avanços técnico-científicos ficaram a cargo de uma
elite, uma comunidade de experts a quem se delegou o poder de
gestão do futuro. Os excluídos foram essencialmente os cidadãos
leigos. Contudo, há um notável crescimento dos mecanismos
destinados a envolver ativamente o público, tendo como pano de
fundo o ceticismo em relação ao desempenho científico
e tecnológico (EINSIEDEL, 2003).
As pessoas, ao se conceberem como integrantes de uma sociedade e se
tornarem cientes de que progridem conjuntamente com o desenvolvimento
desta, entenderão melhor que, mesmo em parte submetidas e condicionadas
pela crescente utilização da C&T em seu meio, suas vidas
não estão irrevogavelmente predeterminadas pela lógica
inevitável, às vezes perversa, do desenvolvimento tecnológico
(ANGOTTI & AUTH, 2001).
As afirmações acima se somam aos argumentos até
aqui apregoados, e reafirmam a concepção de que exista um
novo ordenamento para a dialética entre ciência, tecnologia
e sociedade. A perspectiva de futuro aventada nos estudos CTS e pela noção
de uma sociedade de risco gera também uma reflexão sobre
o conceito de cidadania. Ele conta agora com novos significados em uma
sociedade balizada por C&T. O exercício pleno da cidadania
passa hoje, pela motivação e capacidade dos indivíduos
de envolver-se em decisões sobre os rumos da sociedade, um desafio
no qual compreender e refletir a prática científica/tecnológica
se faz preponderante.
Neste ponto do discurso enxerga-se a premência com que se possa
contar com uma educação científica e tecnológica
de qualidade, não apenas no âmbito formal de ensino, mas
em todos os espaços sociais onde o caráter pedagógico
se faça considerar. Conforme argumenta DONAS (2004), trata-se de
adaptar os objetivos educativos às novas necessidades e demandas
de uma sociedade em transformação, sob pena de zelar pela
manutenção de um sistema educativo em degeneração.
Para GASPAR (2002) e SOUZA (2004), não restam mais dúvidas
de que o exercício da cidadania exige agora muito mais do que podem
oferecer os saberes formalizados nas disciplinas escolares. Outros autores,
como ARGÜELLO (2002), têm sido enfáticos em afirmar
que as escolas não educam em ciências, e muito pobremente
divulgam seus resultados. Considerando assim a precariedade do ensino
formal em ciências, somada a diminuta parcela do tempo de vida que
um cidadão dedica a sua formação através de
instituições oficiais de ensino, sobretudo no Brasil, percebe-se
a urgência de que haja políticas e estratégias pedagógicas
que efetivamente contribuam para a educação pública
em ciências por meio de experiências fora do ambiente escolar.
Aqui, este ensaio vem destacar o papel da divulgação científica
como ferramenta educativa, inserida no contexto mais amplo da educação
pública e dotada de um potencial ímpar para atender os anseios
de uma sociedade que começa a reconstruir a sua relação
com C&T.
Entendida como um acervo de práticas no campo da Comunicação,
a divulgação científica atua na exposição
pública não só dos conhecimentos, mas dos pressupostos,
valores, atitudes, linguagem e funcionamento da C&T. Fazendo uso,
para tal, de uma ampla gama de meios disponíveis, dentre os quais
a museologia (de observação e interativa), a dramaturgia
(no teatro e televisão), a literatura, e o jornalismo (de televisão,
rádio e mídia impressa), além de outras iniciativas
menos usuais. A conjunção entre essas premissas práticas
da divulgação científica e sua diversidade de veículos
pelos quais opera é que a confere a qualidade de recurso imprescindível
na educação pública em ciências.
No entanto, importa reconhecer que as práticas de divulgação
científica, assim como ao arcabouço teórico a seu
respeito, ainda encontra-se em via de consolidação, tornando
difícil identificar esse compromisso educativo na maioria das iniciativas.
A divulgação científica, tal qual é pensada
e praticada atualmente, congrega uma série de questões problemáticas,
dentre as quais, a maneira como concebe e contempla as inovações
em C&T. Até o presente momento a maior parte dos veículos
de divulgação científica tem se preocupado pouco
com a sua dimensão educativa e, assim, não contribuem significativamente
com a formação em seu público de uma visão
crítica sobre C&T. Em geral, são poucas as iniciativas
que tem considerado este potencial da divulgação e, infelizmente,
esta tarefa tem ficado a cargo daquelas que possuem menor inserção
social, como os museus interativos de ciência por exemplo. Já
em outros instrumentos de comunicação social de massa, como
é o caso da televisão, o que se tem é uma noção
bastante simplificada da prática científica/tecnológica.
Na maioria dos casos, os temas em C&T são tratados de maneira
bastante descontextualizada e pouco reflexiva, fazendo perdurar a ultrapassada
concepção de superestima e otimismo cego na C&T.
Paradoxalmente, DOREA & SEGURADO (2000) definem como os meios de
comunicação de massa tornaram-se fundamentais na nossa sociedade,
caracterizando-os como o Quarto Poder, sobretudo por sua capacidade de
produzir modos de vida e dinâmicas sociais. Segundo estas autoras,
a mídia destaca-se como um potente disparador de processos de subjetivação,
porque ela investe como ninguém no cotidiano de cada indivíduo,
podendo adequar comportamentos e maneiras de pensar de acordo com seus
interesses. Sendo assim, faz-se necessário e premente que a divulgação
científica passe rapidamente a contemplar tais capacidades.
Não obstante, há verdadeiramente uma dimensão ética
a ser considerada na divulgação científica: a circulação
das idéias e dos resultados de pesquisas é fundamental para
avaliar o seu impacto social e cultural, como também para recuperar,
por meio do livre debate e confronto de idéias, os vínculos
e valores culturais que a descoberta do novo, muitas vezes, rompe ou fere.
Nesse sentido, a divulgação não é apenas página
de literatura, na qual as imagens encontram as palavras (quando as encontram),
mas exercício de reflexão sobre os impactos sociais e culturais
de nossas descobertas (CANDOTTI, 2002).
Tais argumentos têm apontado a urgência de que a divulgação
científica assuma seu papel como ferramenta fundamental na formação
dos cidadãos. Como sinalizado anteriormente, seu potencial formativo
e a inserção social de seus veículos colocam-na em
posição destacada na construção de uma nova
ordem de relações entre ciência, tecnologia e sociedade.
Uma possibilidade que se abre, e que se faz indispensável, é
a da aproximação entre a educação científica
e tecnológica formal e os espaços de divulgação
científica, tornando possível uma complementaridade de ambos
em prol da formação de cidadãos conscientes e atuantes
no novo modelo de sociedade que se deseja.
Como já foi exposto, há certamente uma demanda pública
por informação em C&T. O atendimento a esta demanda
deve possibilitar formar uma sociedade capacitada a analisar criticamente
as relações entre ciência, tecnologia e sociedade,
e futuramente predisposta a redimensionar a influência da sociedade
na atividade científica e tecnológica. Podemos, através
deste pressuposto, enxergar agora a posição destacada que
possui a divulgação científica no contexto dos estudos
CTS e na construção de uma sociedade de risco.
Fundar uma sociedade com discernimento crítico e capaz de fazer
inferências nas relações entre ciência, tecnologia
e sociedade, é uma premissa e ao mesmo tempo um anseio desses referenciais.
O desafio da educação aponta como emergencial o compromisso
de alfabetizar científico-tecnologicamente o público numa
perspectiva ampla, em direção ao que JENKINS (1997) chamou
de ´entendimento funcional da ciência´. Assim, deve-se
repensar a função social das práticas de divulgação
científica, considerar sua dimensão educativa como primordial,
e também fortalecer sua relação com o ensino formal
de C&T. Estaremos então, colocando-a em posição
de destaque na construção desta nova sociedade.
Sabe-se, entretanto, que ainda estamos longe de manter uma divulgação
científica de qualidade e que atinja amplos setores da nossa população
(no Brasil, sobretudo) (MASSARANI et al, 2002).
E a dimensão deste problema pode ser percebida nas palavras de
FAUSTO (2002):
“A atividade aparece como uma espécie de meio-termo
desengonçado entre a pesquisa de ponta (que deveria nos conduzir
ao primeiro mundo) e a educação de base (que deveria nos
salvar de nossa própria miséria)” (FAUSTO, C.
2002; 208).
Entre os principais fatores que brecam o ideal de divulgação
científica aqui descrito, pode-se citar a deficitária formação
profissional dos divulgadores (geralmente jornalistas), o desinteresse
e até repulsa por parte dos cientistas/pesquisadores, a carente
formação educacional básica do público (principalmente
em países periféricos como o Brasil), a diversidade cultural
do público em relação à C&T, a falta de
um compromisso social das instituições de pesquisa e, principalmente,
a limitada valorização do potencial educativo da divulgação;
além, é claro, da insólita vinculação
entre mídia e interesses corporativos.
Reconhecidos os entraves, consolidar e melhorar a divulgação
científica como instrumento de reflexão sobre ciência
e tecnologia e, além disso, ampliar seu alcance para torná-la
verdadeiramente democrática tornou-se um dos maiores desafios da
atualidade. Mas esta é uma tarefa que só será viável
se transformada num processo coletivo suficientemente amplo, que envolva
instituições de pesquisa, universidades, comunicadores,
cientistas, educadores, estudantes e o próprio público em
geral (MASSARANI et al, 2002).
5. Constatações finais
“Nunca, talvez, a frase feita – exercer o controle sobre
a tecnologia e pô-la a serviço dos seres humanos –
teve tanta urgência de virar fato quanto hoje, em defesa da liberdade
mesma, sem a qual o sonho da democracia se esvai” (FREIRE,
1992: 133).
Com essa assertiva do mais importante educador brasileiro, torna-se
possível retomar o ideal de que um certo controle democrático
sobre C&T não é só desejável, mas inevitável.
A partir disto, a conclusão que se pode chegar é a mesma
encontrada por KNELLER (1980), de que somente um público cientifica
e tecnologicamente informado poderá debater as múltiplas
ramificações da C&T na vida cotidiana, sem ceder a um
otimismo superficial ou à hostilidade frenética.
A regulação externa do empreendimento científico
e tecnológico torna urgentemente necessária uma cidadania
mais científica e tecnologicamente esclarecida, e também
a exigência da criação de meios institucionais para
algum tipo de controle democrático de C&T, tarefa esta que
não deverá ser fácil – principalmente por se
chocar com poderosos interesses – e está apenas começando
a ser empreendida.
Ainda assim, pensar hoje na existência humana sem considerar a
representatividade dos artefatos científicos/tecnológicos
é irrelevante. Sem dúvida, nossa existência é
dependentemente sustentada pela existência desses aparatos, e nosso
modo de vida reflete a onipresença da C&T na sociedade. Embora
vivamos nossos cotidianos mergulhados na perplexidade, ou no ´sonambulismo
tecnológico´ como argumenta WINNER (1987), reconhecidamente
C&T fazem cada vez mais parte do nosso dia-a-dia.
Importa dizer que não se pretendeu, em momento algum deste trabalho,
criticar de maneira pejorativa a C&T. Pelo contrário, se reconhece
sua importância na construção de nossa sociedade:
vivemos mais e melhor por conseqüência de inovações
científicas/tecnológicas; seus aparatos significam, muitas
vezes, facilidades e benefícios para o sucesso de nossa existência.
Porém, por conta dessas mesmas inovações, vivemos
também num contexto de incertezas e dúvidas: os benefícios
da C&T dificilmente se fazem democratizados e assim ensejam possibilidades
de dominação econômica e cultural; seus riscos, pelo
contrário, atingem a todos e associam-se à mazelas sociais
insustentáveis. O que este ensaio defende então é
a construção de uma massa pública crítica,
capaz de avaliar o impacto da inserção social das inovações
em C&T. As possibilidades para a interferência e o controle
público sobre a prática científica/tecnológica
colocarão ambas a serviço da sociedade – e não
mais o contrário –, redimensionando então as relações
entre essas partes.
Mas para isso, é primordial que se perceba como a inserção
da C&T na cultura tem influenciado nosso modelo de sociedade e re-significado
continuamente todo nosso modo de vida. Modernamente, o exercício
de uma cidadania plena exigirá novas capacidades: agora, informar-se,
analisar criticamente, refletir e decidir sobre todos os aspectos da nossa
cultura cientificada e tecnocrática emergem como atribuições
das quais não poderemos prescindir.
Deve-se considerar, assim como DONAS (2004), que não são
poucas as vozes críticas que tem assinalado que são os meios
de comunicação que realmente desempenham este papel na sociedade,
que são eles os que exercem uma influência real e decisiva
na formação das novas e atuais gerações.
E é neste novo contexto onde uma divulgação científica
de qualidade se faz urgentemente necessária. Suas potencialidades
destacam-na como instrumento reflexivo sobre as relações
entre ciência, tecnologia e sociedade. Responsabilizando-se por
democratizar os saberes e valores da C&T, promover uma alfabetização
cientifica/tecnológica numa perspectiva crítica e fomentar
a inserção política dos cidadãos nas tomadas
de decisão, a divulgação adquire agora uma importância
ímpar na construção de uma sociedade democrática
e que recoloca a C&T ao seu favor.
6. Referências
ANGOTTI, José André Peres & AUTH, Milton Antonio (2001).
Ciência e tecnologia: implicações sociais e o
papel da educação. Ciência & Educação.
vol. 7, p. 15-27.
ARGÜELLO, Carlos. A. (2002). A ciência popular.
In: MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro & BRITO, Fátima
(orgs.) (2002). Ciência e público – caminhos da
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Notas
* Mestrando do Programa de pós-graduação
em Educação Científica e Tecnológica da Universidade
Federal de Santa Catarina. Bolsista da CAPES.
** Docente do Programa de pós-graduação
em Educação Científica e Tecnológica da Universidade
Federal de Santa Catarina.
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