Número 7
Septiembre - Diciembre 2006

 

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Nanotecnologia e a Criação de Novos Espaços e Novas Identidades

Marise Borba Da Silva*(1)


“Este é nosso mundo agora... O mundo de elétrons e botões, da mudança, a beleza da transmissão. Nós fazemos uso de um serviço que deveria ser barato, e vocês nos chamam de criminosos.
Nós exploramos... e vocês nos chamam de criminosos.
Nós vamos atrás do conhecimento e vocês nos chamam de criminosos.
Nós existimos sem cor, sem nacionalidade, sem religião... e vocês no chamam de criminosos.
Vocês constroem bombas atômicas, vocês fazem guerras, vocês matam, trapaceiam e mentem para nós, e tentam nos fazer crer que é para nosso bem, "é...", nós é que somos os criminosos”(2).

Resumo:

Este artigo representa um esforço inicial de discutir a relação existente entre a nanotecnologia e o mundo cifrado do hacker, que nela se sustenta. Destaca ainda os resultados de uma análise sobre distintos estudos e idéias que contribuem para dar fundamento à abordagem de uma nova forma tecnológica, já presente em diversos campos, que vão desde a informática, à biotecnologia e à indústria dos materiais. A nanotecnologia. tem sido considerada uma ferramenta que poderá solucionar muitos problemas hoje existentes e que requerem o uso de tecnologias inovadoras. O trabalho discute também os desdobramentos tecnológicos, no âmbito dos estudos que avançam sobre cibercultura e contracultura digital, e a implicação da ferramenta nanotecnológica na constituição de novas realidades, onde se reconhecem novas dimensões sociais e a construção de novas identidades.

Palavras-Chave: nanotecnologia, hacker, internet, cibercultura, contracultura,.

Introdução

Como nas obras de ficção, todo o imaginário da cibercultura foi inicialmente alimentado pela ação legendária dos hackers, associados comumente à subcultura ou à contracultura, refletindo um dos acontecimentos mais polêmicos na recente história das inovações tecnológicas: O desenvolvimento da nanotecnologia. Além de tratar-se de uma inovação tecnológica que requerer uma grande capacidade científica para seu desenvolvimento, as questões que surgem simultaneamente são muitas, o que dificulta qualquer tentativa de abarcá-las em seu conjunto. Mas é possível refletir sobre o que resultou do afinamento e exercício da cibercultura juntamente com as ações ultrafinas da nanotecnologia que apontam novos caminhos a serem seguidos, sem fazer especulações, pois nada seria relevante se não resultasse em algo de novo. No entanto, tudo parece pressupor que só há mudança, a exemplo do surgimento de novos grupos em meio a essa transformação, ainda em curso, para a sociedade contemporânea. Essa nova socialização traz uma nova forma de cultura, a cibercultura, com maneiras diferentes de ação e expressão, de comunicação e importante uso de ferramentas na ampliação das relações interpessoais em todo mundo, além de dilemas e problematizações gerados nesse entorno.

Neste ensaio, também se espera ir mais além do que comumente é reafirmado sobre a diferença entre cultura e cibercultura, que estaria na condição de poder optar pelo offline ou pelo online, e de ver a realidade virtual compreendida apenas como uma técnica muito avançada de interface, na qual o usuário da máquina torna-se participante e sua contribuição é fundamental para a própria existência da cibercultura. É necessário enfatizar que o acesso à informação, e através dela ao conhecimento, proporcionou em maior medida uma divisão e estratificação pelo uso de novos territórios, uma “desterritorialização” na verdade, segundo Lévy (1998), sobretudo, com a construção de novas identidades. Por isso, as novas tecnologias, em especial, as nanotecnologias, por sua natureza molecular, próxima da capacidade de construir materiais e produtos com precisão atômica, ao configurarem um novo espaço e revolucionarem as noções, tempo, alteridade e comunidade, desenharam também objetivos, potência e usuários diferentes. Abriram, assim, caminho para a cultura hacker por oferecem uma grande superfície de contacto e comunicação, particularmente, devido a experiências e conhecimentos que os hackers puderam desenvolver seguindo os princípios da comunidade de software livre capazes de ser estendidos e aplicados, inicialmente, a projetos sociais transdisciplinares, à sua identificação tanto com as tecnologias numéricas como com a espetacularidade dos equipamentos e instalações que requerem e aos seus resultados visuais, tornando-se fundamental na sustentação da revolução digital.

Nesse contexto, aqui não se pretende fortalecer a idéia de contracultura como a popularização da atitude dos hackers, que têm no hacking sua grande distinção. Lembro que atos de hacking podem ir desde travessuras relativamente simples e inofensivas ou que tenham sérias conseqüências econômicas, a ações extremamente finas, mais pequenas e bem mais delicadas. Considero que desse modo, torna-se mais fácil aclarar tanto rumor, especulação, suspense e encantamento que existem em torno da relação da tecnologia-hacker e das implicações nanotecnológicas, que ‘sopram’ sem muito fundamento, pois tanto a nanotecnologia como a constituição identitária do hacker são fenômenos ainda muito novos. Ainda é muito cedo para emitir certezas como verdades absolutas a respeito disso.

Com esse entendimento e pelas razões expostas, para fundamentar este estudo serão importantes as contribuições de alguns autores a quem recorro, porque lançam luz sobre muitas questões a respeito do que veio a denominar-se “sociedade da informação”. Além disso, eles tomaram para si a relação homem-técnica como preocupação central e fazem o reconhecimento do inegável valor da inovação tecnológica informática, que necessita, sobretudo, de liberdade para desenvolver-se e alicerçar a cibercultura como “forma peculiar de relação entre a sociabilidade e as tecnologias” (Lemos,1999:12).

A cibercultura se vincula, principalmente, às transformações econômicas e sociais derivadas das novas tecnologias relacionadas, especialmente, às áreas “inteligência artificial” (computação e ciências da informação), “biotecnologia” e, mais recentemente, “nanotecnologia”, marcando um estilo de vida que resultou da “simbiose entre os homens e as novas tecnologias” (Lemos, 1999:15) e do aparecimento da internet. É inegável que a invenção da internet contribuiu de forma inédita para combinar o corpo humano com a máquina. Entretanto, por mais sofisticada que ela seja, não se trata somente de uma nova tecnologia e espetacular, a mais importante de outras tantas já conhecidas, porque já se tem ciência de que os novos meios de comunicação eletrônica que hoje temos não divergem radicalmente das culturas tradicionais: absorvem-nas (Castells, 2000).

No meu modo de ver, a internet passou a ocupar um lugar especial pelo fato de ter-se tornado um meio que mudou e está mudando a sociedade, dadas as possibilidades inimagináveis de opções que o ciberespaço oferece. Trata-se de um medium capaz de gerar mundos de comunicação compartilhados e promover muito mais integração cultural e reinscrição colaborativa ao introduzir novas maneiras de produzir, criar, ousar e de relacionar-se, que parecem nos encaminhar efetivamente até uma nova era. Para Piscitelli (2000:86), as realidades virtuais propõem uma mudança paradigmática em nossas noções de mundo, experiência, causalidade, comunicação, interação homem-máquina, entre outras. Esta mudança é tão poderosa e estremecedora como a nanotecnologia, devido a sua enorme capacidade de transformação e potenciais conseqüências, que num e noutro caso tanto podem ser benéficas como prejudicais.

A Nova Fronteira Nanoeletrônica e o Surgimento Dos Hackers

"A Humanidade olha para mim como um magnífico começo mas não a palavra final."

Freeman Dyson (1994)

Para iniciar esta abordagem, recorro a Lemos (1999:16), quando retoma o trabalho de Haraway (2000) fazendo referência ao surgimento do cyborg em meio à cultura contemporânea. O autor implicitamente reconhece as mudanças ocasionadas pela miniaturização e transformação do mundo de forma radical com a introdução do eletrônico digital, da biogenética e das nanotecnologias. Embora esteja tratando da relação entre o natural e o artificial, entre natureza e cultura, e da aproximação entre o corpo físico natural e as máquinas tecnológicas, são questões que envolvem mudanças não compreendidas ainda, na sua plenitude, no campo das ciências sociais e humanas.

A definição da nanotecnologia reveste-se de uma horizontalidade tal que possibilita sua aplicação a todos os setores de atividade. Considerando as raízes lingüísticas da palavra nanotecnologia, esta deriva do prefixo nano, sendo uma medida de grandeza usada na ciência para designar um bilionésimo. Assim, um nanômetro (símbolo nm) é relativo à “escala nanométrica”. Imaginemos um milímetro que já é por demais pequeno, mas podemos enxergá-lo até numa régua. Porém, enquanto um micrômetro corresponde a um milionésimo do metro e a um milésimo do milímetro, um nanômetro equivale à bilionésima parte de um metro, ou seja, a um milionésimo de milímetro ou ainda a um milésimo de mícron.

O mundo na dimensão “nano”, portanto, não é algo naturalmente por todos assimilado, sendo possível afirmar com segurança que sobre estas tecnologias tão pequenas, ínfimas, praticamente o mundo sabe muito pouco. Elas não são construídas na escala comum em que estamos acostumados a perceber o mundo, segundo a qual desenvolvemos a visão das coisas que nos rodeiam, tampouco dizem respeito a nós mesmos e sobre como pensamos a relação natureza e cultura. É o mundo do “muito pequeno”, do invisível aos nossos sentidos. É exatamente essa nova capacidade de criação e desenvolvimento que atribuo às nanotecnologias, tecnologias moleculares em evidência nos últimos anos, crescentemente capazes e complexas, cuja proposta é trabalhar com a manipulação de átomos - átomo por átomo -. Esta ação culmina com a habilidade para manufaturar mecanismos e materiais sob especificações atomicamente precisas, e para criar nanodispositivos a serem empregados na fabricação de objetos e sistemas mais diversos, entre os quais, estão os de computador.

Com a nanotecnologia, a princípio parece que outras espécies, outros mundos, outras culturas, outras experiências são fortemente apontados diante da hipótese de manipular átomos e colocá-los onde bem se entender, desde que não sejam violadas as leis da natureza, dispondo apenas de conhecimento e tecnologia para tornar esta manipulação uma realidade. Entretanto, não é o que parece estar assegurado quando se pensa no poder das nanotecnologias de rearranjar átomos. É difícil concebê-las sem o poder de alterar e manipular leis básicas da natureza. Mas não se quer aqui discutir as possibilidades existentes ou não de ocorrerem modificações capazes de afetar quem somos, como também a natureza - tanto o ambiente natural em que vivemos quanto a nossa própria -, correndo-se o risco de remeter a discussão a um confuso e obstinado subjetivismo, e da mesma maneira às expectativas da concepção tradicional objetivista das abordagens. As tecnologias de modo geral não têm seguido um rumo determinista estrito, sendo hoje, muito intensivas e dependentes do próprio avanço do conhecimento cientifico. Isto exige “agregar conhecimentos dos fatos humanos vindos de outras disciplinas, muito especialmente da biologia” (Leis, 2003:4) pronunciados num legítimo diálogo interdisciplinar e intercultural, fora dos muros do reducionismo, portanto.

A nanotecnologia, por sua vez, uma idéia extremamente original que vai desde a estrutura molecular até à eletrônica, passa por distintos setores do conhecimento, nada existindo ainda de previsível, o que demanda sem dúvida uma base muito grande e forte de conhecimento. Seja como for, este dilema que se situa a partir das inovações nanotecnológicas merece uma abordagem baseada em outros fundamentos que não são ainda suficientemente claros sobre os homens e a natureza, em toda sua complexidade.

Neste sentido, ressalta-se que jamais sociedade humana alguma experimentou uma condição de mesclas tão radicais, segundo Oliveira(3) (2002):

[...] de hibridações de natureza e artifício, de carne e mente, de intimidade e globalidade, em que os limites que definiam os indivíduos tornam-se cada vez mais ambíguos e imprecisos, mais estendidos em um sentido, mais contraídos em outro.

É inegável, pois, que a acoplagem de máquinas artificiais aos seres, em essência ao ser humano, ocasiona muitas outras tarefas e muitas outras mudanças que impõem limites. Como exemplo desta perspectiva, há o caso ocorrido em um hospital da cidade brasileira de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, entre setembro e outubro de 2003, que foi manchete nos jornais impressos e televisivos. Parte da calota craniana de uma menina de 10 anos, que fora operada para extração de um tumor na parte frontal da cabeça, desapareceu dentro da instituição com suspeitas de ter sido jogada no lixo. A menina teria recebido em cirurgia uma prótese de cimento cirúrgico, numa tentativa de repor parte do osso desaparecido. Como pensar este fato?

Há um desafio gigante pela frente. Esse caso de inserção de uma prótese num ser humano no lugar de um órgão considerado “biologicamente natural”, é apenas um entre tantos a citar. Assim, falar em nanocomputadores, por exemplo, abre caminhos para pensar concretamente em andróides, inteligência e vida verdadeiramente artificiais, mais precisamente em dominação da natureza, numa dimensão nanoscópica, pelo conhecimento molecular, em que o corpo é cada vez mais marcado e mudado pela civilização do excesso tecnológico, como no caso das próteses, os diversos implantes (lentes de contato, marcapassos, implantes dentários, nanotecnologias etc). Um verdadeiro híbrido de organismo, natureza, ciência, tecnologia e sociedade.

Um Estranho Híbrido no Cenário Cultural Contemporâneo: Entre Bits, Bytes e Novas Formas de Sociabilidade Geradas.

Não deixa de ser um fato instigante que se viva um novo tempo em que jovens estejam envolvidos numa disputa acirrada, em defesa do direito de compartilhar, através da rede, de um ambiente de imersão interativa que oferece condições para que expectadores passivos possam se transformar em interagentes ativos e assim produzirem a suas próprias conexões culturais. Os “muitos” indivíduos atomizados, tornando-se conectados culturalmente entre si, formando uma nanotecnologia sociocultural. Trata-se de uma rede inédita já concentrada no desenvolvimento de novos materiais e de alternativas inovadoras, direcionadas para um conhecimento que não mais passa por redes lineares.

Na prática, devido à possibilidade de extinção dos microchips e serem substituídos por nanochips, assim como aconteceu com os transístores no século XX, que substituíram as antigas válvulas(4) pelo fato de quanto menores, mais poderosos são os processadores e menos energia é necessária para operá-los, a revolução informática processada disponibiliza uma capacidade de computação milhões de vezes maior num pacote nanoscópico. Por outro lado, a invenção de formas cifradas da linguagem na dimensão ínfima (como o é a própria criptografia, utilizada para a codificação de uma mensagem para a tornar legível apenas pelo seu verdadeiro destinatário, que pode circular com mais segurança na internet), as comunicações em códigos da cultura tecnológica refinada e a abertura ao ingresso de comunidades virtuais derrubam preconceitos infundados e idéias deturpadas sobre outros lugares, idades, sexo, raças, estilos de vida e credos. Assim, proporcionam uma troca de conhecimento e de informação que cada vez mais constitui uma vasta rede.

Ao mesmo tempo em que se ergue um aparato tecnológico virtual de natureza fria, próprio das tecnologias finas, como as nanotecnologias e as que promovem a conexão entre mensagens bit por bit, as novas comunidades hackers (talvez já o fazem) precisam transmutar-se em possíveis respostas a angústias existenciais que ainda não foram respondidas. Tampouco está ainda claro se os hackers serão submetidos a valores inculcados pelo aparato tecnológico mais avançado ou se suas preferências serão produzidas integralmente por esta influência. Porém, o que parece mais fundamental é que a cultura hacker, que hoje impregna grande parte da sociedade, encontra-se bastante difusa entre as novas gerações, e não só nos campos tecnológicos acadêmicos e industriais, como uma prática que já é, nesse século, muito melhor assimilada do que nos finais do século passado.

A cultura dos hackers -que avançou substancialmente durante os anos 90 e início do ano 2000- e o desenvolvimento das micro, bio e nanotecnologias concederam um maior peso ao desenvolvimento das relações sociais, aos meios de comunicação, à política e à economia. A nova economia, sustentada nas tecnologias digitais, pouco a pouco foi dando margem a outras realidades sociais, em que os hackers são atores que compartilham um desejo irrefreável de ultrapassar “a fronteira entre o corpo físico e a rede” (Lemos, 1999:20). São fascinados pela alta tecnologia, mas com simultânea recusa em utilizá-la de modo convencional, a se tornarem híbridos no ciberespaço, numa mescla de condição humana com componentes da máquina. Já se ouve falar até em Cibernesofia(5) sendo todo o "saber" sobre os modos de inter-relações dos seres humanos e máquinas, assim como os fenômenos que se produzem nesta junção e as causas e conseqüências da cada vez mais recorrente interatividade.

Esta cultura tecnológica, segundo Castells (2002), é herdada da ética dos hackers. Acrescento, contudo, que ela vem sendo de forma progressiva, marcadamente, determinada pela capacidade de manipulação da matéria e da informação em pequena escala, mediante a introdução das nanotecnologias e pelo movimento de internautas que fazem, mesmo sem um propósito intencional, forçadamente as novas tecnologias se tornarem acessíveis a uma parcela maior da humanidade. Neste sentido, é conveniente destacar que o desenvolvimento da internet, a constituição da grande rede de interatividade comunicativa e o manejo da informação são produtos tanto do ambiente cibercultural que o mundo vive, segundo Castells (2000:37), quanto da combinação entre estratégia militar, cooperação científico-tecnológica e inovação contracultural com a atuação dos hackers.

Nesse entorno, fortaleceram-se, de modo especial, internautas com diferentes concepções a respeito do uso da informação digital, entre os quais considero os hackers e também os qualificados como ciber-rebeldes, como grupos com ideais bastante otimistas e arrojados diante de tecnologias avançadas. Eles tiveram também propostas em ocasiões determinadas, que ajudaram a promover avanços no conhecimento da informática, embora manifestando outras perspectivas com respeito à manipulação da informação disponibilizada em redes. Seu alcance principal se encontra na nanotecnologia molecular, ou seja, na capacidade emergente para construir materiais e produtos muito pequenos, com precisão atômica. Assim, já podemos pensar na cultura nanotecno-mediática e na cultura do hacker legitimando uma liberdade que está muito expandida no mundo da internet, em que arrefeceu o heroísmo puramente ideológico devido a maior incidência de condições de acesso ao meio, em escala mundial.

Se a modernidade foi marcada por uma dimensão de ver o mundo além das sociedades anteriores, tal o avanço da Física Quântica e da Biologia Molecular, por exemplo, precisamos agora considerar sobre como é que vamos lidar com escalas que fogem dos nossos padrões sensoriais, tanto em termos de macro como de nano (lembrando que equivale à bilionésima parte do metro). Qualquer tecnologia que se situa fora da extensão de magnitudes com que lidamos em nossa vida diária com as quais nossos órgãos sensoriais são capazes de lidar, nos assombra e apavora! Por que o ‘pequeno demais’ ou o ‘grande demais’ nos apavora tanto? O que na verdade nos apavora? Penso que é o que desconhecemos, quando nos vemos forçados a recondicionar nossa percepção e a mudar nosso sentido de mundo, nossos procedimentos e, sobretudo, o que significa para nós a vida e a morte. Assim está sendo com a bio e a nanotecnologia, campos restritos a alguns cientistas, que dominam as grandezas escalares, mais que qualquer pessoa comum. É preciso que entremos no mundo da miniaturização, estranho ao nosso aparato sensorial e cognitivo, buscando apreender mais desde a totalidade do macrocosmo até a mais ínfima partícula do nanocosmo para agir diante dos problemas que estão desafiando nossa condição humana.

Como está a Condição Humana Face às Emergentes Nanotecnologia, Biotecnologia e Inteligência Artificial?

Certamente, seguindo as idéias de Solís (1994:37), somos levados a pensar nos diferentes paradigmas que sustentam distintos valores e hierarquia entre si, produzindo avaliações e decisões divergentes sobre o desenvolvimento das nanotecnologias sem que se disponha ainda de um marco comum de normas de racionalidade a que se possa apelar. É possível que nos deparemos com as discussões e teses mais radicais, exorbitantes ou mesmo coincidentes, ao se permitir ver uma coisa em analogia a outra e evidenciar que as teorias que as embasam não aspiram a resolver imediatamente nem problemas práticos nem problemas científicos, mas podem apresentam conseqüências relevantes para a concepção de sistemas de informação, para o uso de tais sistemas e para a própria pesquisa científica.

É ainda cedo para que os fatos, as observações e experimentos na nanociência possam pronunciar uma decisão unânime sobre o que fazer com as teorias pertinentes. Entretanto, o que não pode ser feito é abandonar e absolutamente repudiar as considerações avaliativas em favor de uma simples atitude neutra ou sectária, em termos de interesses, “que faz os pesquisadores se entrincheirarem na suas especialidades ou sub-especialidades, compartilhando seus conhecimentos apenas no interior de um círculo próximo e restrito” (Leis, 2002:2). Como bem assinalava Kuhn (2003), o êxito de um cientista se mede pelo reconhecimento que ele tem de outros membros de seu grupo profissional, partilhando seu cotidiano, sua linguagem e mundo científicos, num esforço de coligar as áreas de dificuldade na comunicação científica.

Prescindindo da forma como é interpretada a relação entre os produtos da ciência e da tecnologia, as novas formas de comunicação que advêm com seu caráter amplamente social e urgência de trabalho interdisciplinar, inegavelmente desempenham importantíssimo papel para a compreensão da natureza comunicativa humana. Torna-se mais claro hoje que o saber informatizado e a opção teórica, implícita nos sistemas auxiliados por computadores, por sua vez, complementos fundamentais suscitam grandes questões sobre a natureza do processo de relacionamento social, reativando a chama para que voltemos a reexaminar a implicação das novas ferramentas advindas com as inovações tecnológicas.

Este processo foi por muito tempo -e ainda hoje- influenciado por leituras apressadas e reducionistas, concebendo as coisas existentes definíveis em termos de objetos e fenômenos diretamente observáveis, ou significados simplesmente atribuídos, e, doravante, qualquer enunciação corresponde a algum jogo de enunciações empiricamente verificáveis. Não somente o reducionismo do método e o da atividade da ciência podem-se converter em um obstáculo, mas também, determinadas áreas quando se deparam com novos fatos, que contradizem suas teorias uma vez restritas a um paradigma teórico predominante, dificultando que se passe de um sistema teórico ou epistêmico para outro e que sejam provocadas as rupturas necessárias ou descontinuidade no conhecimento em curso pela existência de limitações no tratamento e descrição de fenômenos mais complexos de modo a abrir passagem para o advento do novo em substituição ao velho paradigma.

Diante desse novo “demolidor”, temos, quem sabe, a pergunta-chave mais crucial dos últimos tempos: estaremos em vias de mudar a nossa natureza humana? Mediante a forma como as pessoas vêm se relacionando com as novas questões éticas e morais e as vinculadas à validade e à extensão dos direitos humanos, e à manipulação da intimidade da matéria, é impossível deixar de reconhecer que tudo isso está afetando o futuro do Homo sapiens, um futuro que já começou a alterar-se, principalmente, com a física quântica, com a intensificação das revoluções genéticas e biomoleculares e agora com as transformações de origem nanotecnológica. Podemos de fato estar entrando em mundos diferentes, ambientes desterritorializados, fora do aqui físico, localizado, o que abala a própria roupagem física da condição humana.

Em consideração ao ainda recente uso das nanotecnologias, desde o início bastante marcadas pelo ceticismo de uns e receios de outros, cabe a conduta de estabelecer a vinculação entre estas tecnologias com a natureza humana, a ética, a legislação, a política e a religião. Especialmente porque estas esferas estão mais libertas da atadura de fundamentos teológicos e porque se inaugura um espaço para discussões sobre novas problemáticas resultantes, complexas e essencialmente interdisciplinares, de uma forma independente da experiência puramente negativa da técnica, e, por outro lado, de uma interpretação apenas positiva.

Hoje, já não estranhamos que nossa era seja denominada Era da Internet. Esse novo eixo tecnológico que opera em tempo real produz verdadeira reviravolta no mundo da comunicação e dos avanços não apenas científicos e tecnológicos, mas, sobretudo, sociais. Não é minha preocupação discutir aqui a acessibilidade à rede, uma vez que os limites e as misérias da humanidade não são de agora. Inegavelmente, muitas sociedades têm sido beneficiadas com novas soluções, assim como os provedores de tecnologias em hardware, software e redes, que presenciam o nascimento de um novo segmento de mercado e de movimentação social. Isso não quer dizer que as portas estejam fechadas inquisitorialmente a outras sociedades, pois têm aumentado a informalidade e a capacidade auto-reguladora de comunicação, e permanecido a partir das origens contraculturais da rede, “a idéia de que muitos contribuem para muitos, mas cada um tem voz própria e espera uma resposta individualizada” (Castells, 2000:381).

Ainda que tudo comece com uma “elite cultural iluminada”, considero que não será por isso que as redes sociais deixarão de ser expandidas e de interagir de forma mais ativa, uma vez que as tecnologias de comunicação e informação, no seu conjunto, aumentaram substancialmente o poder da “conexão coletiva” e vem diminuindo, em conseqüência, a “cultura do eu”. Convém recordarmos aqui da quantidade de antenas parabólicas encontradas em muitas residências, até em locais muito pequenos e de difícil acesso, ou antenas comuns de televisão, além do número elevado de pessoas, a cada instante na rua dos centros mais urbanizados, ou em pequenas cidades interioranas, com seus ouvidos colados ao celular. No passado, muito poucos tinham televisão e telefone, hoje, uma boa maioria dispõe dessas tecnologias e de muitas outras, que já foram um dia privilégio de muito poucos. Hoje, certamente, com o uso intensificado da informática através das redes digitais de telecomunicações, o meio de comunicação passou a ser mais rápido e econômico, ainda que se reconheça que não chegou a todos. Porém, o fato de que voz, dados e imagens sejam enviados diretamente ao cibernauta que, a qualquer momento e em qualquer lugar e pelo tempo que quiser, pode ter acesso à informação, além de poder contar com recursos de melhor qualidade face ao desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação, mostra um evidente avanço em relação a todas as épocas que antecederam a essa em que vivemos.

É por essa razão que um novo olhar ajuda a melhor compreender a natureza específica de tecnologias avançadas e a atuação dos hackers sem que tenhamos que repetir, pelo menos de forma tão contundente e sem originalidade, os equívocos de determinadas interpretações e ataques ao novo. Penso que se aceitarmos e resolvermos estes novos desafios colocados pelas nanotecnologias, estaremos tornando realidade a circunstância de utilizar adequadamente os mais refinados produtos da ciência e da tecnologia para alcançarmos uma compreensão menos rígida, quanto ao tempo e ritmo das transformações na matéria, de forma menos paradoxal. Neste sentido, é importante que as ciências sociais revejam sua posição em relação à distância que mantêm da biologia, física e química, e que se fortaleça, do mesmo modo, uma convergência epistemológica entre as ciências da natureza, ciências sociais e humanas. Esta aproximação torna-se uma necessidade para o incremento e aparecimento de novos objetos de pesquisa e de pesquisas afins, influenciando a obrigatória mudança das ciências de modo que possam transgredir fronteiras, as suas próprias e de outras áreas do conhecimento.

Nanotecnologia, Cultura da Comunidade Virtual e Cultura do Hacker

Com as diversas mudanças ocorridas na modernidade, entre o desenvolvimento tecnológico e as transformações das relações humanas, que podem ser para uns positivas e negativas para outros, dependendo da maior compreensão que o observador ou estudioso tem da questão, é importante conjeturar em que medida inovações radicais como essas estão incidindo sobre nossas realidades e até que ponto as construções virtuais, geradas por meio das tecnologias eletrônicas, efetivamente alteraram contextos, criaram novas identidades ou afinidades de relações, identificações e novas performances. Para Giddens (1997:5): “Quanto mais a tradição perde a sua influência, (...) tanto mais os indivíduos são forçados a negociar escolhas de estilos de vida dentre uma diversidade de opções”. Também Bauman explora esta questão, falando que nossas instituições, nossos quadros de referências e nossos estilos têm mudado muito rapidamente. Para este autor, “enquanto no passado isso se fazia para ser novamente ‘reenraizado’, agora as coisas todas – empregos, relacionamentos, know-hows etc. – tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas, flexíveis” (2003:6).

No caso de êxito das transformações sociais implícitas, quando falamos de espaços virtuais e interativos, cabem questionamentos provocativos: Será que se restaurou de fato o sentido de comunidade (na noção de pertencimento, de permanência em algo, de identificação e afinidade), ou o aparecimento dessa comunidade é mais um símbolo do distanciamento pessoal, social e cultural das pessoas, ou representa uma expressão da autoridade, do controle ou medo a respeito do outro? Em que medida o ciberespaço e suas comunidades virtuais, baseados em nanotecnologias, nos ajudam a pensar no caráter revolucionário da tecnologia com respeito à sociedade, e, também, sobre o peso das inovações sociais, tecnológicas, políticas e econômicas em nossa vida cotidiana? Pode-se também supor que essa nova "comunidade virtual" é uma comunidade alternativa, tal como as surgidas nos anos 1960, 1970 e 1980, porém com espaço de atuação (real e simbólico) justamente oposto, fundamentado na tecnologia, mas com objetivos semelhantes. O que demonstra ser o conceito de comunidade um conceito social muito dinâmico e em constante transformação, embora nos pareça que a própria exemplificação de tal conceito de comunidade se torna mais complexa e difícil nos dias de hoje.

Essas e outras tantas dúvidas e hesitações vêm a propósito por serem especialmente poderosas quando há pouca informação e muita especulação, fantasia e reducionismo em torno de inovações tecnológicas. Pode-se até pensar em opções das mais disparatadas, mas uma proposta que sustento é que se faz necessário intentar e persistir numa aproximação entre as ciências, já que os recentes estudos sobre comunidades virtuais são geralmente realizados dentro da área da comunicação ou de algumas ciências, isoladamente, e não em seu conjunto. Comunicação, sociologia, psicologia, antropologia, história e filosofia, entre outras, deveriam se concentrar com mais coesão e afinidade no estudo da transformação dos aspectos modo como estão se constituindo no que se refere ao reconhecimento do novo, as formas de relacionamento, as afinidades e identificações identitárias, embora se saiba que o tempo de resposta tem de ser respeitado para que não entremos num engodo demagógico.

Se os grupos formados a partir da internet estão sendo cada vez mais considerados como “comunidades”, como “coletivos inteligentes”, referência feita por Lévy (1998), o comportamento dos indivíduos e dos grupos deve ser afetado de alguma maneira por esta formação "virtual". Porém é difícil ainda responder se esses grupos que correspondem a uma nova forma de relação social "virtual", em construção, representam o símbolo do acesso mais fácil à alta tecnologia, bem como os anseios renovados em nossa época de assegurar uma identidade própria ou identificações solidárias. Ou se eles representam ainda os anseios de uma forma de segurança mais sofisticada, característica que parece estar mais escassa no mundo real que no virtual. É também difícil saber ainda se os grupos virtualmente formados, apresentam um maior grau de satisfação, de confiança ou pelo menos de segurança nas afinidades das relações, ou se podem correr o risco de caminhar em direção à ascensão de um fundamentalismo ou separatismo étnico, comuns em tempos de incerteza.

A internet, certamente, vem se difundindo mais depressa nos meios que a utilizam. Mas, para Castells (2002), uma técnica se torna instrumento importante de práticas sociais somente quando a sociedade em seu conjunto tem necessidade dela para avançar. O sociólogo espanhol considera que a internet tem sido muito útil, pois através dela os atores da sociedade civil criam uma sensibilidade que indiretamente influencia as instituições políticas e fazem com que esse meio hoje se transforme em uma esfera política que não havia antes. Habermas (1993) colocou a necessidade da destruição das restrições da comunicação para que fosse alcançada a eficácia no seio da comunicação dos cidadãos a partir da conexão dos interesses sociais, ultrapassando os obstáculos burocráticos, fazendo, assim, avançar os processos sociais. É necessário, segundo evidencia Habermas (1993:125), não deixar romper o nexo da comunicação, mesmo quando as informações de um especialista para outro devem tomar o caminho largo que passa pela linguagem coloquial e pela compreensão quotidiana do leigo.

Nesse processo, que se especifica como “virtualização da cultura” (Lemos, 1999:12), considerando que a internet não difere em supremacia das outras grandes tecnologias da história, vale lembrar Castells (2002) ao dizer que a internet é um fenômeno econômico, social e político, mas não necessariamente uma tecnologia que traz uma solução global para os problemas da humanidade e tampouco é um sistema que cria desigualdades sociais. Tal questão é instigante e remete ao que escreve Lemos (1999:12), quando aborda o poder com que a tecnologia virtual afetou a sociedade no fim do século XX:

“A tecnologia, pensada como destruidora de toda e qualquer singularidade, transforma-se no seu oposto: ela potencializa singularidades ordinárias (Scheer). Agora, é na troca ordinária de informações entre pessoas ordinárias que essa estrutura a civilização da comunicação (comunhão, agregação). É essa frivolidade ordinária que constitui, de forma indiscutível, a singularidade contemporânea”.

Segundo Lévy (1998), a virtualização é um processo comum na nossa civilização, e o ciberespaço, constitui-se, antes de tudo, em um novo palco para as relações humanas. Estas constatações permitem reconhecer que foi a partir da internet, sobretudo, por sua dinâmica e crescimento exponencial, que se constituíram e proliferaram comunidades virtuais que foram adquirindo seus contornos próprios. Entre tais comunidades, assinala-se a comunidade de hackers, origem essencial de inovações na era da informação, nada de extraordinariamente alienígeno. Os hackers são pessoas com conhecimentos técnicos informáticos, os quais classifico não como meros atores da subcultura formada no e em torno do “aparente mundo ficcional do ciberespaço”, mas providos de uma capacidade criadora para inventar programas e desenvolver formas novas de processamento de informação e comunicação eletrônica, às vezes por hobby, vinculada mais especificamente aos cientistas de computador e hackers de sistemas. A sociedade se viu forçada a fazer frente à natureza intangível do ciberespaço como um território privado, como uma expansão da realidade.

No novo contexto, pouco indulgente e forte, da "Sociedade da Informação" dos anos 1990, o "hackeamento” foi posto em interdito assumindo demasiada importância a tal ponto que foi deixado aos hackers. Em razão disso, os indivíduos e os grupos não mais se depararam com saberes estáveis e com classificações cristalizadas de conhecimentos arraigados e herdados pela tradição, mas com um saber-fluxo caótico, cujo curso ficou difícil de prever e o desafio crucial resultante foi o de aprender a tornar-se um cibernauta cada vez mais sintonizado com um espaço ciberurbano, sem fronteiras.

Pode-se situar os hackers em várias categorias, uma vez que criam as suas próprias normas, seus discursos específicos e suas formas de organização e de hierarquização simbólica. De modo geral, consultando literatura especializada sobre hackers e na internet, encontram-se denominações bastante diversificadas, tanto para os popularmente conhecidos como ciber-rebeldes, os cibernautas do “mal”, como para os inteligentes, intensos, abstratos e intelectualmente abertos “feras da informática”, os hackers, descritos como internautas do “bem”.

Começa-se pelo “hacker” situado no topo, o mais alto nível de uma crescente e intrincada rede de distinções, que é na verdade o internauta expert “do bem”. Segue-se a este o “cracker”, o “phreaker”, o “wracker” e o “script kiddie”, considerados experts “do mal”. Estes são denominados, dentro do fechado e ainda pequeno grupo dos verdadeiros gênios dos computadores, como subgrupos principais. O hacker, por sua vez, difere do “guru”, que já sabe tudo e que representa o supra-sumo dos hackers, enquanto aqueles que não entram necessariamente em sistemas, nem buscam informação que não lhes é divulgada e que têm uma conduta ética. Existe ainda na largada do complexo percurso, o “larva” que já está quase se tornando um hacker, pois consegue desenvolver suas próprias técnicas de invadir sistemas. Depois, quase na base de toda a aprendizagem, estão os considerados principiantes lammers”, “wannabes” ou “arackers”, "odonto-hackers”, “pseudo-hackers” etc. Eles representam identidades, além de outras como os “cypherpunks", "ravers" e "zippies”, todas caracterizando novas formas de sociabilidade na internet, no ciberespaço.

Apesar do termo hacker ser normalmente utilizado para qualquer invasor de computadores, pode-se observar que existem várias categorias de hacker na sua conotação negativa, formando uma taxonomia simplificada e que ilustra o que se constitui, para muitos usuários do sistema, nas diferentes ameaças existentes na internet. Falo, também, do “hacker técnico”, do “hacker vândalo” e do “hacker criminoso”(6), que me parece uma denominação infeliz para os vândalos, com um conhecimento moderado de informática, que causam a grande maioria dos incidentes de segurança na internet "pichando" ou indisponibilizando sites, e têm valores éticos distorcidos

Esses e tantos outros indivíduos distintos não indicados aqui, alguns ainda não categorizados, quando se concentram num mesmo locus e com interesses comuns constituem-se em comunidades com possibilidade de relações sociais, cuja expressão cultural se formou a partir de ambientes modelados pela ciência e a tecnologia, por que não dizer, da nanotecnologia. Turkle (1984) pôde constatar que o discurso com o qual o hacker descreve a si mesmo é derivado de noções, às vezes bastante sofisticadas, de programas de inteligência artificial.

Ao dizer que manifestantes rebeldes surgem sempre que uma nova tecnologia aparece, divirjo de Lemos (1997) quando evoca uma aproximação entre os ludistas(7) da primeira Revolução Industrial e os hackers ciber-rebeldes. Embora compactue com o autor que ambos diferem, porque os hackers vêem a tecnologia como aliada, enquanto os neo-ludistas a viam como algo a ser combatido, considero que os hackers são figuras de tempos mais recentes, muito mais desejosos de inclusão social e conhecimento do que combater a exclusão social e fazer recuar as inovações, como parece ter sido a bandeira dos ludistas.

Assim, penso que os grupos, mesmo os considerados membros da contracultura, são constituídos pelo desejo de dominar campos novos do conhecimento e com base nos princípios de liberdade, igualdade de direitos, inclusão social e diversidade cultural, que têm sido defendidos em diferentes momentos históricos, correspondendo aos ideais de diversos movimentos revolucionários e reivindicatórios de outras épocas. Neste sentido, não resta dúvida que pensar em hackers é lembrar manifestações contrárias à cultura dominante, o que não significa necessariamente uma volta à barbárie, um repúdio cultural ou uma forma de subcultura. Ao contrário, o que parecem expressar é uma oposição aos padrões da cultura ocidental estabelecida, concebida como radicalmente à parte de todas as culturas. Eles apresentam uma opção que contrasta com os modelos tradicionais conservadores deste “modelo-padrão” - relação homem-natureza, pensados nos cânones da modernidade ocidental, em torno de Deus (o poder de imputar um sentido ao mundo é retirado de Deus e passado às mãos do homem), num terreno cheio de incertezas e apostas e com temor a riscos que nem se sabe quais, no rumo do que vai se construindo dentro da própria modernidade, aturdindo o homem moderno.

Essa oposição parece ter sido somente possível com o domínio micro e nano de processamentos da matéria e da informação, reafirmando o que é dito por Latour (2000:70): “A temporalidade moderna nada tem de judáico-cristã e, felizmente, nada tem de durável também”. Uma vez implantadas as nanotecnologias, elas passam a ocupar um espaço físico e social que oportuniza aos indivíduos a manipulação de uma estrutura rizomática “qualidade por qualidade” (Lévy: 2001:58) ou ainda “ponto por ponto”, sem que nada seja perdido. Trata-se de uma esfera que contrasta com o grupo de pessoas eivadas de individualismo. Nela se valoriza o coletivo na sua versão da alta modernidade, se valoriza o humano em sua diversidade e é proporcionada aos indivíduos e grupos a capacidade de comunicar-se e de agir reciprocamente, fazendo “coisas diferentes em entornos distintos” (Piscitelli, 2002:63), realidade inaugurada com tecnologias muito avançadas e que propõem recursos infinitos no futuro. Piscitelli (2002:103) comenta que, antes do advento do paradigma digital, saber quem éramos dependia de saber onde estávamos localizados. Para o autor:

El ser y el estar –al punto que esta disociación es inexistente en idiomas como el inglés – iban inextricablemente unidos. Al romperse este dique de contención físico y espacial, la carga de la prueba que establecía que ‘soy donde estoy’se invirtió. Al desenclavar la identidad de amarres físicos localizables en el espacio y ante la posibilidad de convertirnos en una persona o cosa a voluntad – como enseña el dogma básico de las realidades virtuales- nuestra identidad se difumina, multiplica, fragmenta y pluraliza.

Em seu livro A Vida no Ecrã (1997), Turkle aborda as experiências de imersão de pessoas em mundos virtuais, onde é possibilitado o desenvolvimento de diferentes "personas" vividas, simultaneamente, pelo mesmo internauta, com uma recíproca indagação a respeito da identidade individual, e a redução da distância entre realidade interativa e virtual e a vida real. Júnior (2001) vê uma modalidade interativa semelhante a que se imagina no mundo molecular, “intuitiva (conta com o inesperado), multidissensorial (interações de várias habilidades sensoriais), conexial (perfazendo roteiros originais e criando uma rede de relações), descentrada (coexistem muitos centros) e com participação por experimentação, bidirecional e de co-autoria. Nesta modalidade interativa, as pessoas são capazes de realizar tarefas até agora inimagináveis, atingindo um número incontável de cibernautas.

O conceito da existência simultânea de um 'eu' coletivo e, ao mesmo tempo, múltiplo em diferentes comunidades como diferentes personae, é extensamente abordado por Turkle (1997). A autora observa que o ciberespaço possibilita a construção e reconstrução de diferentes personalidades graças à possibilidade dos cibernautas se apresentarem simultaneamente com diferentes identidades virtuais, cada uma potencialmente capaz de gerar informações e lidar com aquelas de natureza diversa. Esta interação se dá com diferentes vozes, diferentes gêneros, diferentes idades e personalidades, diferentes registros, o que se traduz como conseqüência direta e em especial dos computadores em redes. É precisamente esta capacidade ilimitada vivenciada em navegações no ciberespaço, controlando mensagens bit por bit, que confere significado às diversas comunidades virtuais emergentes que proporcionam, como diz Lemos (1999:21):

(...) emoções coletivas identificadoras, não com o indivíduo preso em uma sociedade fechada, mas com “personas” de diversas máscaras (...) estando em jogo a criação de uma ‘obra de arte coletiva’.

As novas dimensões comunicativas não só mudam a nossa percepção de espaço e tempo, mas também, por suas características, influenciam os relacionamentos interpessoais e as tradicionais noções de identidade. Tem-se o exemplo do E-mail, o IRC os MUD’s e os MOO’s(8) como formas novas nascidas na internet que permitem criar e desenvolver relacionamentos no âmbito que se pode designar de realidade social no ciberespaço. Elas alteram a forma de projetar nossas idéias, desejos, fantasias e a própria noção de máquina, na medida em que nos sentimos cada vez mais ligados e dependentes delas. Para Lemos (1999:17), trata-se muito mais de afinidade do que de identidade, ou seja, de uma “lógica de identificação” que se constitui a partir de uma afinidade, longe da lógica da apropriação de uma (e única) identidade. Tal como o cyborg, na visão deste mesmo autor, é uma realidade possibilitada pela engenharia genética e as nanotecnologias, vejo-me tentada a indagar: Até que ponto já somos apenas híbridos ou um outro originalmente “outro”, passando por um autêntico processo de “reestruturação, de obsolescência e virtualização”?

As considerações sobre a construção cada vez mais veloz de um imenso “laboratório social significativo” (Turkle, 1995:265), não envolve somente os brilhantes hackers, os criadores de softwares, de videogames, os programadores, os designers, os websurfers etc, mas, principalmente essa garotada, que joga no computador desde muito cedo, sobretudo os rotulados “meninos de rua” que também jogam nos fliperamas de igual para igual como joga outro menino qualquer, mesmo que seja o mais recente jogo que tenha acabado de chegar. Esta inclusão sugere alguns questionamentos feitos por Turkle (1995:266): Como é que se processa a comunicação entre esses meninos e a máquina? O que os leva a fazer isto? “Será um passatempo fútil, uma monumental perda de tempo?” Estaremos assistindo “(...) à emergência de um novo estilo de pensamento, de natureza múltipla, acerca da mente?” Mais que receio e recusas frente ao novo, vislumbra-se uma chama ainda tênue de esperança diante da possibilidade de que se desfaçam as “identidades rígidas” (Lemos, 1999:22), moldadas por um ocidentalismo religioso que instaurou o ideal de eternidade, neutralizou as diferenças e destinou solidez às identidades, fragilizando-as de modo significativo. A quebra na rigidez de identidades é explicada por Bauman (2003:5):

Diferentemente da sociedade moderna anterior [...], que também estava sempre a desmontar a realidade herdada, a de agora não o faz com uma perspectiva de longa duração, com a intenção de torná-la melhor e novamente sólida. Tudo está agora sempre a ser permanentemente desmontado, mas sem perspectiva de nenhuma permanência. Tudo é temporário.

Dentre os conflitos relacionais vividos hoje, tanto no que se refere a incertezas, a contradições de idéias, à aparente inexistência de laços de solidariedade, à retirada para “nichos subterrâneos” e à insegurança relevante de indivíduos, as antigas formas de comportamento e relacionamento humano estão mostrando que não funcionam mais e até estão ameaçados por novas formas de comportamento e relacionamento, que superam os antigos valores. O que é moral e imoral prende-se por um tênue fio em termos de definição. Aí desponta a nanotecnologia com promessas não só de avanços, de lucros, de prolongamento da vida, de diminuição dos riscos à saúde e ao meio ambiente, de progressos ecológicos na utilização dos transgênicos etc, mas, sobretudo, de segurança. Assim, já se fala não mais apenas em biosegurança, mas em nanosegurança, no que diz respeito aos alimentos, ao ambiente, à saúde, à vida, enfim.

Conclusões

O estudo que informa o debate contemporâneo sobre o que se pode analisar nos contextos criados pelas novas comunidades virtuais é fundamental para a análise de diferentes configurações sociais e de situações de relações de sociabilidade no ciberespaço, ainda não muito claras. A tecitura destes contextos consiste em ações muito finas, nanotecnológicas, pois operam com o conceito de cultura de rede altamente informatizada e com um complexo de planos e situações interativos, matizados por relações intersubjetivas estabelecidas.

As relações no ciberespaço são humanas, e este espaço tem uma dimensão de especial relevância à luz do pensamento mais atual, se consideramos que as ciências sociais e humanas, muito mais que a biologia, se debatem hoje com problemas sociais de enorme complexidade. Ao mesmo tempo, enquanto parece haver uma automação cultural provocada pela tecnologia e pelo fácil acesso às informações, o indivíduo parece procurar o oposto disso em suas relações interpessoais, isto é, a aproximação, a afinidade, o pertencimento, o sentimento de comunidade, fugindo ao determinismo das relações hierárquicas. Torna-se mais patente que os grandes avanços tecnológicos são feitos pelo homem e não dádivas de Deus (Thurow, 1999). Também Lévy (1998) defende a idéia de que as novas tecnologias são responsáveis pelas alterações nas estratégias de adquirir conhecimento, nas formas de representá-lo e transmitir estas representações através da linguagem, situando o projeto da inteligência coletiva em uma perspectiva antropológica de longa duração. Para o autor, “inteligência coletiva é condição humana”, o que a faz ligada intrinsecamente à inteligência individual.

Algumas questões apresentadas aqui poderão ser estudadas à luz do trabalho de pesquisadores no campo da comunicação e da sociabilidade, que fazem incursões sobre o impacto das mudanças tecnológicas nas comunidades contemporâneas, como a formação das tribos urbanas e as próprias comunidades virtuais. Ainda que sejam vários os aspectos positivos que a nanotecnologia pode apresentar, cresce o debate sobre o que esta inovação representa para o futuro das pessoas, da sociedade e da natureza. A técnica e a ciência têm proporcionado uma potência ao ser humano até um tempo atrás pouco considerada, cujos fenômenos derivados não são mais peculiares apenas à maneira de estar no mundo ocidental. Essa é uma questão epistemológica importante a considerar, uma vez que é preciso pensar a simultaneidade do local e do global que as tecnologias mais recentes estão propiciando.

Quanto à nanotecnologia, acompanhada de sua própria evolução e do próprio contexto em que se desenvolve, ela deve ser sempre considerada na relação homem-natureza-sociedade-universo. Isto é, estar necessariamente integrada no seu próprio tempo, relacionada ao contexto histórico, econômico, político e social em que se realiza, como prática social de natureza cultural e altamente formativa. Não há dúvida em reconhecer que um dos princípios que mais caracteriza a nanotecnologia, subjacente à sua realização, é o desprendimento da determinação do tempo e do espaço para que ela aconteça. Os meios disponíveis ao favorecimento da pesquisa nanotecnológica instigam a criação de tempo e espaço pelos envolvidos neste trabalho, mas não que ambos sejam os determinantes das condições de desenvolvimento deste processo. Já vem de longe a tentativa do homem em trabalhar melhor o tempo e versatilizar as circunstâncias espaciais, pois existem muitos acontecimentos ilustrativos desta realidade na história da engenhosidade humana.

O desenvolvimento das inovações tecnológicas pode estar mais estreitamente relacionado a questões políticas, sociais e econômicas do que aos argumentos científicos, como a muitos parece, mas estas inovações podem tomar o caminho resultante, primordialmente, do uso particular que fizermos delas. As nanotecnologias podem ser trabalhadas como novas possibilidades de ação dos indivíduos em seu mundo. Esta constatação também aponta para a necessidade de maior espaço de discussão interdisciplinar sobre os conhecimentos emergentes, do exercício da ética e maior consciência para sermos capazes de integrar as nanotecnologias. Ou se prevalecer o contrário, a questão é se evitaremos enrijecer o avanço destas tecnologias atrelando-as a normas tradicionais, já obsoletas e ineficazes.

O que está por vir em nanotecnologia será resultado de grandes mudanças que precisam acontecer agora. Vejo, assim, a imprescindível contribuição dos setores estratégicos a favorecer as condições para que os avanços recentes nas chamadas tecnologias da comunicação e informação, responsáveis por uma verdadeira revolução nos costumes e processos econômicos, possam ser notadamente e maciçamente introduzidos. Esta contribuição estaria assim, antevendo a emergência de formas novas e extremamente plásticas de produção do conhecimento e acompanhamento de seu fluxo, em direção aos novos cenários, atividades e conceitos deste novo milênio.

Vislumbro as nanotecnologias em sua integração com os hackers como uma iniciativa mediadora nesse processo, tendo à frente grandes preocupações, tais como, o planejamento, a implementação e disponibilização de ambientes e cenários de suporte à aprendizagem conceitual, à pesquisa e disseminação do conhecimento e da informação. Assim integrada, passaria a explorar todo o potencial educativo dos recursos das tecnologias de redes, de engenharia, de softwares, da didática, da ergonomia, da psicologia, e tantas outras áreas, amplificando competências e transformando papéis. Todas as questões, dentre muitas outras que devem surgir, levam a uma abordagem mais profunda dos relacionamentos humanos dos tempos atuais, assunto estudado por muitos autores e que aqui contribui também para melhor situar o processo de formação e compreensão das comunidades virtuais hackers e do advento de tecnologias ultra-avançadas.

Concluindo este ensaio, registro que existe uma notável escassez atual de literatura específica sobre o assunto tratado, em contraste com a quantidade de dúvidas e questões suscitadas pela complexidade do mesmo. Tudo leva a crer que estamos num incipiente momento de uma mudança sem precedentes na história da civilização e sem claras perspectivas. Esta realidade, no entanto, desperta e impulsiona um maior empenho e entusiasmo pela pesquisa, ainda mais necessária e mais ampla considerado este quadro tão restrito de referências.

Referências

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Notas:

(1) a autora:

*Doutoranda do Programa de Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas (DICH) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da linha de pesquisa: Condição Humana na Modernidade na área de Globalização, Técnica e Trabalho.

(2) Manifesto Hacker - Feito por Mentor, hacker americano e criador de RPGs, da velha guarda. Transcrito por AkFare, integrante do grupo Pirates of NetWork.

(3)É importante ler a entrevista feita pela Revista Eletrônica ComCiência a Luiz Alberto Oliveira, com o título de “Nanotecnologia assemelha homens e máquinas”, realizada em 2002 e disponível no endereço http://www.comciencia.br/entrevistas/nanotecnologia/oliveira.htm.

(4) Os transístores são muito menores, mais baratos, mais duráveis e muito mais rápido que uma válvula. As válvulas, por sua vez, já eram bem mais rápidas que os relês, que surgiram no final do século XIX. Os relês são dispositivos eletromecânicos muito usados no sistema telefônico e por algumas centrais analógicas ainda hoje, podendo ser considerados uma espécie de antepassados dos transístores, mas apresentam como limitações custo relativamente alto, são grandes demais e ao mesmo tempo muito lentos. Já quanto às válvulas, para se construir um computador usavam-se milhares delas, o que era extremamente complicado e caro. Vale lembrar que o computador mais famoso entre os primeiros construídos durante a década de 40, foi o Electronic Numerical Integrator Analyzer and Computer (ENIAC), em 1945. O ENIAC era composto por cerca de 17,468 válvulas, ocupando um espaço imenso. O tamanho que tinha e o poder de processamento do ENIAC são considerados irrisórios para os padrões atuais.

(5) Cibernesofia corresponde à junção dos radicais "Kyberne", advindo do grego: kybernetiké, que significa arte de governar (a cibernética atual, o estudo dos mecanismos de comunicação, interação e controle das máquinas) e "sophia", que significa saber.

(6) Hacker técnico é considerado o responsável pelo desenvolvimento dos programas de ataque e invasão. Normalmente são adultos que trabalham ou já trabalharam com informática. Os hackers vândalos normalmente são considerados adolescentes rebeldes, com um conhecimento moderado de informática, que se divertem "pichando" ou indisponibilizando sites, aproveitando-se da dificuldade da lei em puni-lo, e de fragilidades que encontram na segurança internet, em muitos sites. O hacker criminoso efetua as suas invasões/ataques com objetivos financeiros, sendo normalmente adultos, com um perfil criminoso (no mínimo estelionatário). Seus conhecimentos de técnicas hacker vão de bom a ótimo, sendo que alguns são capazes de desenvolver suas próprias ferramentas de invasão.

(7) Os ludistas ingleses formaram um movimento surgido no séc. XIX, que lutava bravamente contra as máquinas modernizadas, chegando mesmo a invadir fábricas e a destruir propriedades mediante às quais estava se redesenhando uma nova sociedade em todos os seus aspectos; suas críticas radicais à civilização e atos de destruição levaram o parlamento da Inglaterra, berço da Revolução Industrial, a baixar uma lei decretando a morte de todo aquele que destruísse uma máquina.

(8) O MUD, de Multiple-User Dimension, são domínios multiusuários. Originalmente conhecido como Multi- User Dungeons, um MUD é um ambiente virtual baseado em texto no qual os personagens dos usuários interagem em tempo real. O MUD é uma transposição dos jogos de RPG (Role Playing Game) para as redes. Já os MOO's são uma contração de MUD, Object Oriented, podendo ser descritos como uma realidade virtual multiusuário baseada em texto, cuja primeira versão foi desenvolvida em 1990 por Stephen White da Universidade de Waterloo.