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Nanotecnologia e a Criação de Novos Espaços e Novas
Identidades
Marise Borba Da Silva*(1)
Este é nosso mundo agora... O mundo de elétrons e
botões, da mudança, a beleza da transmissão. Nós
fazemos uso de um serviço que deveria ser barato, e vocês
nos chamam de criminosos.
Nós exploramos... e vocês nos chamam de criminosos.
Nós vamos atrás do conhecimento e vocês nos chamam
de criminosos.
Nós existimos sem cor, sem nacionalidade, sem religião...
e vocês no chamam de criminosos.
Vocês constroem bombas atômicas, vocês fazem guerras,
vocês matam, trapaceiam e mentem para nós, e tentam nos fazer
crer que é para nosso bem, "é...", nós
é que somos os criminosos(2).
Resumo:
Este artigo representa um esforço inicial de discutir a relação
existente entre a nanotecnologia e o mundo cifrado do hacker, que nela
se sustenta. Destaca ainda os resultados de uma análise sobre distintos
estudos e idéias que contribuem para dar fundamento à abordagem
de uma nova forma tecnológica, já presente em diversos campos,
que vão desde a informática, à biotecnologia e à
indústria dos materiais. A nanotecnologia. tem sido considerada
uma ferramenta que poderá solucionar muitos problemas hoje existentes
e que requerem o uso de tecnologias inovadoras. O trabalho discute também
os desdobramentos tecnológicos, no âmbito dos estudos que
avançam sobre cibercultura e contracultura digital, e a implicação
da ferramenta nanotecnológica na constituição de
novas realidades, onde se reconhecem novas dimensões sociais e
a construção de novas identidades.
Palavras-Chave: nanotecnologia, hacker, internet, cibercultura,
contracultura,.
Introdução
Como nas obras de ficção, todo o imaginário da cibercultura
foi inicialmente alimentado pela ação legendária
dos hackers, associados comumente à subcultura ou à
contracultura, refletindo um dos acontecimentos mais polêmicos na
recente história das inovações tecnológicas:
O desenvolvimento da nanotecnologia. Além de tratar-se de uma inovação
tecnológica que requerer uma grande capacidade científica
para seu desenvolvimento, as questões que surgem simultaneamente
são muitas, o que dificulta qualquer tentativa de abarcá-las
em seu conjunto. Mas é possível refletir sobre o que resultou
do afinamento e exercício da cibercultura juntamente com as ações
ultrafinas da nanotecnologia que apontam novos caminhos a serem seguidos,
sem fazer especulações, pois nada seria relevante se não
resultasse em algo de novo. No entanto, tudo parece pressupor que só
há mudança, a exemplo do surgimento de novos grupos em meio
a essa transformação, ainda em curso, para a sociedade contemporânea.
Essa nova socialização traz uma nova forma de cultura, a
cibercultura, com maneiras diferentes de ação e expressão,
de comunicação e importante uso de ferramentas na ampliação
das relações interpessoais em todo mundo, além de
dilemas e problematizações gerados nesse entorno.
Neste ensaio, também se espera ir mais além do que comumente
é reafirmado sobre a diferença entre cultura e cibercultura,
que estaria na condição de poder optar pelo offline
ou pelo online, e de ver a realidade virtual compreendida apenas
como uma técnica muito avançada de interface, na qual o
usuário da máquina torna-se participante e sua contribuição
é fundamental para a própria existência da cibercultura.
É necessário enfatizar que o acesso à informação,
e através dela ao conhecimento, proporcionou em maior medida uma
divisão e estratificação pelo uso de novos territórios,
uma desterritorialização na verdade, segundo
Lévy (1998), sobretudo, com a construção de novas
identidades. Por isso, as novas tecnologias, em especial, as nanotecnologias,
por sua natureza molecular, próxima da capacidade de construir
materiais e produtos com precisão atômica, ao configurarem
um novo espaço e revolucionarem as noções, tempo,
alteridade e comunidade, desenharam também objetivos, potência
e usuários diferentes. Abriram, assim, caminho para a cultura hacker
por oferecem uma grande superfície de contacto e comunicação,
particularmente, devido a experiências e conhecimentos que os hackers
puderam desenvolver seguindo os princípios da comunidade de software
livre capazes de ser estendidos e aplicados, inicialmente, a projetos
sociais transdisciplinares, à sua identificação tanto
com as tecnologias numéricas como com a espetacularidade dos equipamentos
e instalações que requerem e aos seus resultados visuais,
tornando-se fundamental na sustentação da revolução
digital.
Nesse contexto, aqui não se pretende fortalecer a idéia
de contracultura como a popularização da atitude dos hackers,
que têm no hacking sua grande distinção.
Lembro que atos de hacking podem ir desde travessuras relativamente simples
e inofensivas ou que tenham sérias conseqüências econômicas,
a ações extremamente finas, mais pequenas e bem mais delicadas.
Considero que desse modo, torna-se mais fácil aclarar tanto rumor,
especulação, suspense e encantamento que existem em torno
da relação da tecnologia-hacker e das implicações
nanotecnológicas, que sopram sem muito fundamento,
pois tanto a nanotecnologia como a constituição identitária
do hacker são fenômenos ainda muito novos. Ainda é
muito cedo para emitir certezas como verdades absolutas a respeito disso.
Com esse entendimento e pelas razões expostas, para fundamentar
este estudo serão importantes as contribuições de
alguns autores a quem recorro, porque lançam luz sobre muitas questões
a respeito do que veio a denominar-se sociedade da informação.
Além disso, eles tomaram para si a relação homem-técnica
como preocupação central e fazem o reconhecimento do inegável
valor da inovação tecnológica informática,
que necessita, sobretudo, de liberdade para desenvolver-se e alicerçar
a cibercultura como forma peculiar de relação entre
a sociabilidade e as tecnologias (Lemos,1999:12).
A cibercultura se vincula, principalmente, às transformações
econômicas e sociais derivadas das novas tecnologias relacionadas,
especialmente, às áreas inteligência artificial
(computação e ciências da informação),
biotecnologia e, mais recentemente, nanotecnologia,
marcando um estilo de vida que resultou da simbiose entre os
homens e as novas tecnologias (Lemos, 1999:15) e do aparecimento
da internet. É inegável que a invenção da
internet contribuiu de forma inédita para combinar o corpo humano
com a máquina. Entretanto, por mais sofisticada que ela seja, não
se trata somente de uma nova tecnologia e espetacular, a mais importante
de outras tantas já conhecidas, porque já se tem ciência
de que os novos meios de comunicação eletrônica que
hoje temos não divergem radicalmente das culturas tradicionais:
absorvem-nas (Castells, 2000).
No meu modo de ver, a internet passou a ocupar um lugar especial pelo
fato de ter-se tornado um meio que mudou e está mudando a sociedade,
dadas as possibilidades inimagináveis de opções que
o ciberespaço oferece. Trata-se de um medium capaz de gerar
mundos de comunicação compartilhados e promover muito mais
integração cultural e reinscrição colaborativa
ao introduzir novas maneiras de produzir, criar, ousar e de relacionar-se,
que parecem nos encaminhar efetivamente até uma nova era. Para
Piscitelli (2000:86), as realidades virtuais propõem uma mudança
paradigmática em nossas noções de mundo, experiência,
causalidade, comunicação, interação homem-máquina,
entre outras. Esta mudança é tão poderosa e estremecedora
como a nanotecnologia, devido a sua enorme capacidade de transformação
e potenciais conseqüências, que num e noutro caso tanto podem
ser benéficas como prejudicais.
A Nova Fronteira Nanoeletrônica e o Surgimento Dos Hackers
"A Humanidade olha para mim como um magnífico começo
mas não a palavra final."
Freeman Dyson (1994)
Para iniciar esta abordagem, recorro a Lemos (1999:16), quando retoma
o trabalho de Haraway (2000) fazendo referência ao surgimento do
cyborg em meio à cultura contemporânea. O autor implicitamente
reconhece as mudanças ocasionadas pela miniaturização
e transformação do mundo de forma radical com a introdução
do eletrônico digital, da biogenética e das nanotecnologias.
Embora esteja tratando da relação entre o natural e o artificial,
entre natureza e cultura, e da aproximação entre o corpo
físico natural e as máquinas tecnológicas, são
questões que envolvem mudanças não compreendidas
ainda, na sua plenitude, no campo das ciências sociais e humanas.
A definição da nanotecnologia reveste-se de uma horizontalidade
tal que possibilita sua aplicação a todos os setores de
atividade. Considerando as raízes lingüísticas da palavra
nanotecnologia, esta deriva do prefixo nano, sendo uma medida de
grandeza usada na ciência para designar um bilionésimo. Assim,
um nanômetro (símbolo nm) é relativo à
escala nanométrica. Imaginemos um milímetro
que já é por demais pequeno, mas podemos enxergá-lo
até numa régua. Porém, enquanto um micrômetro
corresponde a um milionésimo do metro e a um milésimo do
milímetro, um nanômetro equivale à bilionésima
parte de um metro, ou seja, a um milionésimo de milímetro
ou ainda a um milésimo de mícron.
O mundo na dimensão nano, portanto, não é
algo naturalmente por todos assimilado, sendo possível afirmar
com segurança que sobre estas tecnologias tão pequenas,
ínfimas, praticamente o mundo sabe muito pouco. Elas não
são construídas na escala comum em que estamos acostumados
a perceber o mundo, segundo a qual desenvolvemos a visão das coisas
que nos rodeiam, tampouco dizem respeito a nós mesmos e sobre como
pensamos a relação natureza e cultura. É o mundo
do muito pequeno, do invisível aos nossos sentidos.
É exatamente essa nova capacidade de criação e desenvolvimento
que atribuo às nanotecnologias, tecnologias moleculares em evidência
nos últimos anos, crescentemente capazes e complexas, cuja proposta
é trabalhar com a manipulação de átomos -
átomo por átomo -. Esta ação culmina com a
habilidade para manufaturar mecanismos e materiais sob especificações
atomicamente precisas, e para criar nanodispositivos a serem empregados
na fabricação de objetos e sistemas mais diversos, entre
os quais, estão os de computador.
Com a nanotecnologia, a princípio parece que outras espécies,
outros mundos, outras culturas, outras experiências são fortemente
apontados diante da hipótese de manipular átomos e colocá-los
onde bem se entender, desde que não sejam violadas as leis da natureza,
dispondo apenas de conhecimento e tecnologia para tornar esta manipulação
uma realidade. Entretanto, não é o que parece estar assegurado
quando se pensa no poder das nanotecnologias de rearranjar átomos.
É difícil concebê-las sem o poder de alterar e manipular
leis básicas da natureza. Mas não se quer aqui discutir
as possibilidades existentes ou não de ocorrerem modificações
capazes de afetar quem somos, como também a natureza - tanto o
ambiente natural em que vivemos quanto a nossa própria -, correndo-se
o risco de remeter a discussão a um confuso e obstinado subjetivismo,
e da mesma maneira às expectativas da concepção tradicional
objetivista das abordagens. As tecnologias de modo geral não têm
seguido um rumo determinista estrito, sendo hoje, muito intensivas e dependentes
do próprio avanço do conhecimento cientifico. Isto exige
agregar conhecimentos dos fatos humanos vindos de outras disciplinas,
muito especialmente da biologia (Leis, 2003:4) pronunciados
num legítimo diálogo interdisciplinar e intercultural, fora
dos muros do reducionismo, portanto.
A nanotecnologia, por sua vez, uma idéia extremamente original
que vai desde a estrutura molecular até à eletrônica,
passa por distintos setores do conhecimento, nada existindo ainda de previsível,
o que demanda sem dúvida uma base muito grande e forte de conhecimento.
Seja como for, este dilema que se situa a partir das inovações
nanotecnológicas merece uma abordagem baseada em outros fundamentos
que não são ainda suficientemente claros sobre os homens
e a natureza, em toda sua complexidade.
Neste sentido, ressalta-se que jamais sociedade humana alguma experimentou
uma condição de mesclas tão radicais, segundo Oliveira(3) (2002):
[...] de hibridações de natureza e artifício,
de carne e mente, de intimidade e globalidade, em que os limites que definiam
os indivíduos tornam-se cada vez mais ambíguos e imprecisos,
mais estendidos em um sentido, mais contraídos em outro.
É inegável, pois, que a acoplagem de máquinas artificiais
aos seres, em essência ao ser humano, ocasiona muitas outras tarefas
e muitas outras mudanças que impõem limites. Como exemplo
desta perspectiva, há o caso ocorrido em um hospital da cidade
brasileira de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, entre setembro e outubro
de 2003, que foi manchete nos jornais impressos e televisivos. Parte
da calota craniana de uma menina de 10 anos, que fora operada
para extração de um tumor na parte frontal da cabeça,
desapareceu dentro da instituição com suspeitas de ter
sido jogada no lixo. A menina teria recebido em cirurgia uma prótese
de cimento cirúrgico, numa tentativa de repor parte do osso desaparecido.
Como pensar este fato?
Há um desafio gigante pela frente. Esse caso de inserção
de uma prótese num ser humano no lugar de um órgão
considerado biologicamente natural, é apenas um entre
tantos a citar. Assim, falar em nanocomputadores, por exemplo, abre caminhos
para pensar concretamente em andróides, inteligência e vida
verdadeiramente artificiais, mais precisamente em dominação
da natureza, numa dimensão nanoscópica, pelo conhecimento
molecular, em que o corpo é cada vez mais marcado e mudado pela
civilização do excesso tecnológico, como no caso
das próteses, os diversos implantes (lentes de contato, marcapassos,
implantes dentários, nanotecnologias etc). Um verdadeiro híbrido
de organismo, natureza, ciência, tecnologia e sociedade.
Um Estranho Híbrido no Cenário Cultural Contemporâneo:
Entre Bits, Bytes e Novas Formas de Sociabilidade Geradas.
Não deixa de ser um fato instigante que se viva um novo tempo
em que jovens estejam envolvidos numa disputa acirrada, em defesa do direito
de compartilhar, através da rede, de um ambiente de imersão
interativa que oferece condições para que expectadores passivos
possam se transformar em interagentes ativos e assim produzirem a suas
próprias conexões culturais. Os muitos indivíduos
atomizados, tornando-se conectados culturalmente entre si, formando uma
nanotecnologia sociocultural. Trata-se de uma rede inédita já
concentrada no desenvolvimento de novos materiais e de alternativas inovadoras,
direcionadas para um conhecimento que não mais passa por redes
lineares.
Na prática, devido à possibilidade de extinção
dos microchips e serem substituídos por nanochips, assim como aconteceu
com os transístores no século XX, que substituíram
as antigas válvulas(4)
pelo fato de quanto menores, mais poderosos são os processadores
e menos energia é necessária para operá-los, a revolução
informática processada disponibiliza uma capacidade de computação
milhões de vezes maior num pacote nanoscópico. Por outro
lado, a invenção de formas cifradas da linguagem na dimensão
ínfima (como o é a própria criptografia, utilizada
para a codificação de uma mensagem para a tornar legível
apenas pelo seu verdadeiro destinatário, que pode circular com
mais segurança na internet), as comunicações em códigos
da cultura tecnológica refinada e a abertura ao ingresso de comunidades
virtuais derrubam preconceitos infundados e idéias deturpadas sobre
outros lugares, idades, sexo, raças, estilos de vida e credos.
Assim, proporcionam uma troca de conhecimento e de informação
que cada vez mais constitui uma vasta rede.
Ao mesmo tempo em que se ergue um aparato tecnológico virtual
de natureza fria, próprio das tecnologias finas, como as nanotecnologias
e as que promovem a conexão entre mensagens bit por bit, as novas
comunidades hackers (talvez já o fazem) precisam transmutar-se
em possíveis respostas a angústias existenciais que ainda
não foram respondidas. Tampouco está ainda claro se os hackers
serão submetidos a valores inculcados pelo aparato
tecnológico mais avançado ou se suas preferências
serão produzidas integralmente por esta influência. Porém,
o que parece mais fundamental é que a cultura hacker, que hoje
impregna grande parte da sociedade, encontra-se bastante difusa entre
as novas gerações, e não só nos campos tecnológicos
acadêmicos e industriais, como uma prática que já
é, nesse século, muito melhor assimilada do que nos finais
do século passado.
A cultura dos hackers -que avançou substancialmente durante os
anos 90 e início do ano 2000- e o desenvolvimento das micro, bio
e nanotecnologias concederam um maior peso ao desenvolvimento das relações
sociais, aos meios de comunicação, à política
e à economia. A nova economia, sustentada nas tecnologias digitais,
pouco a pouco foi dando margem a outras realidades sociais, em que os
hackers são atores que compartilham um desejo irrefreável
de ultrapassar a fronteira entre o corpo físico e a rede
(Lemos, 1999:20). São fascinados pela alta tecnologia, mas com
simultânea recusa em utilizá-la de modo convencional, a se
tornarem híbridos no ciberespaço, numa mescla de condição
humana com componentes da máquina. Já se ouve falar até
em Cibernesofia(5) sendo todo o "saber" sobre os modos de inter-relações
dos seres humanos e máquinas, assim como os fenômenos que
se produzem nesta junção e as causas e conseqüências
da cada vez mais recorrente interatividade.
Esta cultura tecnológica, segundo Castells (2002), é herdada
da ética dos hackers. Acrescento, contudo, que ela vem sendo de
forma progressiva, marcadamente, determinada pela capacidade de manipulação
da matéria e da informação em pequena escala, mediante
a introdução das nanotecnologias e pelo movimento de
internautas que fazem, mesmo sem um propósito intencional, forçadamente
as novas tecnologias se tornarem acessíveis a uma parcela
maior da humanidade. Neste sentido, é conveniente destacar
que o desenvolvimento da internet, a constituição da grande
rede de interatividade comunicativa e o manejo da informação
são produtos tanto do ambiente cibercultural que o mundo vive,
segundo Castells (2000:37), quanto da combinação entre estratégia
militar, cooperação científico-tecnológica
e inovação contracultural com a atuação dos
hackers.
Nesse entorno, fortaleceram-se, de modo especial, internautas com
diferentes concepções a respeito do uso da informação
digital, entre os quais considero os hackers e também os qualificados
como ciber-rebeldes, como grupos com ideais bastante otimistas e arrojados
diante de tecnologias avançadas. Eles tiveram também propostas
em ocasiões determinadas, que ajudaram a promover avanços
no conhecimento da informática, embora manifestando outras perspectivas
com respeito à manipulação da informação
disponibilizada em redes. Seu alcance principal se encontra na nanotecnologia
molecular, ou seja, na capacidade emergente para construir materiais e
produtos muito pequenos, com precisão atômica. Assim, já
podemos pensar na cultura nanotecno-mediática e na cultura
do hacker legitimando uma liberdade que está muito expandida no
mundo da internet, em que arrefeceu o heroísmo puramente ideológico
devido a maior incidência de condições de acesso ao
meio, em escala mundial.
Se a modernidade foi marcada por uma dimensão de ver o mundo além
das sociedades anteriores, tal o avanço da Física Quântica
e da Biologia Molecular, por exemplo, precisamos agora considerar sobre
como é que vamos lidar com escalas que fogem dos nossos padrões
sensoriais, tanto em termos de macro como de nano (lembrando
que equivale à bilionésima parte do metro). Qualquer tecnologia
que se situa fora da extensão de magnitudes com que lidamos em
nossa vida diária com as quais nossos órgãos sensoriais
são capazes de lidar, nos assombra e apavora! Por que o pequeno
demais ou o grande demais nos apavora tanto? O que na
verdade nos apavora? Penso que é o que desconhecemos, quando
nos vemos forçados a recondicionar nossa percepção
e a mudar nosso sentido de mundo, nossos procedimentos e, sobretudo, o
que significa para nós a vida e a morte. Assim está sendo
com a bio e a nanotecnologia, campos restritos a alguns
cientistas, que dominam as grandezas escalares, mais que qualquer pessoa
comum. É preciso que entremos no mundo da miniaturização,
estranho ao nosso aparato sensorial e cognitivo, buscando apreender mais
desde a totalidade do macrocosmo até a mais ínfima partícula
do nanocosmo para agir diante dos problemas que estão desafiando
nossa condição humana.
Como está a Condição Humana Face às Emergentes
Nanotecnologia, Biotecnologia e Inteligência Artificial?
Certamente, seguindo as idéias de Solís (1994:37), somos
levados a pensar nos diferentes paradigmas que sustentam distintos valores
e hierarquia entre si, produzindo avaliações e decisões
divergentes sobre o desenvolvimento das nanotecnologias sem que se disponha
ainda de um marco comum de normas de racionalidade a que se possa apelar.
É possível que nos deparemos com as discussões e
teses mais radicais, exorbitantes ou mesmo coincidentes, ao se permitir
ver uma coisa em analogia a outra e evidenciar que as teorias que as embasam
não aspiram a resolver imediatamente nem problemas práticos
nem problemas científicos, mas podem apresentam conseqüências
relevantes para a concepção de sistemas de informação,
para o uso de tais sistemas e para a própria pesquisa científica.
É ainda cedo para que os fatos, as observações e
experimentos na nanociência possam pronunciar uma decisão
unânime sobre o que fazer com as teorias pertinentes. Entretanto,
o que não pode ser feito é abandonar e absolutamente repudiar
as considerações avaliativas em favor de uma simples atitude
neutra ou sectária, em termos de interesses, que faz os
pesquisadores se entrincheirarem na suas especialidades ou sub-especialidades,
compartilhando seus conhecimentos apenas no interior de um círculo
próximo e restrito (Leis, 2002:2). Como bem assinalava
Kuhn (2003), o êxito de um cientista se mede pelo reconhecimento
que ele tem de outros membros de seu grupo profissional, partilhando seu
cotidiano, sua linguagem e mundo científicos, num esforço
de coligar as áreas de dificuldade na comunicação
científica.
Prescindindo da forma como é interpretada a relação
entre os produtos da ciência e da tecnologia, as novas formas de
comunicação que advêm com seu caráter amplamente
social e urgência de trabalho interdisciplinar, inegavelmente desempenham
importantíssimo papel para a compreensão da natureza comunicativa
humana. Torna-se mais claro hoje que o saber informatizado e a opção
teórica, implícita nos sistemas auxiliados por computadores,
por sua vez, complementos fundamentais suscitam grandes questões
sobre a natureza do processo de relacionamento social, reativando a chama
para que voltemos a reexaminar a implicação das novas ferramentas
advindas com as inovações tecnológicas.
Este processo foi por muito tempo -e ainda hoje- influenciado por leituras
apressadas e reducionistas, concebendo as coisas existentes definíveis
em termos de objetos e fenômenos diretamente observáveis,
ou significados simplesmente atribuídos, e, doravante, qualquer
enunciação corresponde a algum jogo de enunciações
empiricamente verificáveis. Não somente o reducionismo do
método e o da atividade da ciência podem-se converter em
um obstáculo, mas também, determinadas áreas quando
se deparam com novos fatos, que contradizem suas teorias uma vez restritas
a um paradigma teórico predominante, dificultando que se passe
de um sistema teórico ou epistêmico para outro e que sejam
provocadas as rupturas necessárias ou descontinuidade no conhecimento
em curso pela existência de limitações no tratamento
e descrição de fenômenos mais complexos de modo a
abrir passagem para o advento do novo em substituição ao
velho paradigma.
Diante desse novo demolidor, temos, quem sabe, a pergunta-chave
mais crucial dos últimos tempos: estaremos em vias de mudar a nossa
natureza humana? Mediante a forma como as pessoas vêm se relacionando
com as novas questões éticas e morais e as vinculadas à
validade e à extensão dos direitos humanos, e à manipulação
da intimidade da matéria, é impossível deixar de
reconhecer que tudo isso está afetando o futuro do Homo sapiens,
um futuro que já começou a alterar-se, principalmente, com
a física quântica, com a intensificação das
revoluções genéticas e biomoleculares e agora com
as transformações de origem nanotecnológica. Podemos
de fato estar entrando em mundos diferentes, ambientes desterritorializados,
fora do aqui físico, localizado, o que abala a própria roupagem
física da condição humana.
Em consideração ao ainda recente uso das nanotecnologias,
desde o início bastante marcadas pelo ceticismo de uns e receios
de outros, cabe a conduta de estabelecer a vinculação entre
estas tecnologias com a natureza humana, a ética, a legislação,
a política e a religião. Especialmente porque estas esferas
estão mais libertas da atadura de fundamentos teológicos
e porque se inaugura um espaço para discussões sobre novas
problemáticas resultantes, complexas e essencialmente interdisciplinares,
de uma forma independente da experiência puramente negativa da técnica,
e, por outro lado, de uma interpretação apenas positiva.
Hoje, já não estranhamos que nossa era seja denominada
Era da Internet. Esse novo eixo tecnológico que opera em tempo
real produz verdadeira reviravolta no mundo da comunicação
e dos avanços não apenas científicos e tecnológicos,
mas, sobretudo, sociais. Não é minha preocupação
discutir aqui a acessibilidade à rede, uma vez que os limites e
as misérias da humanidade não são de agora. Inegavelmente,
muitas sociedades têm sido beneficiadas com novas soluções,
assim como os provedores de tecnologias em hardware, software e redes,
que presenciam o nascimento de um novo segmento de mercado e de movimentação
social. Isso não quer dizer que as portas estejam fechadas inquisitorialmente
a outras sociedades, pois têm aumentado a informalidade e a capacidade
auto-reguladora de comunicação, e permanecido a partir das
origens contraculturais da rede, a idéia de que muitos
contribuem para muitos, mas cada um tem voz própria e espera uma
resposta individualizada (Castells, 2000:381).
Ainda que tudo comece com uma elite cultural iluminada, considero
que não será por isso que as redes sociais deixarão
de ser expandidas e de interagir de forma mais ativa, uma vez que as tecnologias
de comunicação e informação, no seu conjunto,
aumentaram substancialmente o poder da conexão coletiva
e vem diminuindo, em conseqüência, a cultura do eu.
Convém recordarmos aqui da quantidade de antenas parabólicas
encontradas em muitas residências, até em locais muito pequenos
e de difícil acesso, ou antenas comuns de televisão, além
do número elevado de pessoas, a cada instante na rua dos centros
mais urbanizados, ou em pequenas cidades interioranas, com seus ouvidos
colados ao celular. No passado, muito poucos tinham televisão e
telefone, hoje, uma boa maioria dispõe dessas tecnologias e de
muitas outras, que já foram um dia privilégio de muito poucos.
Hoje, certamente, com o uso intensificado da informática através
das redes digitais de telecomunicações, o meio de comunicação
passou a ser mais rápido e econômico, ainda que se reconheça
que não chegou a todos. Porém, o fato de que voz, dados
e imagens sejam enviados diretamente ao cibernauta que, a qualquer momento
e em qualquer lugar e pelo tempo que quiser, pode ter acesso à
informação, além de poder contar com recursos de
melhor qualidade face ao desenvolvimento das tecnologias de comunicação
e informação, mostra um evidente avanço em relação
a todas as épocas que antecederam a essa em que vivemos.
É por essa razão que um novo olhar ajuda a melhor compreender
a natureza específica de tecnologias avançadas e a atuação
dos hackers sem que tenhamos que repetir, pelo menos de forma tão
contundente e sem originalidade, os equívocos de determinadas interpretações
e ataques ao novo. Penso que se aceitarmos e resolvermos estes novos desafios
colocados pelas nanotecnologias, estaremos tornando realidade a circunstância
de utilizar adequadamente os mais refinados produtos da ciência
e da tecnologia para alcançarmos uma compreensão menos rígida,
quanto ao tempo e ritmo das transformações na matéria,
de forma menos paradoxal. Neste sentido, é importante que as ciências
sociais revejam sua posição em relação à
distância que mantêm da biologia, física e química,
e que se fortaleça, do mesmo modo, uma convergência epistemológica
entre as ciências da natureza, ciências sociais e humanas.
Esta aproximação torna-se uma necessidade para o incremento
e aparecimento de novos objetos de pesquisa e de pesquisas afins, influenciando
a obrigatória mudança das ciências de modo que possam
transgredir fronteiras, as suas próprias e de outras áreas
do conhecimento.
Nanotecnologia, Cultura da Comunidade Virtual e Cultura do Hacker
Com as diversas mudanças ocorridas na modernidade, entre o desenvolvimento
tecnológico e as transformações das relações
humanas, que podem ser para uns positivas e negativas para outros, dependendo
da maior compreensão que o observador ou estudioso tem da questão,
é importante conjeturar em que medida inovações radicais
como essas estão incidindo sobre nossas realidades e até
que ponto as construções virtuais, geradas por meio das
tecnologias eletrônicas, efetivamente alteraram contextos, criaram
novas identidades ou afinidades de relações, identificações
e novas performances. Para Giddens (1997:5): Quanto mais a tradição
perde a sua influência, (...) tanto mais os indivíduos são
forçados a negociar escolhas de estilos de vida dentre uma diversidade
de opções. Também Bauman explora esta questão,
falando que nossas instituições, nossos quadros de referências
e nossos estilos têm mudado muito rapidamente. Para este autor,
enquanto no passado isso se fazia para ser novamente reenraizado,
agora as coisas todas empregos, relacionamentos, know-hows etc.
tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas, flexíveis
(2003:6).
No caso de êxito das transformações sociais implícitas,
quando falamos de espaços virtuais e interativos, cabem questionamentos
provocativos: Será que se restaurou de fato o sentido de comunidade
(na noção de pertencimento, de permanência em algo,
de identificação e afinidade), ou o aparecimento dessa comunidade
é mais um símbolo do distanciamento pessoal, social e cultural
das pessoas, ou representa uma expressão da autoridade, do controle
ou medo a respeito do outro? Em que medida o ciberespaço e suas
comunidades virtuais, baseados em nanotecnologias, nos ajudam a pensar
no caráter revolucionário da tecnologia com respeito à
sociedade, e, também, sobre o peso das inovações
sociais, tecnológicas, políticas e econômicas em nossa
vida cotidiana? Pode-se também supor que essa nova "comunidade
virtual" é uma comunidade alternativa, tal como as surgidas
nos anos 1960, 1970 e 1980, porém com espaço de atuação
(real e simbólico) justamente oposto, fundamentado na tecnologia,
mas com objetivos semelhantes. O que demonstra ser o conceito de comunidade
um conceito social muito dinâmico e em constante transformação,
embora nos pareça que a própria exemplificação
de tal conceito de comunidade se torna mais complexa e difícil
nos dias de hoje.
Essas e outras tantas dúvidas e hesitações vêm
a propósito por serem especialmente poderosas quando há
pouca informação e muita especulação, fantasia
e reducionismo em torno de inovações tecnológicas.
Pode-se até pensar em opções das mais disparatadas,
mas uma proposta que sustento é que se faz necessário intentar
e persistir numa aproximação entre as ciências, já
que os recentes estudos sobre comunidades virtuais são geralmente
realizados dentro da área da comunicação ou de algumas
ciências, isoladamente, e não em seu conjunto. Comunicação,
sociologia, psicologia, antropologia, história e filosofia, entre
outras, deveriam se concentrar com mais coesão e afinidade no estudo
da transformação dos aspectos modo como estão se
constituindo no que se refere ao reconhecimento do novo, as formas de
relacionamento, as afinidades e identificações identitárias,
embora se saiba que o tempo de resposta tem de ser respeitado para que
não entremos num engodo demagógico.
Se os grupos formados a partir da internet estão sendo cada vez
mais considerados como comunidades, como coletivos inteligentes,
referência feita por Lévy (1998), o comportamento dos indivíduos
e dos grupos deve ser afetado de alguma maneira por esta formação
"virtual". Porém é difícil ainda responder
se esses grupos que correspondem a uma nova forma de relação
social "virtual", em construção, representam o
símbolo do acesso mais fácil à alta tecnologia, bem
como os anseios renovados em nossa época de assegurar uma identidade
própria ou identificações solidárias. Ou se
eles representam ainda os anseios de uma forma de segurança mais
sofisticada, característica que parece estar mais escassa no mundo
real que no virtual. É também difícil saber ainda
se os grupos virtualmente formados, apresentam um maior grau de satisfação,
de confiança ou pelo menos de segurança nas afinidades das
relações, ou se podem correr o risco de caminhar em direção
à ascensão de um fundamentalismo ou separatismo étnico,
comuns em tempos de incerteza.
A internet, certamente, vem se difundindo mais depressa nos meios que
a utilizam. Mas, para Castells (2002), uma técnica se torna instrumento
importante de práticas sociais somente quando a sociedade em seu
conjunto tem necessidade dela para avançar. O sociólogo
espanhol considera que a internet tem sido muito útil, pois através
dela os atores da sociedade civil criam uma sensibilidade que indiretamente
influencia as instituições políticas e fazem com
que esse meio hoje se transforme em uma esfera política que não
havia antes. Habermas (1993) colocou a necessidade da destruição
das restrições da comunicação para
que fosse alcançada a eficácia no seio da comunicação
dos cidadãos a partir da conexão dos interesses sociais,
ultrapassando os obstáculos burocráticos, fazendo, assim,
avançar os processos sociais. É necessário, segundo
evidencia Habermas (1993:125), não deixar romper o nexo da comunicação,
mesmo quando as informações de um especialista para outro
devem tomar o caminho largo que passa pela linguagem coloquial e pela
compreensão quotidiana do leigo.
Nesse processo, que se especifica como virtualização
da cultura (Lemos, 1999:12), considerando que a internet não
difere em supremacia das outras grandes tecnologias da história,
vale lembrar Castells (2002) ao dizer que a internet é um fenômeno
econômico, social e político, mas não necessariamente
uma tecnologia que traz uma solução global para os problemas
da humanidade e tampouco é um sistema que cria desigualdades sociais.
Tal questão é instigante e remete ao que escreve Lemos (1999:12),
quando aborda o poder com que a tecnologia virtual afetou a sociedade
no fim do século XX:
A tecnologia, pensada como destruidora de toda e qualquer singularidade,
transforma-se no seu oposto: ela potencializa singularidades ordinárias
(Scheer). Agora, é na troca ordinária de informações
entre pessoas ordinárias que essa estrutura a civilização
da comunicação (comunhão, agregação).
É essa frivolidade ordinária que constitui, de forma indiscutível,
a singularidade contemporânea.
Segundo Lévy (1998), a virtualização é um
processo comum na nossa civilização, e o ciberespaço,
constitui-se, antes de tudo, em um novo palco para as relações
humanas. Estas constatações permitem reconhecer que foi
a partir da internet, sobretudo, por sua dinâmica e crescimento
exponencial, que se constituíram e proliferaram comunidades virtuais
que foram adquirindo seus contornos próprios. Entre tais comunidades,
assinala-se a comunidade de hackers, origem essencial de inovações
na era da informação, nada de extraordinariamente alienígeno.
Os hackers são pessoas com conhecimentos técnicos informáticos,
os quais classifico não como meros atores da subcultura formada
no e em torno do aparente mundo ficcional do ciberespaço,
mas providos de uma capacidade criadora para inventar programas e desenvolver
formas novas de processamento de informação e comunicação
eletrônica, às vezes por hobby, vinculada mais especificamente
aos cientistas de computador e hackers de sistemas. A sociedade
se viu forçada a fazer frente à natureza intangível
do ciberespaço como um território privado, como uma expansão
da realidade.
No novo contexto, pouco indulgente e forte, da "Sociedade da Informação"
dos anos 1990, o "hackeamento foi posto em interdito assumindo
demasiada importância a tal ponto que foi deixado aos hackers. Em
razão disso, os indivíduos e os grupos não mais se
depararam com saberes estáveis e com classificações
cristalizadas de conhecimentos arraigados e herdados pela tradição,
mas com um saber-fluxo caótico, cujo curso ficou difícil
de prever e o desafio crucial resultante foi o de aprender a tornar-se
um cibernauta cada vez mais sintonizado com um espaço ciberurbano,
sem fronteiras.
Pode-se situar os hackers em várias categorias, uma vez que criam
as suas próprias normas, seus discursos específicos e suas
formas de organização e de hierarquização
simbólica. De modo geral, consultando literatura especializada
sobre hackers e na internet, encontram-se denominações bastante
diversificadas, tanto para os popularmente conhecidos como ciber-rebeldes,
os cibernautas do mal, como para os inteligentes, intensos,
abstratos e intelectualmente abertos feras da informática,
os hackers, descritos como internautas do bem.
Começa-se pelo hacker situado no topo, o mais alto
nível de uma crescente e intrincada rede de distinções,
que é na verdade o internauta expert do bem. Segue-se
a este o cracker, o phreaker, o wracker
e o script kiddie, considerados experts do mal.
Estes são denominados, dentro do fechado e ainda pequeno grupo
dos verdadeiros gênios dos computadores, como subgrupos principais.
O hacker, por sua vez, difere do guru, que já sabe
tudo e que representa o supra-sumo dos hackers, enquanto aqueles que não
entram necessariamente em sistemas, nem buscam informação
que não lhes é divulgada e que têm uma conduta ética.
Existe ainda na largada do complexo percurso, o larva
que já está quase se tornando um hacker, pois consegue desenvolver
suas próprias técnicas de invadir sistemas. Depois, quase
na base de toda a aprendizagem, estão os considerados principiantes
lammers, wannabes ou arackers,
"odonto-hackers, pseudo-hackers etc. Eles representam
identidades, além de outras como os cypherpunks", "ravers"
e "zippies, todas caracterizando novas formas de sociabilidade
na internet, no ciberespaço.
Apesar do termo hacker ser normalmente utilizado para qualquer invasor
de computadores, pode-se observar que existem várias categorias
de hacker na sua conotação negativa, formando uma taxonomia
simplificada e que ilustra o que se constitui, para muitos usuários
do sistema, nas diferentes ameaças existentes na internet. Falo,
também, do hacker técnico, do hacker vândalo
e do hacker criminoso(6),
que me parece uma denominação infeliz para os vândalos,
com um conhecimento moderado de informática, que causam a grande
maioria dos incidentes de segurança na internet "pichando"
ou indisponibilizando sites, e têm valores éticos distorcidos
Esses e tantos outros indivíduos distintos não indicados
aqui, alguns ainda não categorizados, quando se concentram num
mesmo locus e com interesses comuns constituem-se em comunidades
com possibilidade de relações sociais, cuja expressão
cultural se formou a partir de ambientes modelados pela ciência
e a tecnologia, por que não dizer, da nanotecnologia. Turkle (1984)
pôde constatar que o discurso com o qual o hacker descreve a si
mesmo é derivado de noções, às vezes bastante
sofisticadas, de programas de inteligência artificial.
Ao dizer que manifestantes rebeldes surgem sempre que uma nova tecnologia
aparece, divirjo de Lemos (1997) quando evoca uma aproximação
entre os ludistas(7) da primeira
Revolução Industrial e os hackers ciber-rebeldes. Embora
compactue com o autor que ambos diferem, porque os hackers vêem
a tecnologia como aliada, enquanto os neo-ludistas a viam como
algo a ser combatido, considero que os hackers são figuras de tempos
mais recentes, muito mais desejosos de inclusão social e conhecimento
do que combater a exclusão social e fazer recuar as inovações,
como parece ter sido a bandeira dos ludistas.
Assim, penso que os grupos, mesmo os considerados membros da contracultura,
são constituídos pelo desejo de dominar campos novos do
conhecimento e com base nos princípios de liberdade, igualdade
de direitos, inclusão social e diversidade cultural, que têm
sido defendidos em diferentes momentos históricos, correspondendo
aos ideais de diversos movimentos revolucionários e reivindicatórios
de outras épocas. Neste sentido, não resta dúvida
que pensar em hackers é lembrar manifestações contrárias
à cultura dominante, o que não significa necessariamente
uma volta à barbárie, um repúdio cultural ou uma
forma de subcultura. Ao contrário, o que parecem expressar é
uma oposição aos padrões da cultura ocidental estabelecida,
concebida como radicalmente à parte de todas as culturas. Eles
apresentam uma opção que contrasta com os modelos tradicionais
conservadores deste modelo-padrão - relação
homem-natureza, pensados nos cânones da modernidade ocidental, em
torno de Deus (o poder de imputar um sentido ao mundo é
retirado de Deus e passado às mãos do homem), num terreno
cheio de incertezas e apostas e com temor a riscos que nem se sabe quais,
no rumo do que vai se construindo dentro da própria modernidade,
aturdindo o homem moderno.
Essa oposição parece ter sido somente possível com
o domínio micro e nano de processamentos da matéria e da
informação, reafirmando o que é dito por Latour (2000:70):
A temporalidade moderna nada tem de judáico-cristã
e, felizmente, nada tem de durável também. Uma
vez implantadas as nanotecnologias, elas passam a ocupar um espaço
físico e social que oportuniza aos indivíduos a manipulação
de uma estrutura rizomática qualidade por qualidade
(Lévy: 2001:58) ou ainda ponto por ponto, sem que nada
seja perdido. Trata-se de uma esfera que contrasta com o grupo de pessoas
eivadas de individualismo. Nela se valoriza o coletivo na sua versão
da alta modernidade, se valoriza o humano em sua diversidade e é
proporcionada aos indivíduos e grupos a capacidade de comunicar-se
e de agir reciprocamente, fazendo coisas diferentes em entornos
distintos (Piscitelli, 2002:63), realidade inaugurada com tecnologias
muito avançadas e que propõem recursos infinitos no futuro.
Piscitelli (2002:103) comenta que, antes do advento do paradigma digital,
saber quem éramos dependia de saber onde estávamos localizados.
Para o autor:
El ser y el estar al punto que esta disociación es inexistente
en idiomas como el inglés iban inextricablemente unidos.
Al romperse este dique de contención físico y espacial,
la carga de la prueba que establecía que soy donde estoyse
invirtió. Al desenclavar la identidad de amarres físicos
localizables en el espacio y ante la posibilidad de convertirnos en una
persona o cosa a voluntad como enseña el dogma básico
de las realidades virtuales- nuestra identidad se difumina, multiplica,
fragmenta y pluraliza.
Em seu livro A Vida no Ecrã (1997), Turkle aborda as experiências
de imersão de pessoas em mundos virtuais, onde é possibilitado
o desenvolvimento de diferentes "personas" vividas, simultaneamente,
pelo mesmo internauta, com uma recíproca indagação
a respeito da identidade individual, e a redução da distância
entre realidade interativa e virtual e a vida real. Júnior (2001)
vê uma modalidade interativa semelhante a que se imagina no mundo
molecular, intuitiva (conta com o inesperado), multidissensorial
(interações de várias habilidades sensoriais), conexial
(perfazendo roteiros originais e criando uma rede de relações),
descentrada (coexistem muitos centros) e com participação
por experimentação, bidirecional e de co-autoria. Nesta
modalidade interativa, as pessoas são capazes de realizar tarefas
até agora inimagináveis, atingindo um número incontável
de cibernautas.
O conceito da existência simultânea de um 'eu' coletivo e,
ao mesmo tempo, múltiplo em diferentes comunidades como diferentes
personae, é extensamente abordado por Turkle (1997). A autora
observa que o ciberespaço possibilita a construção
e reconstrução de diferentes personalidades graças
à possibilidade dos cibernautas se apresentarem simultaneamente
com diferentes identidades virtuais, cada uma potencialmente capaz de
gerar informações e lidar com aquelas de natureza diversa.
Esta interação se dá com diferentes vozes, diferentes
gêneros, diferentes idades e personalidades, diferentes registros,
o que se traduz como conseqüência direta e em especial dos
computadores em redes. É precisamente esta capacidade ilimitada
vivenciada em navegações no ciberespaço, controlando
mensagens bit por bit, que confere significado às diversas comunidades
virtuais emergentes que proporcionam, como diz Lemos (1999:21):
(...) emoções coletivas identificadoras, não com
o indivíduo preso em uma sociedade fechada, mas com personas
de diversas máscaras (...) estando em jogo a criação
de uma obra de arte coletiva.
As novas dimensões comunicativas não só mudam a
nossa percepção de espaço e tempo, mas também,
por suas características, influenciam os relacionamentos interpessoais
e as tradicionais noções de identidade. Tem-se o exemplo
do E-mail, o IRC os MUDs e os MOOs(8) como formas novas nascidas na internet que permitem criar
e desenvolver relacionamentos no âmbito que se pode designar de
realidade social no ciberespaço. Elas alteram a forma de projetar
nossas idéias, desejos, fantasias e a própria noção
de máquina, na medida em que nos sentimos cada vez mais ligados
e dependentes delas. Para Lemos (1999:17), trata-se muito mais de afinidade
do que de identidade, ou seja, de uma lógica de identificação
que se constitui a partir de uma afinidade, longe da lógica
da apropriação de uma (e única) identidade. Tal
como o cyborg, na visão deste mesmo autor, é uma realidade
possibilitada pela engenharia genética e as nanotecnologias, vejo-me
tentada a indagar: Até que ponto já somos apenas híbridos
ou um outro originalmente outro, passando por um autêntico
processo de reestruturação, de obsolescência
e virtualização?
As considerações sobre a construção cada
vez mais veloz de um imenso laboratório social significativo
(Turkle, 1995:265), não envolve somente os brilhantes hackers,
os criadores de softwares, de videogames, os programadores, os designers,
os websurfers etc, mas, principalmente essa garotada, que joga no computador
desde muito cedo, sobretudo os rotulados meninos de rua que
também jogam nos fliperamas de igual para igual como joga outro
menino qualquer, mesmo que seja o mais recente jogo que tenha acabado
de chegar. Esta inclusão sugere alguns questionamentos feitos por
Turkle (1995:266): Como é que se processa a comunicação
entre esses meninos e a máquina? O que os leva a fazer isto? Será
um passatempo fútil, uma monumental perda de tempo? Estaremos
assistindo (...) à emergência de um novo estilo de
pensamento, de natureza múltipla, acerca da mente? Mais que
receio e recusas frente ao novo, vislumbra-se uma chama ainda tênue
de esperança diante da possibilidade de que se desfaçam
as identidades rígidas (Lemos, 1999:22), moldadas por
um ocidentalismo religioso que instaurou o ideal de eternidade, neutralizou
as diferenças e destinou solidez às identidades, fragilizando-as
de modo significativo. A quebra na rigidez de identidades é explicada
por Bauman (2003:5):
Diferentemente da sociedade moderna anterior [...], que também
estava sempre a desmontar a realidade herdada, a de agora não o
faz com uma perspectiva de longa duração, com a intenção
de torná-la melhor e novamente sólida. Tudo está
agora sempre a ser permanentemente desmontado, mas sem perspectiva de
nenhuma permanência. Tudo é temporário.
Dentre os conflitos relacionais vividos hoje, tanto no que se refere
a incertezas, a contradições de idéias, à
aparente inexistência de laços de solidariedade, à
retirada para nichos subterrâneos e à insegurança
relevante de indivíduos, as antigas formas de comportamento e relacionamento
humano estão mostrando que não funcionam mais e até
estão ameaçados por novas formas de comportamento e relacionamento,
que superam os antigos valores. O que é moral e imoral prende-se
por um tênue fio em termos de definição. Aí
desponta a nanotecnologia com promessas não só de avanços,
de lucros, de prolongamento da vida, de diminuição dos riscos
à saúde e ao meio ambiente, de progressos ecológicos
na utilização dos transgênicos etc, mas, sobretudo,
de segurança. Assim, já se fala não mais apenas em
biosegurança, mas em nanosegurança, no que diz respeito
aos alimentos, ao ambiente, à saúde, à vida, enfim.
Conclusões
O estudo que informa o debate contemporâneo sobre o que se pode
analisar nos contextos criados pelas novas comunidades virtuais é
fundamental para a análise de diferentes configurações
sociais e de situações de relações de sociabilidade
no ciberespaço, ainda não muito claras. A tecitura destes
contextos consiste em ações muito finas, nanotecnológicas,
pois operam com o conceito de cultura de rede altamente informatizada
e com um complexo de planos e situações interativos, matizados
por relações intersubjetivas estabelecidas.
As relações no ciberespaço são humanas, e
este espaço tem uma dimensão de especial relevância
à luz do pensamento mais atual, se consideramos que as ciências
sociais e humanas, muito mais que a biologia, se debatem hoje com problemas
sociais de enorme complexidade. Ao mesmo tempo, enquanto parece haver
uma automação cultural provocada pela tecnologia e pelo
fácil acesso às informações, o indivíduo
parece procurar o oposto disso em suas relações interpessoais,
isto é, a aproximação, a afinidade, o pertencimento,
o sentimento de comunidade, fugindo ao determinismo das relações
hierárquicas. Torna-se mais patente que os grandes avanços
tecnológicos são feitos pelo homem e não dádivas
de Deus (Thurow, 1999). Também Lévy (1998) defende a idéia
de que as novas tecnologias são responsáveis pelas alterações
nas estratégias de adquirir conhecimento, nas formas de representá-lo
e transmitir estas representações através da linguagem,
situando o projeto da inteligência coletiva em uma perspectiva antropológica
de longa duração. Para o autor, inteligência
coletiva é condição humana, o que a faz
ligada intrinsecamente à inteligência individual.
Algumas questões apresentadas aqui poderão ser estudadas
à luz do trabalho de pesquisadores no campo da comunicação
e da sociabilidade, que fazem incursões sobre o impacto das mudanças
tecnológicas nas comunidades contemporâneas, como a formação
das tribos urbanas e as próprias comunidades virtuais. Ainda que
sejam vários os aspectos positivos que a nanotecnologia pode apresentar,
cresce o debate sobre o que esta inovação representa para
o futuro das pessoas, da sociedade e da natureza. A técnica e a
ciência têm proporcionado uma potência ao ser humano
até um tempo atrás pouco considerada, cujos fenômenos
derivados não são mais peculiares apenas à maneira
de estar no mundo ocidental. Essa é uma questão epistemológica
importante a considerar, uma vez que é preciso pensar a simultaneidade
do local e do global que as tecnologias mais recentes estão propiciando.
Quanto à nanotecnologia, acompanhada de sua própria evolução
e do próprio contexto em que se desenvolve, ela deve ser sempre
considerada na relação homem-natureza-sociedade-universo.
Isto é, estar necessariamente integrada no seu próprio tempo,
relacionada ao contexto histórico, econômico, político
e social em que se realiza, como prática social de natureza cultural
e altamente formativa. Não há dúvida em reconhecer
que um dos princípios que mais caracteriza a nanotecnologia, subjacente
à sua realização, é o desprendimento da determinação
do tempo e do espaço para que ela aconteça. Os meios disponíveis
ao favorecimento da pesquisa nanotecnológica instigam a criação
de tempo e espaço pelos envolvidos neste trabalho, mas não
que ambos sejam os determinantes das condições de desenvolvimento
deste processo. Já vem de longe a tentativa do homem em trabalhar
melhor o tempo e versatilizar as circunstâncias espaciais, pois
existem muitos acontecimentos ilustrativos desta realidade na história
da engenhosidade humana.
O desenvolvimento das inovações tecnológicas pode
estar mais estreitamente relacionado a questões políticas,
sociais e econômicas do que aos argumentos científicos, como
a muitos parece, mas estas inovações podem tomar o caminho
resultante, primordialmente, do uso particular que fizermos delas. As
nanotecnologias podem ser trabalhadas como novas possibilidades de ação
dos indivíduos em seu mundo. Esta constatação também
aponta para a necessidade de maior espaço de discussão interdisciplinar
sobre os conhecimentos emergentes, do exercício da ética
e maior consciência para sermos capazes de integrar as nanotecnologias.
Ou se prevalecer o contrário, a questão é se evitaremos
enrijecer o avanço destas tecnologias atrelando-as a normas tradicionais,
já obsoletas e ineficazes.
O que está por vir em nanotecnologia será resultado de
grandes mudanças que precisam acontecer agora. Vejo, assim, a imprescindível
contribuição dos setores estratégicos a favorecer
as condições para que os avanços recentes nas chamadas
tecnologias da comunicação e informação, responsáveis
por uma verdadeira revolução nos costumes e processos econômicos,
possam ser notadamente e maciçamente introduzidos. Esta contribuição
estaria assim, antevendo a emergência de formas novas e extremamente
plásticas de produção do conhecimento e acompanhamento
de seu fluxo, em direção aos novos cenários, atividades
e conceitos deste novo milênio.
Vislumbro as nanotecnologias em sua integração com os hackers
como uma iniciativa mediadora nesse processo, tendo à frente grandes
preocupações, tais como, o planejamento, a implementação
e disponibilização de ambientes e cenários de suporte
à aprendizagem conceitual, à pesquisa e disseminação
do conhecimento e da informação. Assim integrada, passaria
a explorar todo o potencial educativo dos recursos das tecnologias de
redes, de engenharia, de softwares, da didática, da ergonomia,
da psicologia, e tantas outras áreas, amplificando competências
e transformando papéis. Todas as questões, dentre muitas
outras que devem surgir, levam a uma abordagem mais profunda dos relacionamentos
humanos dos tempos atuais, assunto estudado por muitos autores e que aqui
contribui também para melhor situar o processo de formação
e compreensão das comunidades virtuais hackers e do advento de
tecnologias ultra-avançadas.
Concluindo este ensaio, registro que existe uma notável escassez
atual de literatura específica sobre o assunto tratado, em contraste
com a quantidade de dúvidas e questões suscitadas pela complexidade
do mesmo. Tudo leva a crer que estamos num incipiente momento de uma mudança
sem precedentes na história da civilização e sem
claras perspectivas. Esta realidade, no entanto, desperta e impulsiona
um maior empenho e entusiasmo pela pesquisa, ainda mais necessária
e mais ampla considerado este quadro tão restrito de referências.
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Garcia Pallares-Burke, 2003.
Notas:
(1) a autora:
*Doutoranda do Programa de Doutorado Interdisciplinar em Ciências
Humanas (DICH) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), da linha
de pesquisa: Condição Humana na Modernidade na área
de Globalização, Técnica e Trabalho.
(2) Manifesto Hacker - Feito
por Mentor, hacker americano e criador de RPGs, da velha guarda. Transcrito
por AkFare, integrante do grupo Pirates of NetWork.
(3)É importante ler a entrevista
feita pela Revista Eletrônica ComCiência a Luiz Alberto
Oliveira, com o título de Nanotecnologia assemelha homens
e máquinas, realizada em 2002 e disponível
no endereço http://www.comciencia.br/entrevistas/nanotecnologia/oliveira.htm.
(4) Os transístores são
muito menores, mais baratos, mais duráveis e muito mais rápido
que uma válvula. As válvulas, por sua vez, já eram
bem mais rápidas que os relês, que surgiram no final do século
XIX. Os relês são dispositivos eletromecânicos muito
usados no sistema telefônico e por algumas centrais analógicas
ainda hoje, podendo ser considerados uma espécie de antepassados
dos transístores, mas apresentam como limitações
custo relativamente alto, são grandes demais e ao mesmo tempo muito
lentos. Já quanto às válvulas, para se construir
um computador usavam-se milhares delas, o que era extremamente complicado
e caro. Vale lembrar que o computador mais famoso entre os primeiros construídos
durante a década de 40, foi o Electronic Numerical Integrator Analyzer
and Computer (ENIAC), em 1945. O ENIAC era composto por cerca de 17,468
válvulas, ocupando um espaço imenso. O tamanho que tinha
e o poder de processamento do ENIAC são considerados irrisórios
para os padrões atuais.
(5) Cibernesofia corresponde à
junção dos radicais "Kyberne", advindo do grego:
kybernetiké, que significa arte de governar (a cibernética
atual, o estudo dos mecanismos de comunicação, interação
e controle das máquinas) e "sophia", que significa saber.
(6) Hacker técnico é
considerado o responsável pelo desenvolvimento dos programas de
ataque e invasão. Normalmente são adultos que trabalham
ou já trabalharam com informática. Os hackers vândalos
normalmente são considerados adolescentes rebeldes, com um conhecimento
moderado de informática, que se divertem "pichando" ou
indisponibilizando sites, aproveitando-se da dificuldade da lei em puni-lo,
e de fragilidades que encontram na segurança internet, em muitos
sites. O hacker criminoso efetua as suas invasões/ataques com objetivos
financeiros, sendo normalmente adultos, com um perfil criminoso (no mínimo
estelionatário). Seus conhecimentos de técnicas hacker vão
de bom a ótimo, sendo que alguns são capazes de desenvolver
suas próprias ferramentas de invasão.
(7) Os ludistas ingleses formaram um
movimento surgido no séc. XIX, que lutava bravamente contra as
máquinas modernizadas, chegando mesmo a invadir fábricas
e a destruir propriedades mediante às quais estava se redesenhando
uma nova sociedade em todos os seus aspectos; suas críticas radicais
à civilização e atos de destruição
levaram o parlamento da Inglaterra, berço da Revolução
Industrial, a baixar uma lei decretando a morte de todo aquele que destruísse
uma máquina.
(8) O MUD, de Multiple-User Dimension,
são domínios multiusuários. Originalmente conhecido
como Multi- User Dungeons, um MUD é um ambiente virtual
baseado em texto no qual os personagens dos usuários interagem
em tempo real. O MUD é uma transposição dos jogos
de RPG (Role Playing Game) para as redes. Já os MOO's são
uma contração de MUD, Object Oriented, podendo ser
descritos como uma realidade virtual multiusuário baseada em texto,
cuja primeira versão foi desenvolvida em 1990 por Stephen White
da Universidade de Waterloo.
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