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Educação Tecnológica Contextualizada, ferramenta essencial para o Desenvolvimento Social Brasileiro

Ciliana R. Colombo, Walter A. Bazzo1

Resumo:

O presente artigo traz uma reflexão sobre as interferências da tecnologia no desenvolvimento do ser humano, em especial da sociedade brasileira, cuja proposta de modernização segue um caminho pautado no desenvolvimento tecnológico. Esta proposta seguida muitas vezes a risca pelos governantes é, no entanto, desprovida de reflexão, incluindo, em muitos casos, a absorção de tecnologia estrangeira sem qualquer adaptação contextual, acentuando a exclusão e aumentando ainda mais a desigualdade social de nosso país. Na perspectiva de mudança desse quadro, este estudo faz um apanhado das alternativas apresentadas por autores nacionais e estrangeiros, que aprofundam o tema Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) que pode ser uma variante na compreensão deste fenômeno. Através destas muitas alternativas, algumas delas ainda desconhecidas, ou pouco trabalhadas nos meios acadêmicos, tal proposta preocupa-se em apresentar uma perspectiva de trabalho em educação tecnológica, com o intuito de levar a sociedade brasileira a uma participação mais efetiva no desenvolvimento tecnológico associado ao desenvolvimento social do país.

1. Tecnologia: uma reflexão sobre suas interferências

Não somos culpados pelo mundo que encontramos ao nascer. Mas precisamos, na medida de nossas possibilidades, fazer alguma coisa pelo mundo que está sendo construído (ou destruído). E que será herdado aos que hão de vir. (Gilberto Cotrim)

A tecnologia é hoje parte inerente da vida do ser humano de modo que não conseguimos nos ver separados dela. Muitas vezes concebemos a nós mesmos como complexas máquinas físico-químicas com um cérebro, que pode ser comparado a um potente e complicado computador. Porém devemos estar alerta quanto a reduzirmo-nos a um simples objeto da técnica, ou vincular a realização de nossos sonhos e a resposta a nossas angústias aos avanços tecnológicos.

Na nossa ânsia para alcançar o progresso tecnológico, não levamos em conta suas implicações sociais relacionadas aos hábitos, percepções, conceitos, limites morais, políticos e individuais. Passamos por cima de algumas questões de suma importância tais como a fome mundial, a degradação do meio ambiente, as armas nucleares que ameaçam destruir toda a vida do planeta e, mais forte que nunca, a manipulação genética.

Estes são alguns dos aspectos que nos levam a perceber a premência de refletirmos sobre a utilização da ciência e da tecnologia, para podermos realizar escolhas tendo como referências os valores ‘humanos’. Enquanto pertencentes a um país dependente, que faz uso de tecnologias transferidas sem uma adequação à realidade nacional, intensifica-se, em nós, essa necessidade.

Assim sendo, desencadeamos reflexões sobre as interferências da tecnologia no desenvolvimento da sociedade brasileira buscando possibilidades de socialização de seus resultados, sejam eles positivos ou negativos. Com a visão de que o desenvolvimento tecnológico leva-nos diretamente ao desenvolvimento social fomos progressivamente vinculando o desenvolvimento humano aos avanços tecnológicos deixando de considerar os desvios que ocorrem. Cegamo-nos às diversas implicações negativas desse processo de desenvolvimento passando a perceber apenas o que de positivo prometem trazer os avanços tecnológicos.

Um interessante problema de nossos tempos é que estivemos adormecidos voluntariamente através do processo de reconstrução das condições da existência humana, não percebendo que o desenvolvimento tecnológico, não favorece a satisfação das expectativas no tocante às necessidades humanas, ao contrário, o padrão consiste em ajustar as necessidades humanas ao que a ciência e a tecnologia produzem.

No final da década de 60 e início de 70 as idéias e pressuposições, até então irrestritamente favoráveis aos benefícios sociais decorrentes do desenvolvimento tecnológico, começaram a ser questionados nos países desenvolvidos como reação aos reflexos negativos da tecnologia sobre a natureza. (Acosta-Hoyos; Guerrero, 1985). Hoje estes questionamentos, cremos, em função da avalanche tecnológica de nossos dias, estão se tornando mais intensos.

No Brasil, estamos começando a nos questionar acerca disso tudo, e a refletir sobre algumas questões mais emergentes, que vem sendo discutidas em nível mundial.

Como estamos vivendo agora? Como pretendemos viver? O imenso poder científico e técnico, produzirá um mundo genuinamente superior ao que tínhamos antes; ou permaneceremos estagnados diante de uma acumulação de renovações descuidadas e desordenadas que destróem mais que melhoram? Por que a ciência e a tecnologia não têm tido sucesso em solucionar o problema mais humano de todos: a qualidade de vida? Como nosso país está tratando os impactos oriundos da tecnologia na sociedade?

Ainda que reflexões como estas aflorem em alguns segmentos da sociedade grande parte da população, que vive nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, permanece enraizada no determinismo tecnológico, vaga num profundo sonambulismo, e considera a tecnologia neutra destituída de valores como uma espécie de crença sem questionamentos. As reflexões e análises, que raramente ocorrem, em geral, baseiam-se na inadequação da tecnologia, ao invés de analisar as questões sociais e políticas que envolvem tanto a escolha quanto a incorporação das mesmas.

Não se trata de ver a tecnologia apenas como negativa e de prescindir da mesma, mas sim de discutir a validade de tomá-la como algo absoluto, de compreender que não existe neutralidade nas inovações tecnológicas, que elas podem ser utilizadas para o bem e para o mal, a favor ou contra o homem.

Essas afirmações são corroboradas por Winner (1987, p. 42), quando diz que toda descoberta é preparada de antemão para favorecer certos interesses sociais e algumas pessoas inevitavelmente recebem mais que outras.

Cientes disso, os cientistas precisam preocupar-se com a aplicação dada a suas descobertas e teorias; devem manter-se alerta para a utilização que será dada a elas, pois é evidente que as tecnologias podem ser utilizadas de maneira a aumentar o poder, a autoridade, o privilégio de uns sobre os outros. Nesta direção Sanmartín (1990, p. 62) afirma que mais além dos projetos, teoricamente incorporados por uma tecnologia, que a fazem apropriada para uma ou outra forma de vida, estão as redes reais de interesses sociais nas quais a tecnologia em questão já nasce ligada.

Zarth et al. (1998, p. 35-36), destaca que a “tecnologia é o instrumento mais adequado para se impor uma dominação e controle sobre a natureza e sobre a sociedade” e que o progresso tecnológico, de certo modo, se constitui em estratégia do desenvolvimento capitalista, não necessariamente vinculada às necessidades básicas da população; tornando-se “um fator ideológico pelo fato de irradiar a idéia de que ele representa o caminho do bem estar social para todos os segmentos sociais”.

Entendemos que o foco do problema não está na inexorabilidade do progresso tecnológico, mas sim na orientação e determinação de prioridades que os governos dos mais diferentes países do mundo têm formulado para a tecnologia. Esta não pode ser direcionada para servir de base para promoção dos interesses de poucos. A sua ênfase deve convergir para a promoção humana, expressa em termos da qualidade de vida.

Diante do exposto, cabe a reflexão diretora deste nosso estudo: que influências da tecnologia detectamos em nossas vidas? Algumas respostas e afirmações já vem sendo oferecidas, como resposta a esta pergunta, por diversos estudiosos neste campo como podemos ver a seguir:

Tudo isso reforça o que Winner (1987, p. 25), traz nesta citação:

“os hábitos, as próprias percepções, os conceitos, as idéias de espaço e tempo, as relações sociais e os limites morais e políticos, individuais, foram poderosamente reestruturados no decorrer do desenvolvimento tecnológico moderno. (...) Se produziram grandes transformações na estrutura de nosso mundo comum sem levar em conta o que implicavam estas alterações”.

Estes aspectos discutidos acima, mostrando a interferência e a magnificência da tecnologia frente ao desenvolvimento humano, ficam evidenciados através do lema que abria o roteiro da Exposição Universal de Chicago em 1933 (Sanmartín, 1990, p.28): “A ciência descobre, a industria aplica, o homem se ajusta”, situação que ainda hoje se constata na grande maioria dos casos. O demagógico desse ajustar-se não está no controle pretendido por determinadas sociedades dominantes quando da venda de produtos sob a promessa de que vão conceder um paraíso tecnológico, mas essencialmente na crença da população nesta promessa. Felizmente emergem aqui e acolá reações a essa crença, a esse ajustar-se. Winner (1987) destaca que o crescimento de certas tecnologias tem levado a um reconhecimento de seus limites e que muitas pessoas estão dispostas a considerar a possibilidade de limitá-las, dado que sua aplicação/utilização ameaça a saúde e a segurança pública; ameaça esgotar alguma fonte vital; degrada a qualidade do meio (ar, terra e água); ameaça as espécies naturais e os territórios virgens que devem ser preservados; e causa tensões sociais e esforço exagerado.

No reconhecimento dos limites do progresso tecnológico o que se sobressai é, na verdade, a necessidade de uma ética da tecnologia. Segundo Mitcham (1996) a ética da tecnologia se fundamenta sobre um amplo questionamento moral da tecnologia científica, ela se refere a intenção geral de adaptar a tecnologia como um todo, não somente frente as questões ambientais, nucleares, de armamentos, da biotecnologia, mas incluir questões mais amplas relacionadas a sociedade.

Hoje, para mudar a sociedade, afirma Sanmartín (1990, p. 63) não basta, pois, substituir umas tecnologias por outras (ainda que isso possa ser algo valioso por si). É necessário mudar a política tecnológica. O que teria que se fazer é fixar socialmente metas e favorecer, logo, as tecnologias que se estime socialmente mais oportunas para satisfazê-las.

Isso nos remete à reflexão feita por Pacey (1990) no que tange à tecnologia como algo que proporciona ferramentas independentes dos sistemas de valores locais e que podem utilizar-se imparcialmente em apoio de estilos de vida substancialmente diferentes. Entendemos que esta visão é que proporciona a transferência de tecnologias entre sociedades sem considerar suas especificidades, sem refletir que de algum modo a tecnologia condiciona a sociedade.

Nessa questão cabe bem a situação brasileira pois, o Brasil ao colocar em prática um projeto de desenvolvimento baseado em tecnologia importada, incorporou os modos de produção e também as formas de conhecimento do produtor. Ou seja, transformou nossa sociedade moldando-a à imagem da sociedade que produziu a tecnologia.

Outra questão relativa a interferência da tecnologia na sociedade brasileira está ligada ao poder e controle que dela pode emergir. Quando não há democracia no acesso ao desenvolvimento tecnológico, caminhamos para a diferenciação social, para a exclusão social. Aspectos estes, que dentro da dinâmica de uma sociedade contemporânea são instrumentos de poder e de controle. No Brasil, é o Estado que promove o desenvolvimento da base técnica produtiva, num processo não de igualdade de acesso aos fatores tecnológicos, mas beneficiando os sujeitos sociais com melhores condições técnicas e de capital. Cerca de 95% da população brasileira não tem acesso às tecnologias, e quando tem sofre influências negativas pela não adaptação ao seu contexto.

Os problemas relacionados à tecnologia em determinado contexto social geralmente são resolvidos sem levar em consideração a opinião pública. Por outro lado, a própria população, por falta de informações/conhecimento, se excluí do processo de reflexão acerca das interferências dos avanços tecnológicos na sociedade.

Emerge, desse contexto, a necessidade de uma reflexão moral que investigue e desenvolva temas que incluam: a minimização da desigualdade social, o acesso a informação, o futuro da sociedade, a socialização da tecnologia e do saber científico-tecnológico, visando uma participação de todos nas decisões relativas à tecnologia.

2. Recortes da Realidade Brasileira: Sua Opção de Desenvolvimento

A partir das relações do homem com a realidade, resultantes de estar com ela e de estar nela, pelos atos de criação, recriação e decisão vai ele dinamizando o seu mundo. Vai dominando a realidade, vai humanizando-a. Vai acrescentando a ela algo de que ele mesmo é o fazedor. (...) Faz cultura. (Paulo Freire)

Muitas vezes, na ânsia do progresso científico e tecnológico, não se leva em consideração as implicações sociais relacionadas. Se faz opções que desconsideram questões de suma importância para a sociedade e para os seres humanos nela inseridos.

As opções de uma sociedade por um caminho para seu desenvolvimento tem implicações em sua estrutura política, econômica, social e cultural. Certas escolhas podem trazer prejuízos para a própria classe que decide e se beneficia das decisões.

O resgate do contexto histórico, social, cultural, político e econômico da sociedade brasileira frente a sua opção de desenvolvimento nos mostra que esta vem sofrendo crises em diversos áreas, principalmente na social. Crises estas com origem em decisões, projetos e escolhas feitas no passado, e relativas não apenas aos meios escolhidos, mas também aos fins a que se propunha a sociedade. (Buarque, 1994)

Na busca pelo desenvolvimento rápido e, muitas vezes eleitoreiro, o país não seguiu um processo gradativo de mudanças. Teve a expectativa de um desenvolvimento imediato e desse modo, fez algumas opções, tal como: em poucas décadas sair de uma estrutura basicamente rural, exportadora de produtos agrícolas, para uma estrutura urbana, industrial e exportadora de produtos manufaturados.

Diferente de outros países, que antes da industrialização fizeram uma revolução agrícola, o Brasil, sem modificar sua estrutura agrária, desenvolveu uma economia descomprometida e isolada dos trabalhadores rurais e sem a produtividade para alimentar os trabalhadores urbanos. Segundo Buarque (1994) essa opção foi a responsável por grande parte do desastre que vive a economia e a sociedade brasileira hoje, tendo como conseqüências explosão urbana, violência, inflação, fome, desemprego, desarticulação cultural, instabilidade social, dentre outras.

Além de não realizar a reforma agrária, no processo de industrialização, o país optou por desconsiderar as alternativas nacionais passando a importar técnicas disponíveis no exterior, desprovidas de sintonia com as necessidades da população brasileira e a realidade do país; sem a menor adaptação às características nacionais, longe de qualquer questionamento se esse processo conduziria à superação de nossas próprias carências e ao melhor aproveitamento de nossas potencialidades. “O país preferiu identificar seu projeto nacional com a própria técnica importada, e caminhou para simplesmente imitar as técnicas estrangeiras dos países-com-maioria-rica”. (Buarque, 1994, p. 29). Nos parece que, neste aspecto, as escolas que trabalham com a educação tecnológica tiveram contribuição significativa num erro estratégico que até hoje vem nos cobrando um preço muito alto pelas significativas mazelas produzidas na sociedade brasileira. Alguns exemplos onde um direcionamento diferenciado no Ensino Tecnológico teria tido influências decisivas: o Brasil dispunha de carvão vegetal, mas implantou a siderurgia com base no carvão mineral, optou pelo transporte rodoviário abandonando navegação de cabotagem, hidrovias e ferrovias, ou seja, não usou o seu potencial contextualizado e até hoje continua a agravar estes problemas.

O nosso modelo de industrialização seguiu o modelo de absorção das tecnologias estrangeiras e desse modo foi formando sua sociedade de acordo com os moldes que melhor serviam ao seu avanço, em diversas situações irracional. A importação não se limitou aos métodos de produção, avançou nas necessidades, ou seja, em todas as formas de conhecimento; ela se deu em nível micro nos métodos de produção, e em nível macro no estilo de sociedade.

A adoção do modelo de industrialização, com absorção de tecnologia externa, levou-nos a um padrão de consumo excludente que afastou do mercado, e da cidadania a maioria da população brasileira, pois, este padrão, pressupõe o aumento de poder de consumo de uma minoria (rica) e não a incorporação da maioria (pobre).

O sonho da industrialização e da urbanização, nos foi formulado como uma resposta ao atraso, a pobreza. O esforço em alcançá-las seria compensador na medida em que eliminaria essas mazelas (Benjamim et al., 1998). Em função desse sentimento, o país, concentrou esforços e rendas na infra estrutura econômica a qual permitiria à chegada mais rápida dos avanços, desenvolvendo dessa forma uma modernidade essencialmente técnica sem levar em consideração valores éticos e objetivos sociais. Como não tínhamos recursos para investir tanto na área econômica quanto na social, optou-se pela econômica.

A conseqüência da opção pela infra estrutura econômica em detrimento da área social foi “um país que chegou a ser a oitava potência econômica do planeta e ao mesmo tempo a penúltima sociedade em educação e saúde, a pior em concentração da renda, e uma das mais sofridas em fome e violência” (Buarque, 1994, p. 56).

A comprovação disso tudo pode ser buscada nestas afirmações que encontramos em Buarque (1994, p. 97-99) que demonstra o que essa modernidade técnica significou para a sociedade brasileira:

Percebe-se com tudo isso que, no Brasil, o progresso tecnológico, expresso em termos de investimentos em ciência e tecnologia, se mostrou relativamente eficiente, e no entanto está dissociado da melhoria da qualidade de vida pois está condicionado pelo fato de que a grande maioria do povo permanece excluída dos efeitos da modernização. Os processos atuais que aceleram a modernização de uma parte da sociedade aceleram também – em muito maior escala – a exclusão econômica e o atraso social em todas as suas múltiplas formas, tendo como resultado o aumento da heterogeneidade social e a produção de uma exclusão social. Assim, de forma desigual, em todas as regiões brasileiras, mais urbanas ou mais rurais, estão presentes setores modernos, articulados com mercados globais, ao mesmo tempo que em todas, permanecem marginalizados grandes contingentes populacionais. “Nesse mosaico, modernidade e atraso se misturam, inseparáveis, como faces de um mesmo modelo” (Benjamin et al., p. 82).

Acreditamos que, embora em nosso país o esforço tecnológico esteja divorciado dos aspectos sociais, ainda há possibilidade de integrá-lo ao crescimento social, pois o Brasil, por suas características, não é um país qualquer. O que ocorre é que a população, sem educação para isso, desacostumou-se a refletir sobre si mesmo, acerca de suas necessidades, possibilidades e contribuições tecnológicas para o cenário mundial.

Entendemos, pois, que embora o país tenha feito uma opção equivocada de desenvolvimento, é chegada a hora de dar uma guinada neste processo. Ainda que de forma um pouco lenta o nosso país tem potencial humano e tecnológico para entrar num processo de desenvolvimento real, ou seja, com a inclusão de todos os setores da sociedade. Para tanto se faz necessário buscar uma maior equidade de distribuição de renda e socialização de acesso aos frutos do desenvolvimento e uma educação mais reflexiva. Em especial nas escolas que trabalham a tecnologia. E nessa perspectiva temos que ser pluralistas para incrementar um processo educacional intensivo onde os avanços tecnológicos sejam difundidos, discutidos, assimilados e, e em certas situações, reprocessados internamente e integrados à cultura nacional.

3. Alternativas de Socialização da Tecnologia

Criar uma nova cultura não significa apenas fazer individualmente descobertas originais; significa também e sobretudo difundir criticamente verdades já descobertas, socializá-las por assim dizer; transformá-las portanto em bases de ações vitais, um elemento de coordenação e de ordem intelectual e moral. (Antonio Gramsci)

A interferência da tecnologia na vida do ser humano é incontestável, tanto positiva quanto negativamente. Assim sendo não basta utilizar bem as tecnologias, faz-se necessários recriá-las, assumir a produção e a condução tecnológica de modo a refletir sobre a sua ação em nossas vidas.

Devemos parar e perguntar qual o espaço que o ser humano (em todos as suas dimensões) ocupa no pensar a tecnologia? Como estão sendo tratados o meio ambiente e o ser humano dentro das pesquisas tecnológicas? Qual a participação da população nas decisões acerca dos avanços tecnológicos? Como o Brasil está tratando os impactos oriundos da tecnologia, na sociedade?

Como vimos anteriormente, de modo geral e ao longo da história brasileira os governos preferiram identificar o processo de industrialização a um modelo de absorção/incorporação de tecnologia oriundas de países desenvolvidos. Junto a estas tecnologias, muitas vezes sem a devida adaptação aos padrões nacionais, absorvemos modelos e comportamentos culturalmente aceitos em outras sociedades, os quais, em sua grande maioria, inadequados a nossa maneira de ser e de viver, condicionando-nos aos padrões estrangeiros.

Este caminhar da sociedade, pautado no desenvolvimento tecnológico, não questionado, desprovido de reflexão, somente acentua a exclusão e aumenta ainda mais a desigualdade social.

Normalmente não encontramos análises, reflexões escritas sobre o tema: impactos sociais dos avanços tecnológicos na sociedade brasileira. Os ensaios existentes são tímidos e isolados, emerge a necessidade de provocarmos um pouco mais a população no tocante a sua participação no futuro da humanidade, de criarmos uma cultura de socialização dos benefícios e de diminuição dos malefícios sociais causados pelas inovações tecnológicas.

Nesta etapa do trabalho objetivamos, então, resgatar alternativas apresentadas por autores, nacionais e estrangeiros, que aprofundam o tema Ciência, Tecnologia e Sociedade, e através delas elaboramos uma proposta de trabalho educativo. Todas as alternativas aqui destacadas possuem o intuito de levar a nossa sociedade a uma participação mais efetiva no desenvolvimento tecnológico associado ao desenvolvimento social do país.

São muitos os olhares e muitos os saberes envolvidos na discussão e proposição de alternativas que não só socializem as tecnologias, mas principalmente amenizem os efeitos dos seus malefícios na vida humana. Para desencadear tal estudo, num país em que isso ainda é muito incipiente, a contribuição de alguns autores, que de uma forma ou de outra apontam suas opções como possibilidades de modificar a situação atual, podem ser de fundamental importância.

Winner (1987) propõe que se reflita sobre a possibilidade ou não, de a sociedade estabelecer formas e limites para a mudança tecnológica, que surjam de uma idéia articulada positivamente do que a sociedade deveria ser, isto significa que embora importante, não deveríamos prestar atenção somente à fabricação de instrumentos e processos físicos, mas também à produção de condições psicológicas, sociais e políticas como parte de qualquer mudança técnica significativa. Assim sendo, ele propõe a “filosofia da tecnologia”, que tem a tarefa fundamental de examinar de forma crítica a natureza e o significado das contribuições artificiais para a atividade humana. Esta nos leva a pensar sobre “como podemos limitar a tecnologia de modo a equipará-la com nosso sentido de quem somos e que tipo de mundo queremos construir?”

Sanmartín (1990) com a mesma preocupação de refletir sobre as implicações sociais dos avanços da tecnologia na vida do ser humano, propõe uma valoração global da tecnologia que denomina de “avaliação filosófica”. Afirma que é importante avaliar filosoficamente, pois esta avaliação permite esclarecer a trama de especulações que podem encontrar-se na própria base de uma intervenção tecnológica - cientificamente recomendada. Destaca que essa análise global deva ser complementada com valorações específicas das distintas aplicações particulares das tecnologias de que se trate, para conhecer os impactos e riscos ambientais e sociais, mais imediatos. E que “uma vez tecnicamente feitas estas valorações - e como uma parte a mais do processo de avaliação técnica - dever-se-ia dar voz à sociedade, para que ela manifeste seus desejos”, pois, não é somente aos “especialistas” que afeta o que tecnologicamente façamos com nossa terra.

Pacey (1990) concretiza um pouco mais as propostas, abordando-as diretamente no campo educacional. Ele aponta a importância de uma melhor educação em ciência e tecnologia, tanto para o cidadão quanto para os profissionais da tecnologia, sendo necessário que se revise toda filosofia da educação, incluindo livros textos e outros recursos para aprendizagem. Isso deve ser feito de modo a possibilitar a apresentação de uma visão integrada da prática tecnológica em lugar de uma visão de túnel - uma visão da tecnologia que se inicia e termina com a máquina - enfocada exclusivamente em seus aspectos técnicos. Assim para que ocorra a visão integrada da prática tecnológica é necessário que as disciplinas sejam trabalhadas de forma interdisciplinar e contextualizadas.

Postman (1994) nesta mesma perspectiva educacional propõe um currículo escolar, no qual todas as matérias sejam apresentadas como um estágio no desenvolvimento histórico da humanidade, no qual sejam ensinadas as filosofias da ciência, da história, da linguagem, da tecnologia e da religião; onde haja forte ênfase nas formas clássicas da expressão artística. Postman entende que precisamos de estudantes que compreendam as relações entre nossas técnicas e nossos mundos social e psíquico, de modo que possam iniciar conversas informadas sobre onde a tecnologia está nos levando e como. Para tanto propõe incluir dois temas indispensáveis para compreensão de onde viemos: “a história da tecnologia que, tanto como a ciência e a arte, produz parte da história do confronto da humanidade com a natureza” e, de fato, com nossas próprias limitações; e “a religião, com a qual estão entrelaçadas a pintura, a música, a tecnologia, a arquitetura, a literatura e a ciência”.

Buarque (1994) é um dos autores nacionais, que melhor aborda o tema no tocante à a realidade brasileira. Afirma que no Brasil, quando se propõe mudanças, em geral, não se discute para onde ir, e se pensa apenas no desenvolvimento para uma sociedade rica, de consumo de massas, industrial e urbana, com preocupação na maioria das vezes somente na área econômica. Para o autor devemos procurar caminhar, avançar de uma modernidade essencialmente técnica para uma modernidade ética, baseada em valores éticos e objetivos sociais que permitam definir as intenções a serem concretizadas e, então, as prioridades e as medidas a serem executadas. Buarque aponta dez intenções da construção de uma modernidade ética e ligadas a elas dez prioridades, que para o enriquecimento deste trabalho enumeramos a seguir:

1. Modernidade é uma população educada e culta - Educação

2. Modernidade é um país sem fome - Alimentação

3. Modernidade é não morrer antes do tempo e viver com saúde – Saúde

4. Modernização da cultura em vez da cultura da modernidade - Cultura

5. Uma ciência e tecnologia modernas tecnicamente - Tecnologia adaptada

6. A modernidade tem que ser permanente - Meio Ambiente

7. Modernidade é uma ocupação descentralizada do território nacional, com cidades pacíficas e bem organizadas - Descentralização

8. Não há modernidade sem eficiência econômica comprometida eticamente - Eficiência

9. A modernidade do Estado é a sua ética - O Estado

10. A modernidade é uma política externa independente que garanta a soberania nacional e seja um instrumento de reordenação da modernidade técnica para uma modernidade ética - Soberania

Ao concluir sua proposta, Buarque alerta: se caso o país continuar com o atual modelo de crescimento, o futuro do Brasil será parecido com o do planeta, implantando a segregação social, explicitando a apartação entre ricos modernos e pobres atrasados. Se rejeitar essa alternativa invertendo o caminho, poderá tornar-se um retrato do que o mundo futuro pode vir a ser. Para tanto precisa elaborar um projeto em que a ética e a democracia se casem, numa sociedade que respeite as liberdades individuais, na ampliação do patrimônio cultural, assegure o equilíbrio ecológico, sem abandonar, mas considerando o sonho de consumo supérfluo como parte da meta civilizatória.

Benjamin (1998) nesta mesma ótica, assinala que o problema a ser atacado é o divórcio entre povo e nação, e assim, para que o processo de construção do país se complete o eixo deve deslocar-se para a população em si mesma, pois vê a imensa maioria marginalizada como potencial humano de possibilidades de futuro. Afirma que “sua elevação à condição cidadã é, de longe, o nosso principal desafio”. Como proposta para que possamos repensar o sentido de nossa história atual, destaca cinco compromissos necessários:

Compromisso com a soberania - determinação diante de nós e do mundo, na busca de um grau suficiente de autonomia decisória; Compromisso com a solidariedade - é preciso continuar em novas bases para edificação da nação de cidadãos, eliminando a exclusão social e as chocantes desigualdades na distribuição da riqueza, da renda, do poder e da cultura; Compromisso com o desenvolvimento - necessidade de mobilização de todos nossos recursos produtivos e não aceitação de imposições internas ou externas, de políticas que frustrem nosso potencial; Compromisso com a sustentabilidade - necessidade de buscar estilo de desenvolvimento que seja ético e aliado às gerações futuras, deixando de ser cópia de modelo socialmente injusto e ecologicamente incorreto; Compromisso com democracia ampliada - refundação do sistema político de modo a incluir o resgate a dignidade da função pública em todos os níveis.

Assim, destaca, “não há dificuldade técnica extraordinária para se pensar outro caminho de desenvolvimento para o Brasil (...). A verdadeira limitação é política e cultural, ligada à necessidade de criação de uma poderosa vontade nacional para a mudança”. Esta proposta será formulada num processo de realização, “com o povo imprimindo sua marca participante na refundação da nação”

Bazzo (1998) defende que devemos caminhar na perspectiva de uma Mudança Cultural, onde o desenvolvimento científico-tecnológico venha imbricado ao desenvolvimento de toda a sociedade. Para tanto, propõe que se adote uma nova abordagem no ensino tecnológico, onde os alunos recebam não só conhecimentos e habilidades para o exercício de uma profissão, mas elementos que os leve a pensar, num processo coletivo, nos resultados e conseqüências sociais e ambientais das inovações científico-tecnológicas. Esta abordagem requer uma restruturação das práticas didático-pedagógicas, através de uma nova postura epistemológica dos professores. Desse modo a educação estará contribuindo para a “formação de profissionais com discernimento no trato da ciência e da tecnologia não apenas como instrumento de poder, mas sim de desenvolvimento humano”.

Deste resgate teórico podemos observar que, o que se destaca nas diversas propostas destes autores (os estrangeiros em especial) que questionam a interferência da tecnologia, ou da “modernidade técnica” na vida humana, é a necessidade de envolver, nestas reflexões, as questões sociais e administrativas, ou aspectos culturais e organizacionais como destaca Pacey (1990), abandonando a visão de túnel da engenharia. Em todas a propostas evidencia-se a necessidade de uma mudança cultural, uma mudança de postura frente as tecnologias, uma mudança do paradigma daqueles envolvidos na produção e aplicação da tecnologia. Pouco destaque se dá para a postura da população.

Já, no Brasil, o que é enfatizado, além dos aspectos realçados na literatura internaconal, é a necessária mobilização de toda a nação, sejam os técnicos, os políticos, os “ricos modernos” e os “pobres atrasados”, para que se reduzam as diferenças econômicas, políticas e sociais, avançando, desse modo, num desenvolvimento ideal.

4. Considerações finais

Com base nestas considerações e/ou alternativas, levantadas pelos diversos autores pesquisados, entendemos que não devemos apenas refletir/aprofundar sobre as repercussões da tecnologia na vida humana, sejam elas positivas ou negativas, mas sim avançar na perspectiva da construção de caminhos que levem a uma verdadeira "redução sociológica" das inovações e assim tornar as tecnologias adaptadas e por conseqüência aceitas socialmente. É sob esta ótica que vemos a educação como o caminho para a mobilização, para a formação de uma consciência crítica, destacada por Acevedo (1996) e de suma importância frente aos impactos sociais originados pela tecnologia, uma consciência que lhes permita a participação pública e uma ação social efetiva.

Destacamos a educação como o caminho, não desejando trabalhar aqui uma visão reducionista de que tudo se resolve através dela, mas com a certeza de que de uma forma ou de outra a solução passa pela educação. O que se propõe é uma educação que extrapole os muros da escola em todos os níveis, alcançando a sociedade na sua plenitude envolvendo aqueles que tem acesso quanto aqueles que não tem acesso aos bancos escolares, tendo como intento ampliar e aprofundar o diálogo com as ciências sociais, levando à reflexão e a transformação cultural frente os avanços tecnológicos. Uma educação que envolva tanto produtores como usuários de tecnologias, pois não é somente aos técnicos - “especialistas” - que afeta o que tecnologicamente fazemos com nosso habitat.

É necessário que se faça uma educação voltada a conscientizar os técnicos de que é urgente questionar sobre o tipo de mundo que queremos construir, e que os estudos que desenvolvem serão aplicados em favor ou contra a construção do mundo que esperam. Pois, o cientista é também cidadão, sendo assim, não pode ser indiferente no seu trabalho, procurando sempre que as suas descobertas não comprometam a existência e a integridade dos seres humanos, nem os meios que eles precisam para se desenvolver normalmente no planeta (Acosta-Hoyos; Guerrero, 1985).

Na busca da redução ou eliminação do sonambulismo tecnológico, o que propomos é uma educação que envolva tanto o âmbito formal quanto o popular. Neste sentido, além de superar a visão de túnel dos especialistas, o que se pretende é desenvolver a cidadania da população. Desenvolvimento este que os leve a refletir sobre o seu papel no mundo e o papel daqueles que detêm o poder em suas vidas, de modo a tomarem consciência do que esperam do mundo/país onde vivem e como se vêm nesse mundo, resultando numa maior participação nas decisões que envolvem a sua vida enquanto cidadãos.

Assim sendo, seja na educação tecnológica, na formal e/ou na popular, o que se propõe neste ensaio é um esforço dos educadores em busca de uma educação orientada para a reflexão da realidade que leva à conscientização, seguida da participação efetiva na sociedade, processo que tem como resultado uma mudança cultural.

5. Referências Bibliográficas

ACEVEDO, J. A. La tecnología en las relaciones CTS. una aproximación al tema. Enseñaza de las ciencias, [S.L.], v. 14, n. 1, p. 35-44, 1996.

ACOSTA-HOYOS; Luis E.; GUERRERO GUTIERREZ, José Solon de J. Tecnologia e qualidade de vida (uma polêmica de nosso tempo). Viçosa: Imprensa Universitária da UFV, 1985.

BAZZO, Walter Antonio. Ciência tecnologia e sociedade e o contexto da educação tecnológica. Florianópolis, SC: Editora da UFSC, 1998.

BENJAMIN, César et al. A opção brasileira. Rio Janeiro: Contraponto, 1998.

BUARQUE, Cristovam. A revolução nas prioridades: da modernidade técnica à modernidade ética. São Paulo: Paz e Terra, 1994.

FREIRE, Paulo. Educação e mudança. 3a. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

MITCHAM, Carl. Cuestiones éticas en ciencia y tecnologia: análisis introductorio y bibliografía. In: GARCÍA, Marta I. González.; CEREZO, José A. López.; LÓPEZ, José L. Luján. Ciência, tecnología y sociedad: una introducción al estudio social de la ciencia y la tecnologia. Madrid: Tecnos, 1996.

PACEY, Arnold. La cultura de La tecnología. Trad. Rogelio Ríos Herrán. México: Fondo de Cultura Econômica, 1990.

POSTMAN, Neil. Tecnopólio: a rendição da cultura à tecnologia. Trad. de Reinaldo Guarany. São Paulo: Nobel, 1994.

SANMARTÍN, José. Tecnologia y futuro humano. Barcelona: Anthropos, 1990.

WINNER, Langdon. La ballena y el reactor. Barcelona: Gedisa, 1987.

ZARTH, Paulo Afonso et. al. Os caminhos da exclusão social. Ijuí: Editora UNIJUÍ, 1998.

Notas

(1) Ciliana R. Colombo, Walter A. Bazzo
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
Campus Universitário – Trindade
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