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O discurso dos indicadores de C&T e de sua percepção

20 de marzo de 2015

Por Carlos Vogt e Ana Paula Morales LABJOR.
A cultura científica poderia ser entendida como o conjunto de processos relacionados à ciência e à tecnologia (C&T) que engloba desde a produção do conhecimento até a divulgação científica. Tais processos e ações são complexos, possuem mecanismos próprios de funcionamento e relacionam-se entre si, em um mesmo tempo, mas também ao longo dele.

A espiral da cultura científica (Vogt, 2012) constitui uma metáfora para a representação da dinâmica e da relação entre esses fatos, ações e eventos compreendidos pela cultura científica (Fig. 1). Dois eixos perpendiculares, um na vertical e outro na horizontal, definem e opõem quatro quadrantes, pelos quais percorre continuamente a linha espiralada. O primeiro quadrante, ponto de origem da espiral, contém as ações voltadas para a produção e a disseminação da ciência, a saber, espaços nos quais cientistas são, do ponto de vista da comunicação, locutores e destinatários da ciência, por meio de artigos e eventos científicos, tais como congressos, simpósios e reuniões de associações.

O segundo quadrante, do ensino de ciência e treinamento de cientistas, é configurado pela entrega de informações de cientistas e professores aos estudantes de diferentes níveis, desde a educação básica até a pós-graduação. Atividades voltadas para o ensino para a ciência ocupam o terceiro quadrante, no qual cientistas-divulgadores, professores e centros/eventos como museus e feiras de ciências, por exemplo, levam a C&T aos estudantes e público majoritariamente jovem. Por fim, o quarto quadrante representa a divulgação científica mais ampla praticada por jornalistas e pesquisadores, que tem a sociedade em geral como interlocutora.

Em todos os processos que fazem da parte da dinâmica da cultura científica e que podem ser representados nos quadrantes acima mencionados, a comunicação tem um papel fundamental, seja para a disseminação e a consolidação de novos conhecimentos, para a difusão e a divulgação de conteúdos e saberes científicos e tecnológicos, bem como para a educação. Nesse sentido, o primeiro e o segundo quadrantes – respectivamente, da produção e disseminação da ciência e do ensino de ciência e treinamento de cientistas –, localizados abaixo do eixo horizontal que os define, configuram os espaços de produção e reprodução da ciência. A natureza da audiência em ambos os casos é caracterizada como esotérica, ou seja, reservada a grupos restritos. Em oposição, os quadrantes três e quatro (do ensino para a ciência e da divulgação científica), localizados acima do eixo horizontal, são os da apropriação da ciência; e a audiência, nesses casos, é caracterizada como exotérica, ou seja, ampla, aberta e irrestrita.

O eixo vertical, que por sua vez delimita, à direita, os quadrantes um e quatro, e à esquerda, os quadrantes dois e três, opõe os dois grupos também por aspectos qualitativos dos discursos inerentes aos processos contidos em cada um deles. No primeiro grupo, à direita do eixo, o discurso é polissêmico e polifônico, em que várias vozes se pronunciam de forma concomitante (sejam cientistas falando para cientistas, no quadrante um; sejam jornalistas e pesquisadores falando para o público em geral, no quadrante quatro). E, do outro lado, o discurso monossêmico e monofônico, com característica educacional, próprio do ensino de ciência e treinamento de cientistas e do ensino para a ciência.


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A espiral da cultura científica, reprodução e adaptação de Vogt, 2012.

II

As ações, os eventos e os processos pertencentes à cultura científica, exemplificados nos quadrantes da espiral, podem e são mensurados, gerando indicadores, conforme também já demostrado (Vogt, 2012). Tais indicadores relacionados a temas de C&T podem ser reunidos em dois grandes grupos. Um deles é composto pelos indicadores de C&T, há tempos utilizados como medidas da produção de ciência e tecnologia, de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e da inovação das diferentes nações e regiões, e que norteiam políticas públicas relacionadas ao tema. Neste grupo estão dados relativos a investimentos em C&T e em P&D, bem como estatísticas sobre publicações científicas, patentes, formação de recursos humanos qualificados (como o número de doutores formados), entre outros. A medida de atividades científicas e tecnológicas se dá por meio de questionários, cujos procedimentos para a aplicação são consolidados por publicações, como por exemplo, os manuais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): Manual de Oslo, para inovação; Manual Frascati, para P&D; Manual de Canberra, para recursos humanos, e Manual de Patentes.

O segundo grupo é o dos indicadores de percepção de C&T, produzidos a partir de pesquisas de percepção pública da C&T que mensuram o grau de interesse, informação, atitudes, apropriação, participação e valoração em relação à ciência por parte da população de certa região, em determinado período. Estudos de opinião pública sobre temas relacionados a C&T são realizados regularmente desde meados da década de 1980, nos Estados Unidos, pela Fundação Nacional de Ciência (NSF, do inglês), e a partir dos anos 1990, na Europa, pela Comissão Europeia. Mais recentemente, no entanto, pesquisas nesse sentido têm se consolidado também em outras regiões do globo, e têm como propósito orientar políticas públicas que visem à participação e ao engajamento público em temas científicos e tecnológicos.

III

Se os discursos próprios dos processos compreendidos na dinâmica da cultura científica podem ser caracterizados em função da natureza do público e de aspectos qualitativos das vozes que os compõem, conforme demostrado na primeira parte deste artigo, os dois grupos de indicadores poderiam também ser caracterizados pelos seus discursos. A hipótese aqui apresentada é a de que os indicadores se expressam por discursos distintos, com formas de articulação também distintas, mas complementares.

Todo enunciado poderia ser considerado uma representação de uma representação, na medida em que, simultaneamente, representa (ou descreve) um estado de coisas no mundo e representa sua própria enunciação, pela forma que o faz. No caso dos indicadores, eles podem representar, por exemplo, a produção científica de um país através do número de artigos científicos publicados por pesquisadores de certa nacionalidade em periódicos indexados, ou, em outro exemplo, representar o percentual de determinada população que considera a C&T como prioridade para investimentos de impostos.

Os enunciados dos indicadores aqui tratados são geralmente afirmações, cuja forma de apresentação pode mostrar o grau de comprometimento do falante com a verdade do que é dito. Do ponto de vista da teoria dos atos de fala (Searle, 1969), uma asserção ou afirmação é um ato de enunciação que deve satisfazer as seguintes condições: a) enunciar uma verdade, isto é, afirmar a verdade do que é dito no enunciado; b) trazer o compromisso de quem diz com a verdade do que é dito; c) estar em condições de oferecer provas da verdade do que se diz; d) dizer algo que traga alguma novidade de informação e interesse ao interlocutor. São as condições de felicidade para que se realize plenamente o ato ilocucionário da asserção, que, segundo a hipótese aqui apresentada, constitui o enunciado próprio dos indicadores de C&T.

A forma do dizer é o que estabelece a possibilidade de tratar o enunciado não apenas como um enunciado de conteúdo sobre o mundo, mas de enunciados que dão também uma noção de como o locutor se relaciona com o mundo e como ele espera que o outro se relacione com aquilo que é dito. Não se trata, portanto, somente de uma apresentação do estado das coisas do mundo, mas uma forma de apresentação dessa representação para o outro.

O enunciado típico dos indicadores de C&T é, portanto, conforme dissemos, a afirmação. E seu discurso é o de conteúdo, ou seja, da descrição do estado das coisas, da descrição da produção científica, da inovação, da P&D de um país. A linguagem dos indicadores de C&T funciona no registro do dizer, do descrever, do explicitar, do contar.

Os indicadores de C&T têm, no entanto, uma propriedade que é característica própria da afirmação; ou seja, são formas de enunciado que tendem a disfarçar a presença de quem enuncia, e tendem a apresentar-se como que enunciados por si próprios, eludindo os traços de subjetividade que caracterizam as marcas de sua enunciação. Dizer algo sem mostrar-se dizendo-o é uma situação particular de discurso na qual, em nome da objetividade e da verdade, se pretende apagar programaticamente as origens da enunciação, apresentando o enunciado como se dito por ele próprio. Caso, por exemplo, do discurso demonstrativo da ciência.

A forma com que uma afirmação é apresentada também atribui a ela outra característica, a de autoridade. Consideremos a exclamação Avançada, a ciência neste país!. Se a transformamos em uma afirmação pura, o enunciado seria A ciência neste país é avançada. Neste caso, o locutor descreve a situação da ciência no país em questão, ou, se for o caso, declara abertamente a sua opinião. No primeiro caso, da exclamação, no entanto, a opinião do falante apenas a implica. A autoridade e a certeza com que o falante se apresenta para o ouvinte é, portanto, indicada explicitamente pelo verbo é, presente na afirmação pura.

Sendo a expressão dos indicadores constituídas por enunciados afirmativos, eles são, portanto, representações de representações relativas ao estado da C&T ou da percepção das pessoas em relação a C&T. No primeiro caso, dos indicadores de C&T, as asserções tendem a ser formuladas pela atribuição direta do predicado ao sujeito através do verbo ser no presente do indicativo, estrutura que, pela forma da objetividade do enunciado, sustenta a autoridade de sua enunciação. Para descrever a produção científica de um país, por exemplo, afirma-se que O total de artigos publicados em revistas científicas indexadas é de X. No caso da inovação, O número de patentes depositadas é de Y; e assim por diante.

Os indicadores de C&T satisfazem, portanto, todas as premissas que caracterizam a afirmação pura, ou seja, a verdade, a sinceridade, a possibilidade de comprovação e a informatividade.

IV

O enunciado-tipo dos indicadores de percepção da C&T, por sua vez, é o da afirmação modalizada sob a forma de: X acha que O é Y (sendo X = sujeito; O = objeto; Y = qualidade). A modalização de uma enunciação permite explicitar as posições do sujeito falante em relação a seu interlocutor, a ele mesmo e a seu propósito. É a marca que o sujeito deixa no seu discurso.

A linguagem, no contexto dos indicadores de percepção de C&T, apresenta uma especificidade mais genérica, da ordem do mostrar, do indicar, em contraposição à ordem do descrever, contar e dizer da linguagem dos indicadores de C&T.

Dessa forma, o discurso dos indicadores de percepção de C&T é um discurso menos de conteúdo e mais da forma pela qual e na qual esses conteúdos se relacionam com o enunciador, e consequentemente estabelece as relações entre enunciador e o interlocutor. Ou seja, não se esconde a presença de quem enuncia; ao contrário, o discurso afirma o tempo inteiro a relação locutor/interlocutor.

O enunciado-tipo dos indicadores de percepção da C&T (X acha que O é Y) admite duas descrições – características do verbo achar (Vogt, 1984) – em termos do que o enunciado pressupõe e do que ele põe, isto é, isto é, do que afirma:

1ª) Pressuposição: X não teve ou não se lembra de ter tido experiência com a propriedade de O expressa em Y.

Afirmação/pressuposição: Para X, é provável que O seja Y.

2ª) Posição, emissão de juízo: X teve experiência com a propriedade de O expressa em Y.

Afirmação (P)/posição: Para X, o é Y.

Nesse sentido, pode-se dizer que uma enunciação do tipo X acha que O é Y expressa ou uma apreciação baseada naquilo que o sujeito (X) sabe do objeto (O), em relação à qualidade (Y) que lhe é predicada; ou um palpite baseado num dado, numa informação, que não decorre da experiência do sujeito (X) com o objeto (O).

O palpite é fundamentado por evidências indiretas como, por exemplo, sinais exteriores da qualidade do objeto, como “fila longa” para “restaurante bom”, “livro importado” para “livro caro” etc.

A apreciação, por sua vez, pode também estar baseada numa experiência indireta do objeto, como quando se diz Acho este aluno inteligente com fundamento no seu boletim de notas e não necessariamente no conhecimento direto que se tenha dele.

De qualquer forma, a apreciação tem uma estrutura de significação um pouco mais complexa do que a apresentada anteriormente e que poderia ser melhor representada da seguinte maneira:

PP: X teve experiência com a propriedade de O expressa em Y
PP: X sabe situar O na escala avaliatória relativa à propriedade expressa por Y.
P: Para X, O é Y.

Em francês, o verbo trouver não pode ser usado num enunciado de palpite e corresponde ao uso de achar que em português expressa um julgamento, uma apreciação, uma posição.

Do ponto de vista dos indicadores de percepção da C&T, os enunciados que os expressam têm todos, semanticamente, a estrutura de uma asserção modalizada pelo verbo achar, onde seus equivalentes em outras línguas, com a dupla acepção própria dessa estrutura, ou seja, do palpite, ou da apreciação.

Desse modo, as perguntas que compõem os questionários das enquetes e que se distribuem pelos eixos clássicos que buscam medir ou as atitudes, o interesse, a informação e o conhecimento e a apropriação/valoração social da C&T poderiam ser distribuídos por duas grandes categorias de enunciados, considerando os tipos de respostas que possibilitam. São respostas afirmativas, modalizadas pelo verbo achar, ou o equivalente, em outras línguas, e que constituem enunciados de palpite ou de apreciações.

Assim, tomemos como exemplo uma questão comum em surveys de percepção pública da C&T relativa ao investimento público em determinados setores. A pergunta Para quais setores você aumentaria os investimentos da verba arrecada em impostos? permitira como resultado o enunciado: X% da população aumentariam os investimentos públicos em C&T. Ou: X% da população acham que os investimentos públicos em C&T devem ser aumentados. O enunciado, dessa forma, apresenta-se modalizado pelo verbo achar e poderia ser interpretado das duas formas acima descritas. Uma possibilidade pressupõe que o locutor/entrevistado teve experiência (direta ou indireta) relacionada ao financiamento da C&T em seu país e, portanto, sua resposta é uma apreciação/posição sobre o assunto. O enunciado, nesse sentido, poderia ser: Para X% da população, o investimento público em C&T deve ser aumentado.

Outra possibilidade é a de que o locutor/entrevistado não tenha tido ou não se lembre de ter tido experiência relacionada ao financiamento da C&T em seu país. Nesse caso, a resposta seria um palpite a respeito do assunto, e caberia o seguinte anunciado como resultado: Para X% da população, é provável que o investimento público em C&T deva ser aumentado.

O enunciado da questão tomada como exemplo acima, apesar de não trazer o verbo achar explicitamente na formulação da pergunta, implica em uma resposta/resultado/indicador modalizado, na medida em que evidencia a posição do sujeito falante. Ou seja, a questão convida e o sujeito deve indicar quais setores ele acha que deveriam receber aumento no financiamento público, de acordo com sua posição ou palpite.

Em outros formatos de questões utilizadas nesse tipo de pesquisa, no entanto, uma afirmação pura e impessoal é transformada em uma enunciação subjetiva, na medida em que o entrevistado é convidado a se posicionar/opinar diante dela. Por exemplo, quando o entrevistado deve apontar o seu grau de concordância (em uma escala de 1 a 5, onde 1= discordo totalmente e 5 = concordo totalmente) em relação à afirmação: A ciência e a tecnologia tornam nossas vidas mais fáceis e saudáveis. O enunciado da questão, nesse caso, é uma afirmação pura e objetiva. Os indicadores formulados a partir dela, no entanto, são modalizados pelo verbo concordar, que faz às vezes do verbo achar utilizado na exemplificação. Ou seja, em um dos seus extremos, enunciado do resultado seria X% da população concorda totalmente que a ciência e a tecnologia tornam nossas vidas mais fáceis e saudáveis, sendo que a afirmação pode indicar a posição ou o palpite do sujeito falante, mediante sua experiência ou não com o assunto. Nesse sentido, é convertida numa enunciação subjetiva o fato antes afirmado impessoalmente.

Vale observar que, apesar da subjetividade conferida pela modalização do enunciado pela utilização de formas pessoais (como eu acho, eu concordo, eu suponho etc.), isso não modifica o ato de fala, que continua sendo uma afirmação. No entanto, se considerarmos o compromisso com a verdade como uma das características essenciais da afirmação, conforme listado anteriormente, nos enunciados com achar ocorre a atenuação do compromisso do falante com a verdade, bem como a atenuação de sua autoridade. Ou seja, quando digo que Acho que o financiamento de C&T deve ser aumentado, ou que Concordo totalmente que a ciência e a tecnologia tornam nossas vidas mais fáceis e saudáveis, indico ao ouvinte que não é legítimo que me peça provas definitivas daquilo que declaro.

Exemplos também são questões de surveys de percepção pública da C&T relacionadas aos risco e benefícios oferecidos pela pesquisa científica e tecnológica. Com formulações diversas de acordo com a pesquisa realizada, esse tipo de questão busca saber do entrevistado se ele considera que pesquisas científicas e tecnológicas oferecem muitos/poucos riscos/benefícios ou mais riscos que benefícios, tanto riscos como benefícios, mais benefícios que riscos. Ora, ao afirmar Eu acho que as pesquisas oferecem mais riscos que benefícios, por exemplo, apesar de fazer uma afirmação (que reflete a minha apreciação ou palpite), não dou margem para que me seja exigido comprovar o que digo, exatamente pela atenuação do compromisso com a verdade que o emprego do verbo achar possibilita.

Se considerarmos o compromisso com a verdade, no entanto, algumas perguntas dos surveys de percepção da C&T relacionadas aos hábitos da população tendem a se aproximar mais da linguagem dos indicadores de C&T, na medida em que apresentam um caráter mais descritivo. Por exemplo, uma pergunta sobre os hábitos informativos do entrevistado em que, por exemplo, a ele é apresentada uma listagem de tipos de programas de televisão (Que tipo de programas televisivos você assiste regularmente?), o resultado poderia ser apresentado da seguinte maneira: X% da população dizem assistir regularmente a documentários sobre ciência. Ou, ainda: A parcela da população que assiste a documentários sobre ciência regularmente é de X%. Em situações como esta, o enunciado se dá na forma de uma afirmação pura, impessoal; ou seja, de uma descrição objetiva do estado das coisas (dos hábitos informativos da população), sem a presença de um elemento modalizador, papel do verbo achar nos exemplos anteriores.

Da mesma forma, questões relacionadas ao interesse da população sobre determinados temas também entrariam nessa categoria, do enunciado puramente afirmativo, na ordem da descrição. A asserção, nesse caso, seria: X% dos entrevistados se interessam muito por temas de C&T. Ou: A parcela da população que se interessa muito por tema de C&T é de X%. Na pergunta relativa ao interesse da população utilizada como exemplo, apesar de o enunciado da questão ser geralmente modalizado (no caso, pelo verbo considerar: Diga o quanto você se considera interessado em C&T), não caberia um palpite como resposta, mas somente uma posição do falante em relação à sua experiência. E, mais importante, por se tratar de algo relacionado ao próprio locutor (seu interesse pelo tema C&T), o compromisso com a verdade não é atenuado, e o enunciado poderia, portanto, ser considerado da ordem do contar, descrever, dizer (característico dos indicadores de C&T).

É isso que diferencia o verbo achar, no sentido de apreciação, tanto do verbo achar, no sentido de palpite – ambos possibilidades de interpretação dos enunciados-tipo dos indicadores de percepção de C&T – como da afirmação pura característica do discurso dos indicadores de C&T. Dizer Eu acho que as pesquisas oferecem mais riscos que benefícios, no sentido de apreciação, poderia ser considerado, portanto, menos que uma afirmação, porque não pretende se apresentar com a certeza e autoridade próprias de quem afirma, de oferecer comprovação (o que aconteceria no caso da asserção As pesquisas oferecem mais riscos que benefícios, que poderia ser embasada em dados, por exemplo). Nisso, o achar-apreciação é parecido com o achar-palpite.

Já dizer Eu me considero/acho muito interessado em C&T, faz mais que uma afirmação, porque representa como único fundamento de sua própria opinião, com autoridade absoluta. E nisso é totalmente diferente de achar-palpite.

V

Essas duas formas de discursos que caracterizam os indicadores de C&T e os indicadores de percepção de C&T permitem refletir sobre a relação entre eles e a possibilidade de buscar estabelecer as formas dessa relação, tentando caracterizar com isso um novo tipo de indicador. Dessa forma, estaríamos lidando com três categorias diferentes de indicadores: o de realidade, descrito pela linguagem dos indicadores de C&T; o de subjetividade, descrito pelos indicadores de percepção de C&T; e o terceiro seria um dado de conformação da realidade que nasce da relação entre essas duas coisas. E que estamos querendo identificar como indicador de cultura científica.

Esse terceiro tipo de indicador se constituiria, portanto, pela relação que se estabelece entre o enunciado que afirma as crenças, atitudes etc. (indicadores de percepção de C&T) e o enunciado que descreve a situação (indicador de C&T). Essa relação permitiria enxergar o grau de coincidência ou o grau de dispersão que existe entre aquilo que é modalizado, na forma da enunciação dos indicadores de percepção, e aquilo que é afirmado, dito, descrito no enunciado dos indicadores de C&T.

Em resumo, nesse sentido, o indicador de cultura científica é:

- Teoricamente, um indicador que mensura o que há de C&T na cultura e o que há de cultura na C&T;
- Conceitualmente, um indicador relacional dos fatos de C&T e das formas de sua percepção pela sociedade num dado momento de sua história e da história da C&T;
- Metodologicamente, um indicador quantitativo que mede o grau de dispersão e de concentração da relação entre os indicadores de C&T e os de percepção pública da ciência;
- Tecnicamente, um indicador construído na relação entre os indicadores quantitativos de C&T e os indicadores de percepção pública da C&T;
- Ideologicamente, um indicador que resgata o arrependimento do segundo texto de C. P. Snow sobre as duas culturas e aponta, objetivamente, um critério para o entendimento e a compreensão das formas de sua fusão no mundo contemporâneo.

Referências

Searle, J. R, 1969. Os actos de fala: um ensaio de filosofia da linguagem. Trad. Carlos Vogt et al.. Coimbra: Almedina, 1981.

Vogt, C., 1984 “Dois verbos achar em português?”. Estudos de Semântica Aplicada ao Português, nº 1. Araraquara: Unesp; Linguagem pragmática e ideologia. São Paulo: Hucitec, 2 ed., 1989 – co-autoria com Rosa Attié Figueira.

Vogt, C., 2012. “The spiral of scientific culture and cultural well-being: Brazil and Ibero-America”. Public Understanding Science. Sage Publications, London, v. 21, nº 1. p. 4-16.

Nota
Artigo originalmente publicado em: LASPRA, Belén; MUÑOZ, Emílio (coords.). Culturas científicas e inovadoras. Progreso social. Buenos Aires: Eudeba, 2014, p. 127-138.

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