Brasileiros patenteiam soro antiveneno de abelha

Por Márcio Derbli. LABJOR. Pesquisadores do Instituto de Investigação em Imunologia – Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (iii-INCT) registraram a patente nacional definitiva do primeiro soro antiveneno de abelha do mundo. O soro deve começar a ser produzido ainda este ano pela Fundação Butantan após os testes finais de homogeneidade e a certificação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). O produto será distribuído principalmente para os hospitais públicos.

O soro é o resultado da tese de doutorado da pesquisadora Keity Souza Santos, realizada junto a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), sob orientação do bioquímico Mario Palma, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Rio Claro (SP) e co-orientação do médico Fábio Castro, da FMUSP. O produto será utilizado em pessoas que sofrerem ataque de enxame da Apis mellifera, espécie de abelha comum no país.

Os pesquisadores estão fazendo testes para confirmar a eficácia do soro em diferentes subespécies da Apis mellifera, as abelhas responsáveis pelos ataques, também conhecidas como africanizadas. Essas subespécies são comuns nas Américas, principalmente nas regiões tropicais. Segundo Palma, os dados preliminares indicam que o soro é eficaz também nas outras subespécies. ”Se funcionar bem, certamente o Brasil se tornará um exportador deste produto”, afirma o pesquisador. A exportação do soro estimulará o crescimento da produção, o que faz o custo do produto diminuir, hoje em torno de US$ 50 cada ampola.

Palma comenta que, no Brasil, patentes que se tornam produtos são raras. “Isso é importante, não tanto pelo lucro, mas por capacitar uma instituição como o INCT neste tipo de desenvolvimento e para a ciência nacional como um todo”, ressalta. Ele explica que o registro internacional da patente não se justifica, pois os custos são mais altos do que o produto pode arrecadar. Além disso, os pesquisadores brasileiros estão pelo menos cinco anos na frente dos grupos internacionais que tentam desenvolver o soro. “Neste meio tempo vamos continuar aprimorando nosso soro”, revela Palma.

Assim que houver a liberação do produto pela ANVISA e começar a ser distribuído, os pesquisadores irão começar a desenvolver um kit de avaliação da quantidade do veneno presente no sangue do paciente, o que aumenta a segurança do atendimento médico.

O primeiro soro do mundo

Estima-se que ocorram 15 mil ataques de abelhas por ano no Brasil, causando cerca de 140 mortes. “Apesar da baixa letalidade -explica Palma - o choque tóxico causado pelo veneno da abelha causa grave desconforto no paciente por cerca de duas semanas e pode causar lesões em órgãos como fígado, rim e coração”. A Síndrome de Envenenamento é uma doença negligenciada, por isso é muito importante o desenvolvimento de tratamentos específicos, segundo Keity. “O mundo inteiro procura um produto como esse. Nos EUA, por exemplo, eles chamam estas abelhas de “killer bees” (abelhas assassinas). Existem documentários sobre os ataques de enxames que tratam da necessidade de um soro que amenize os efeitos do veneno”, relata a pesquisadora.

Para desenvolver o antídoto, os pesquisadores fizeram o levantamento da estrutura e função das 134 proteínas presentes no veneno da abelha. Conhecendo os mecanismos de ação eles conseguiram chegar ao soro que neutraliza as ações tóxicas do veneno. O soro é produzido em cavalos de maneira semelhante ao soro antiofídico, usado contra veneno de serpentes. O veneno da abelha é injetado nos cavalos e, após a produção de anticorpos específicos pelo animal, amostras do sangue são recolhidas para a obtenção do plasma que será purificado e processado até chegar ao produto final.

A letalidade do veneno da abelha se dá entre 24 e 72 horas após as ferroadas, segundo relatos da literatura médica. “Este parâmetro mostra que existe uma margem de manobra e o soro deve ser eficiente mesmo quando aplicado horas depois do ataque”, explica a pesquisadora.

A pesquisa começou em 2005 no iii-INCT, na época um dos Institutos do Milênio. “A Fundação Butantan buscava desenvolver o soro há muito tempo”, comenta Keity. ”A parceria realizada da fundação com a UNESP e a USP, mediada pelo iii-INCT, foi fundamental para finalizar o trabalho“, enfatiza. A pesquisa foi financiada com recursos da FINEP, FAPESP, CNPq e Fundação Butantan.

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