Porém, como passar à ação? Não estamos fazendo isso?

Professor Walter Antonio Bazzo
Engenheiro Mecânico, Doutor em Educação
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Coordenador do Núcleo de Pesquisas e Estudos em Educação Tecnológica (NEPET)
Colaborador da OEI

 

Uma frase muito conhecida de Karl Marx pode ser encontrada em sua Tese XI sobre Feuerbach: “Os filósofos tem se limitado a interpretar o mundo de distintos modos, mas o que se trata é de transformá-lo”. Durante os últimos 40 anos se acumulou uma grande quantidade de literatura CTS, que poderia também se entender como uma variedade da teoria da ação: contribuições e mais contribuições sobre como mudar as relações entre ciência-tecnologia-sociedade, mais ainda muitas interpretações capazes de propiciar a concretização de projetos em prol do bem-comum da sociedade, da natureza e da humanidade como um todo.

Empresto as primeiras palavras do professor José Antonio Lopes Cerezo do artigo – “Es hora de pasar a la acción” –, publicado neste espaço há alguns dias para pequenas reflexões sobre o problema da materialização da teoria em prática, que me aflige desde a minha incursão no campo da educação tecnológica. De que maneira passar da teoria à ação na educação de nossos jovens? De que forma torná-las efetivas? A quem interessa tal reflexão sobre as questões relativas ao entendimento dessa relação?

O professor Cerezo continua com sua análise, novamente vindo ao encontro de minhas preocupações, quando diz com muita propriedade: “E a cada ano as políticas de ciência – incluo aqui a tecnologia – voltam a repetir o mesmo padrão: interesses corporativos e orientações econômicas. As reformas na educação da ciência seguem redescobrindo a roda periodicamente, para ficar novamente em nada ou pouca coisa. E a participação cidadã não consegue passar a fronteira da consulta ou da previsão de informações, exceto quando se transforma em cooptação. Acaso não se pode fazer outra coisa? Depois de 40 anos de literatura CTS, não deveríamos começar seriamente com o ativismo CTS?”

No entanto, gostaria de acender, ainda que singela, uma luz no pessimismo atual relativo ao campo da ciência e tecnologia, porque em parte, quando detectamos que tal movimento – se é que ainda podemos chamar assim – não teve suas raízes plantadas no contexto educacional, mas sim no entendimento de suas raízes filosóficas, o ativismo CTS já se iniciou. Mas, as reflexões, mesmo que de forma sub-reptícia, aumentaram significativamente nessa área, porque passamos a entender que a escola, além de outros espaços, era propícia para começar a acontecer algumas mudanças.

A partir daí, muitas ações educacionais tomaram fôlego. Nesse sentido, destaco o trabalho desenvolvido pela OEI que, através de muitos de seus participantes, vem tendo uma atuação marcante nesse empreendimento. Várias reuniões, nos mais diversos lugares do mundo, com pesquisadores, professores e demais interessados no assunto, foram realizadas num esforço e competência para “iniciar” o chamado ativismo CTS.

Nesses encontros e ações educacionais, apesar da notória preocupação em tornar efetivo o ativismo CTS, evidenciava-se a necessidade de que tal enfoque não se perdesse nas palavras de ordem e modismos que sempre acontecem quando nos aproximamos de situações extremas. As escolas, no afã de proporcionar esse tipo de reflexões, apesar de movimentos isolados bem sucedidos, continuam se descuidando dos verdadeiros propósitos do enfoque CTS. Isso mal entendido e sem seus conceitos bem sedimentados pode ainda ser mais nocivo que útil.

Quero enfatizar que não são remendos curriculares, tampouco abordagens que apenas coloquem o social como palavra de ordem nos conteúdos técnicos, mas sim posturas epistemológicas dos professores e pesquisadores que, concebendo a ciência e a tecnologia como um construto histórico-político-social, poderão dar conta do tão requerido ativismo CTS. Essa ressalva precisa ser feita para não sucumbirmos ao “canto da sereia” de processos mágicos para mudar a forma como esta educação secular possa ser alterada de uma hora para a outra. Seria apostar no simplismo, o que não é o caso. E, então, me associando ao que Cerezo tão apropriada e preocupadamente ressaltou, fecundaremos o ativismo CTS. As teorias, as reflexões filosóficas, as leituras de inúmeros pensadores nos levam a tal intento, pois com eles nos movemos em busca da concretização de um maior número de ações promotoras de uma educação tecnológica a serviço da humanidade do homem.   

Sejamos justos! Muita coisa tem acontecido, mesmo que tenuemente. Utilizo como exemplo os eventos que a OEI vem trazendo com o grupo Argos e outros colaboradores nos infindáveis cursos com que tem brindado, principalmente, os países ibero-americanos sedentos de tais reflexões. Esses aportes, sem dúvida, tem sido de fundamental importância para superar a dicotomia entre a teoria e a prática e promover uma visão não-dual da realidade, possibilitando a construção de uma percepção em torno da teoria e da prática – construídas ambas no bojo das reflexões coletivas e resultantes de atividades concretas, circunstanciais e históricas, de tal maneira que vem favorecendo dentro das salas de aula uma formação epistemológica mais consistente de seus professores.

Talvez tenhamos que fazer um mea culpa. Não podemos deixar somente a cargo dos filósofos a responsabilidade de apresentar as perspectivas teóricas sobre as relações entre o mundo e o homem. Isso tem que, obrigatoriamente, passar por novos subsídios educacionais mais pragmáticos e atuais. E não apenas das áreas científicas e tecnológicas e sim de todos os campos do saber. E isso a OEI tem feito com maestria e dedicação.

Em certa ocasião, juntamente com o professor Luiz Teixeira do Vale Pereira – ver www.nepet.ufsc.br – escrevemos um artigo intitulado “O que é CTS afinal?”, no qual fazíamos indagações semelhantes a estas aqui postuladas e que certamente até hoje nos afligem. Enfoques CTS, campo CTS, movimento CTS e por aí vai. Esta saraivada de denominações não seria também pela necessidade em buscar motivação, que sempre recaia nos motes para observar e analisar a ciência e a tecnologia? Não seria talvez um indício da urgente concordância em relação aos seres humanos, à natureza e à finalidade da vida?

Qual objetivo final, digamos assim, dos homens e mulheres das ciências, tecnologias e sociedades de um modo geral? O que eles desejam? É possível uma unidade na diversidade de resultados obtidos pelos estudos e pesquisas desenvolvidos na área CTS? Seria talvez a felicidade humana? O bem-comum? Sinto que há, nas palavras a seguir de Lewis Mumford, por exemplo, um sentimento análogo ao do professor Cerezo. Vejamos:  

Se houvesse uma concordância geral sobre a natureza do homem e a finalidade da vida, seria desnecessário procurar definições preliminares. Mas, infelizmente, as próprias ciências que tratam diretamente do homem, não podem, dentro do seu quadro atual, fornecer tal concordância, porque as suas conclusões presumem a validade e a suficiência dos seus métodos particulares de investigação. Nessa corrida atrás da certeza, a ciência prefere os caminhos largos, visíveis, claramente demarcados, e evita os atalhos obscuros do subjetivismo, isto é, rejeita, como indecifrável ou desprezível, uma parte considerável da experiência da humanidade. Porque uma ciência dessa ordem só pode prever o procedimento futuro com base no passado conhecido, tem de deixar de lado muitas potencialidades ainda não bem determinadas; e porque trabalha com termos de estatística, tende a rejeitar o que é único e o que não se repete, muito embora tais ocorrências possam afetar decisivamente o curso do desenvolvimento humano. (MUMFORD, 1959, p. 82 )

Para finalizar, insisto na minha premissa básica que o fulcro da questão reside numa nova postura epistemológica que advém da ideia que o ativismo se tornará realidade quando fizer parte da formação de educadores, pesquisadores e cientistas em geral. Para isso, o entendimento teórico dos filósofos e estudiosos da relação ciência, tecnologia e sociedade é imprescindível. E dentre eles, sem dúvida, o professor Cerezo tem relevante contribuição.

MUMFORD, L. A conduta da vida. Tradução de Neil R. da Silva. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada, 1959.

 

 

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