Colaboraciones   


Pessoas e tecnologias – acesso, interatividade  e conexões nas dimensões do ciberespaço

 Gerson Pastre de Oliveira1


 

- De você, eu nada tinha além de
palavras ou sinais. Mas já posso
vê-lo, apertei sua mão, você
chegou2.

Resumo

Este trabalho procura trazer reflexões sobre as dimensões do ciberespaço, suas possibilidades conectivas e interativas e sua organização, com ênfase para a intervenção humana nos cenários proporcionados pelas redes computacionais. As tecnologias digitais, os suportes conectivos, não operaram a substituição do pensamento humano, ainda que tenham proporcionado a mente importantes capacidades de projeção, de conexão, de ampliação, subvertendo, de certa maneira, os conceitos mais comumente vigentes de tempo e espaço, permitindo, de certa forma, outras “arquiteturas de inteligência”. São discutidas, de igual modo, neste ensaio, algumas conseqüências trazidas pelas intervenções mediadas pelas tecnologias de informação e comunicação, sob o enfoque do uso que as pessoas fazem dos artefatos.

Palavras chave: ciberespaço, conexões, interatividade, tecnologias de informação e comunicação, pensamento humano.

O que há no ciberespaço?

O ciberespaço é, antes de qualquer coisa, uma dimensão comunicacional. Sua lógica é a da articulação de memórias através das conexões. Assim, de certa forma, indicou Lévy (1999, p. 92), ao definir o ciberespaço como “o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores”. Para o autor, semelhante assertiva não exclui outros meios de comunicação eletrônicos, “na medida que transmitem informações provenientes de fontes digitais ou destinadas à digitalização” (idem, ibidem). Segundo Lévy, ainda, o formato digital é essencial para o ciberespaço:

Insisto na codificação digital, pois ela condiciona o caráter plástico, fluido, calculável com precisão e tratável em tempo real, hipertextual, interativo e, resumindo, virtual da informação que é, parece-me, a marca distintiva do ciberespaço. Esse novo meio tem a vocação de colocar em sinergia e interfacear todos os dispositivos de criação de informação, de gravação, de comunicação e de simulação (Lévy, 1999, pp. 92-93)

Isto porque, em essência, o ciberespaço, nas definições de Lévy, disponibiliza dados – apesar do uso do termo ‘informações’. Mas não são informações, e não são, também, conhecimentos, mas dados, apenas. Para me explicar melhor, devo insistir nessa dimensão daquilo que trafega nas redes, daquilo que é armazenado nas memórias de massa dos artefatos computacionais e, também, em suas versões voláteis: são dados, porque semelhantes elementos são representáveis e armazenáveis em computadores e podem trafegar, por conseqüência, nas redes compostas por tais equipamentos. Informação e conhecimento não têm essa possibilidade. Esta é a opinião de Setzer (1999), segundo o qual tanto a informação quanto o conhecimento não são armazenáveis por sistemas computacionais, mas a informação, que implica em significação de caráter pessoal, pode ser representada através de dados, estes, por sua vez, descritíveis de maneira formal, estrutural. Assim, um dado seria “uma seqüência de símbolos quantificados ou quantificáveis. Portanto, um texto é um dado (...). Também são dados imagens, sons e animação (...). Como são símbolos quantificáveis, dados podem obviamente ser armazenados em um computador e processados por ele” (Setzer, 1999). Desta forma, “não é possível processar informação diretamente em um computador. Para isso é necessário reduzi-la a dados” (idem, ibidem). O conhecimento, entretanto, não é passível de semelhante redução, sob pena de ‘transformar-se’, justamente, em informação. De acordo com o autor mencionado, “associamos informação à semântica; conhecimento está associado com pragmática, isto é, relaciona-se com alguma coisa existente no ‘mundo real’ do qual temos uma experiência direta” (idem, ibidem). Não trafegam nas redes, através das conexões hipertextuais, os significados e as experiências. Apenas os sinais, representações das coisas digitalizadas.

Conexões: pessoas e outras coisas

Acontece que o ciberespaço não é só isso. Volto, aqui, às conexões. No mundo todo, pessoas conectam-se a fontes remotas de dados, às memórias providas pelos bancos de dados geograficamente distribuídos. Pessoas se comunicam, enviam mensagens, participam de conferências, interagem em ambientes virtuais, participam de competições, estudam, aprendem, em tempos diversos, síncronos e/ou assíncronos. Do ponto de vista do suporte, estas e outras atividades são possíveis graças a uma combinação complexa de tecnologias de informação e de comunicação. São estes aparatos técnicos os oportunizadores do armazenamento, do processamento, da interpretação, da conversão de padrões e, finalmente, das conexões. Ao utilizar semelhante infra-estrutura, o elemento humano adere e completa o mapa ciberespacial.

Nas pessoas, o elemento imprescindível: a mente. Neste âmbito, dados são convertidos em informações e subsidiam, ao encontrar a experiência objetiva, a construção dos conhecimentos. Outras dimensões, igualmente, podem ser incluídas, como a da crítica, do julgamento, da invenção. Isto também está no ciberespaço e, sem isso, na verdade, o ciberespaço nada seria senão uma gigantesca e estática biblioteca, linear e hierárquica, além de uma espécie de ‘secretária eletrônica planetária’.

A mente e as intervenções técnicas

As técnicas de inteligência artificial (IA) são ainda (e, talvez, sempre) incapazes de produzir todas estas características do pensamento humano. As formas de representação do conhecimento empregadas no domínio da IA tratam de prover imitações de alguns processos de inteligência. Redes semânticas, por exemplo, usam conexões com significado para criar relações entre objetos representáveis. O aprendizado automatizado, implementado através de diversas técnicas, parte do princípio que o uso de determinado sistema refina seu conhecimento sobre certos domínios, de modo que a nova experiência venha agregar e/ou modificar a base de dados preexistente. Redes neurais têm a possibilidade de, a medida que refinam o aprendizado sob certos elementos e padrões via treinamento das estruturas constituintes, gerar ações consistentes, revelando um comportamento de certo modo inteligente. Concorrem para isso características como redundância, paralelismo, adaptabilidade, entre outras. Em uma dada configuração, determinada pelo paradigma neural a ser empregado, uma rede deste tipo é ‘treinada’, procurando ajustar os pesos das ligações entre os neurônios artificiais e as camadas envolvidas. Isto significa, matematicamente, operar pela diminuição e distribuição do erro encontrado ao longo das camadas (backpropagation), em ciclos sucessivos, até que o mesmo seja insignificante. É inegável que as melhores implementações de redes neurais são capazes de simular o aprendizado, em processos que, por semelhança, poderiam ser reconhecidos como memorizações, analogias, desvendamentos, ‘tentativas-e-erros’, reconhecimento e aplicação de padrões, entre outros.

Não se pode negar (nem nunca tive esta intenção) a utilidade, a pertinência e a eficiência destas técnicas aplicadas à solução de certos tipos de questões – cada vez mais amplas. Entretanto, tenho certeza que não consta, entre as finalidades das pesquisas em IA, o propósito de substituição da mente humana. Dimensões como a da crítica, da ironia, do desejo e suas múltiplas formas de manifestação, da vontade, para mencionar somente algumas, continuam desafios até agora intransponíveis. Mesmo o aprendizado efetuado através da manipulação técnica artificial limita-se a alguns paradigmas. Mas as pessoas aprendem de maneiras diversas, construindo, reproduzindo, memorizando. Estes aprendizados são diferentes – defendo, por exemplo, que, em um contexto educacional, a reprodução não tenha o mesmo valor de aprendizado da construção. Talvez, inclusive, a mente humana utilize há séculos estratégias de aprendizado que sequer foram desvendadas em seu âmbito.

Emblemática, a esse respeito, a intervenção de Virgílio Fernandes de Almeida, ao tecer comentários sobre o livro de Sidney Perkowitz, Digital People – From Bionic Humans to Androids, que aqui reproduzo por resumir de maneira bastante significativa a questão dos ‘artefatos que pensam’:

Borges, por exemplo, criou o personagem Funes, de memória praticamente ilimitada, como poderiam ter os seres artificiais. Nada, nenhum minucioso detalhe, escapava da implacável memória de Funes. E, apesar da ilimitada capacidade de memória, Funes era incapaz de "idéias gerais", era incapaz de pensar. "Suspeito entretanto que (Funes) não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair." No livro "Sete Contos de Fúria", do autor português contemporâneo António Vieira, um personagem, ao se debater com dúvidas sobre sua origem, reflete e diz: "Na verdade, nem sei o que é ser-se humano, nem não humano, nem sequer quase humano" (Almeida, 2004)

Ainda mais significativa pode ser considerada a opinião de Marvin Minsky3. Segundo o pesquisador americano (2003), a inteligência artificial está em estado de “morte cerebral” desde a década de 1970. Isto porque, segundo Minsky, “não existem computadores que tenham bom senso. Nós só estamos fazendo coisas que são capazes de fazer reservas de passagens aéreas. Nenhum computador pode olhar para uma sala e falar a você sobre ela”. Ou seja, além das atividades mais complexas relacionadas ao pensamento humano, mesmo algumas intervenções elementares na mente humana estão longe do alcance de nossos sistemas computacionais.

Inteligência coletiva, mente conectiva, inteligências em conexão

Assim, a conexão das inteligências das pessoas é o que de mais significativo ocorre no âmbito do ciberespaço. As tecnologias são mediadoras, agentes das conexões. Programas, máquinas, redes das mais diversas topologias e assentadas sobre os mais diversos meios de transmissão/recepção, constituem a ambientação, permitindo a extensão das possibilidades da pessoa, que passa alcançar mais longe, projetar-se à distância. As tecnologias, sobretudo aquelas envolvidas no funcionamento da Internet, oportunizam, então, a extensão da presença, permitem uma projeção do corpo através de sinais que trafegam e que são, de um lado, ação, ela mesma exprimindo pensamentos e vontades das pessoas, e de outro, interpretação, tarefa das interfaces e das outras pessoas, conectadas. Mas os lados são múltiplos, as ações e interpretações são múltiplas, as conexões são múltiplas. O interesse de cada um dos envolvidos dá o tom, é o direcionador, o criador das trajetórias.

Neste sentido, Pierre Lévy enxerga a constituição da inteligência coletiva, que tem no ciberespaço o seu suporte (1999, p.29), “o indispensável desvio técnico” (op.cit, p.130). Trata-se, segundo o autor, de “uma inteligência distribuída por toda a parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências” (1998, p.28). Constitui-se, ainda, na

(...) capacidade de trocar idéias, compartilhar informações e interesses comuns, criando comunidades e estimulando conexões. Para começar, tome o cérebro humano. Fazemos infinitas conexões que se intensificam à medida que envelhecemos. Agora imagine que podemos, graças ao computador, integrar essa ‘constelação de neurônios’ com a de milhões de outras pessoas. Essa é a comparação que faço. A internet nos permite hoje criar uma superinteligência coletiva, dar início a uma grande revolução humana (Lévy, 2003).

Para Lévy, a base da inteligência coletiva assenta-se sobre dois conceitos fundamentais: cooperação e competição. O autor vê tais conceitos como complementares: “só pode existir desenvolvimento da inteligência coletiva se houver uma cooperação competitiva ou competição cooperativa(...). É a partir do equilíbrio entre competição e cooperação que nasce a inteligência coletiva” (Lévy, 2002). O aspecto competitivo, nesta lógica, está ligado à liberdade, principalmente quanto à proposição de outros posicionamentos, outras teorias, em um contexto de debate e exposição de idéias. Não há, assim, a supressão do novo, nem das lutas, conflitos e diferenças. Já o aspecto cooperativo resulta do vínculo social proporcionado pela dinâmica criada pelos participantes dos diversos ambientes (comunidades virtuais, por exemplo) que, no âmbito do ciberespaço, servem de base à inteligência coletiva. Pretende, portanto, ser uma fonte de acesso a saberes e competências, constituída, por sua vez, pelo composto sinérgico das colaborações individuais. Não é um processo de pensamento automatizado – ou não deve ser, em proposta, pelo menos, no sentido de que ninguém surge autorizado a estipular seus posicionamentos e/ou idéias como balizadores do certo, da verdade. Não há inteligência coletiva se existe totalização, imposição.

Assim, não basta mudar o suporte. Tome-se como exemplo a educação. Processos de ensino e aprendizagem baseados no modelo reprodutivista, sem a participação efetiva dos educandos, autoritários e poucos afeitos ao ideal do desenvolvimento da autonomia por parte de quem aprende não podem ser considerados constituintes de qualquer inteligência coletiva só pelo fato de serem oferecidos em ambientes virtuais. Claro que, em todos os domínios do conhecimento, este é um risco sempre posto. Como já mencionei, as tecnologias não instauram, por elas mesmas, a crítica. Esta é uma dimensão que permanece a cargo dos participantes, das pessoas, e que surge da negociação, do estabelecimento de ideais comuns, estes mesmos flexíveis, passíveis de ajustes e mudanças.

Derrick de Kerckhove prefere enxergar a ocorrência de outro fenômeno, o da mente conectiva, no qual vejo algumas semelhanças com as proposições de Lévy. A base de semelhante ocorrência, para o autor, baseia-se na “dominância da tela” (2003, p.17), característica que apresenta uma trajetória bem definida.

Primeiro, a tela interna, privada, cujo âmbito são os corpos individuais – a mente de cada um, portanto. Nesta dimensão, alimentada pelas tradições orais e pelas atividades de leitura, a tela é uma síntese interna e pessoal que surge como tradução psicossensória do processamento da informação.

Em um segundo momento, para o autor, a televisão concorreu para a inversão do processo, constituindo-se no elemento formador da mente pública. Isto fez com que a mente fosse para a tela: “quando estou lendo, estou pensando a partir de palavras que levam o mundo para a mente. Quando estou na frente da tela, inverto isso e externalizo meu processo de pensamento(...)” (idem, ibidem, p. 18).

Em seguida, de modo diverso em relação àquele proporcionado pela televisão, o computador permite a negociação do significado daquilo que surge na tela, de modo que estratégias cognitivas pessoais passem a ocorrer fora da mente. O computador oportuniza a retomada do controle sobre a tela, perdido com a televisão, o que conduz, segundo o autor, para uma mudança, “de uma cultura de sensibilidade de leitor, telespectador, espectador para uma cultura de usuário e interagente” (idem, ibidem, p. 26). E as associações possíveis para a mente são intensamente potencializadas pela World Wide Web, a qual, de certa forma, permite cultivar e recombinar as ligações fora da mente privada, já que “o que encontramos na rede não está em nossa cabeça, mas numa tela” (idem, ibidem, p. 25). Nesta lógica, então, a mente conectiva surgiria como o passo seguinte em relação à mente do indivíduo (formada pela leitura e pela escrita) e à mente coletiva (criada pelo rádio e pela televisão):

A mente conectiva não é apenas o individual retirado do grupo, como a do leitor que não assiste televisão; nem é parte de uma massa sem identidade, como a de uma pessoa que só assiste televisão e não lê. Estamos agora em uma situação conectiva, em que podemos cultivar e manter uma identidade privada, mas também compartilhar o processamento de informações com um grupo seleto sem sermos eliminados pela identidade do grupo (Kerckhove, 2003, p.26).

A mente individual, neste processo de exteriorização, encontra outras mentes, na tela. Estas múltiplas conexões, mediadas pelas tecnologias, estipulam, para os conteúdos de caráter informacional, uma outra organização.

Hipertexto, árvore e rizoma

Assim, no ciberespaço, a dinâmica do hipertexto, móvel, cambiável, não-linear, não-hierárquica, não-estável, indica que vontades, desejos, pensamentos e ações estão atuando. Não há percurso definido – e existem todos os percursos. Mesmo que alguém não siga por uma rota de hiperlinks, esta possibilidade ainda permanecerá. Uma narrativa hipertextual, por exemplo, abrange estas múltiplas possibilidades, nas quais ocorrem subversões dos conceitos de tempo e espaço como habitualmente os temos. Em Borges (1998, p.531), narrando o episódio do encontro de um de seus personagens com o “jardim das veredas que se bifurcam”, reconhecido como o “romance caótico”, onde as diversas possibilidades, os diversos roteiros, convivem paralelamente:

Em todas as ficções, cada vez que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras; na do quase inextricável Ts’ui Pen, opta – simultaneamente – por todas. Cria, assim, diversos futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam.

E como se dispõem estes conteúdos? A lógica da organização dos conteúdos no ciberespaço não é a da solidez hierárquica, planificada em níveis de significado ou importância. As estruturas arborescentes, em sua constituição centrada e binária, não oferecem uma representação capaz de abarcar todas as questões de interconexão e acesso. Entre as representações significativas do caos – condição do mundo, segundo Deleuze e Guattari (1995), e, no mínimo, de um universo significativo de fenômenos, segundo Morin (1999) – está aquela provida pela idéia do rizoma, estrutura biológica constituinte de bulbos e tubérculos. Nesta estrutura, não há convergência, não existe ponto fulcral, a não ser transitório, definido pelo foco, pelo olhar. A conectividade é ampla e multidirecional, constituindo, em suas instâncias, uma rede de gerenciamentos grupais, coletivos, do desejo e dos significados. É, por excelência, algo em permanente (re)elaboração, definido, exclusivamente, pela circulação de estados: o rizoma não apresenta a estrutura pronta, teleológica, puramente finalista e acabada, mas importa na expansão e nas conexões, abarcando direções, construções e significados – apesar de constituir-se, preponderantemente, de modo a-significante. Sua natureza não organizada em termos lineares remete à subversão do sentido, como habitualmente pensado na mecanologia ocidental. Assim, é que suas extensões podem representar, também, variações, capturas, inversões, fugas. O rizoma não é exclusivo, entretanto: em algum ponto, estruturas arborescentes podem dar origem a novas formações rizomáticas.

(...) o rizoma conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer e cada um de seus traços não remete necessariamente a traços da mesma natureza; ele põe em jogo regimes de signos muito diferentes, inclusive estados de não-signos. O rizoma não se deixa reconduzir nem ao Uno nem ao múltiplo. (...) Ele não é feito de unidades, mas de dimensões, ou antes de direções movediças. Ele não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda. (...) O rizoma é uma antigenealogia. É uma memória curta ou uma antimemória. (...) oposto aos decalques, o rizoma se refere a um mapa que deve ser produzido, construído, sempre desmontável, conectável, reversível, modificável, com múltiplas entradas e saídas, com suas linhas de fuga. São os decalques que é preciso referir aos mapas, não o inverso (Deleuze e Guattari, 1995, p.32).

Para os autores, a lógica da interconexão do rizoma lhe impõe a conectividade com outras dimensões. Múltiplo, isento de sujeitos e objetos, seu crescimento ocorre de acordo com a dinâmica conectiva que se processa. Enquanto o tronco, a árvore, são elementos estáticos (o “ser”), o rizoma é por natureza expansível e constituído de trajetórias, de caminhos (o agregar, o “e...e...e...”).

Tal a natureza das conexões no ciberespaço. A organização remete, nesta instância, à multiplicidade da construção rizomática. Em conexão, o cibernauta percorre caminhos essencialmente não lineares. O conteúdo, como já lembrava Derrick de Kerckhove (1997), confunde-se com o usuário. Tal como nas cadeias semióticas, que ampliam o universo lingüístico para o gestual, por exemplo, as instâncias, os elementos em conexão no ciberespaço são de natureza multimidiática, ampla. Textos, imagens, sons, sensações. Caminhos diversos, personalizados, diferentes. E esta subversão de significados faz do conhecimento, mesmo, uma construção individual, que não dispensa a autonomia por plenificar-se. Nas dimensões rizomáticas das multiconexões, tempo e espaço são conceitos diversos, estranhos à lógica mecanicista e apenas de longe, ainda, evidenciados pelas lógicas relativas e quânticas.

No ciberespaço, então, mentes se conectam, em um ambiente de multiplicidade. Um outro conceito, de intervenção, de modificação, de estímulo-e-resposta, surge como fundamental para a experiência conectiva. Este conceito é o da interatividade.

Interatividade

Quero pensar na interatividade como uma dimensão da comunicação, ela mesma envolvendo intervenção, construção eventual de sentidos e significados em resposta a certos estímulos, provenientes de quaisquer elementos envolvidos na atividade comunicacional. Do ponto de vista das interfaces, a presença do elemento interativo deve permitir ações consistentes de construção, participação e engajamento do participante do processo pretensamente interativo, ações para as quais, inclusive, devem existir consistentes respostas, elas, por sua vez, provedoras de ambientação para novas intervenções, e assim por diante. A interatividade possui dimensões diversas, na maior parte das vezes condicionadas pelas tecnologias midiáticas; nestas dimensões, o controle do participante no contexto interativo varia consideravelmente: pode ir da simples capacidade de seleção de conteúdo, sem modificação, até a possibilidade de alteração e configuração de todos os aspectos envolvidos na atividade comunicativa.

As interfaces têm papel fundamental neste quadro: representam canais de acesso, mais ou menos permeáveis, aos ambientes interativos, provendo algum alcance em relação aos sinais, à mensagem e ao contexto de intervenção possível. Para Derrick de Kerckhove (2003, p.16), “as mídias funcionam como interfaces entre a linguagem, corpo e mundo”. Interfaces são, também, sob outro ponto de vista, cápsulas de ‘amigabilidade’ (ou de ‘usabilidade’, como preferem alguns), de disponibilização, facilitação, evidenciação de recursos e possibilidades de controle e participação. Tais como os sistemas operacionais dos computadores contemporâneos, percebo nas interfaces, enquanto elementos de intermediação comunicacional no campo da informática, uma estrutura constitutiva composta por camadas, que vão desde as mais imediatas em relação aos participantes, até as mais recônditas, próximas aos equipamentos envolvidos. Nas primeiras, predominam os recursos lingüísticos, textuais, gestuais, simbólicos das pessoas. Nas demais, de certa forma ocultas, ocorrem as conversões dos padrões dos meios ‘humanos’ de manifestação em sinais binários, em última instância, através de recursos computacionais que envolvem diferentes paradigmas de programação. Pierre Lévy, em seu livro Tecnologias da Inteligência, vai mais longe, ao posicionar as interfaces como elementos grandemente envolvidos nos processos cognitivos de toda natureza, em uma amplitude que supera o enclausuramento disciplinar e as questões ligadas aos instrumentos. Segundo ele, “a noção de interfaces remete a operações de tradução, de estabelecimento de contato entre meios heterogêneos (...); a interface mantém juntas as duas dimensões do devir: o movimento e a metamorfose. É a operadora da passagem” (Lévy, 1993, p.176).  A idéia das camadas, que aqui enuncio, é, em escopo reduzido, a mesma assertiva que foi chamada pelo autor francês de “rede de interfaces”. Estas redes, transitórias, múltiplas, são quase que ilimitadamente conectadas. E os domínios que interligam, traduzem, integram, são, eles mesmos, também incontáveis.

Interface é uma superfície de contato, de tradução, de articulação entre dois espaços, duas espécies, duas ordens de realidade diferentes: de um código para outro, do analógico para o digital, do mecânico para o humano... Tudo aquilo que é tradução, transformação, passagem, é da ordem da interface (Lévy, 1993, p.181).

Lévy se propõe, também, a desvendar a topologia das ligações providas pelas interfaces, conteúdos e continentes, ao mesmo tempo. Ao responder à própria pergunta: “O que passa através da interface?”, o autor indica: “Outras interfaces. As interfaces são embutidas, dobradas, amarrotadas, deformadas umas nas outras, umas pelas outras, desviadas de suas finalidades iniciais. E isto até o último invólucro, até a última pequena dobra” (op.cit, p. 182).

Volto à discussão sobre interatividade para afirmar que a mesma abrange questões amplas, que vão desde a definição (o que se entende por interativo e interatividade) até as classificações, etimologias e taxonomias. Lévy (1999), por exemplo, menciona o uso descuidado do termo, despreocupado com e descolado de seu significado (uma dissociação entre o signo e o significado, ou melhor, entre a representação e a coisa mesmo que pretende representar). Como resultado, segundo o autor, o termo é utilizado sem maiores reflexões ou preocupações com o que ele venha, de fato, significar. Na problematização do tema, o autor francês menciona o caráter participativo da comunicação interativa, caráter este que inclui, evidentemente, a figura do receptor. Deste ponto de vista, Lévy entende que aspectos da interatividade estão presentes mesmo nos telespectadores de programas televisivos, à medida que cada um deles “decodifica, interpreta, participa, mobiliza seu sistema nervoso de muitas maneiras, e sempre de forma diferente de seu vizinho” (1999, p.79). Ainda sob este enfoque, restaria ao telespectador a possibilidade de agregar um videocassete (ou outro aparelho equivalente4, quanto à finalidade) para ter à disposição a possibilidade de criar uma edição personalizada dos conteúdos capturados. Esta “reapropriação e recombinação” – ou o grau possível de semelhante intervenção – surgem, para Lévy, como “parâmetro fundamental para avaliar o grau de interatividade do produto”(op.cit, p.79). A possibilidade de seleção de eventos, fluxos comunicacionais, objetos, pessoas, enfim, de redefinição de aspectos da mensagem, também são mencionados como condições da comunicação interativa.

Sob outro enfoque – o de “canal de comunicação [que] funciona nos dois sentidos” (op. cit, p.79) – Lévy defende que o telefone apresenta-se como modelo de mídia interativa. Além disso,  na comparação com outros ambientes comunicacionais virtuais, o autor admite que o telefone pode ser mais interativo, uma vez que coloca seu usuário “em contato com o corpo do interlocutor” (op.cit, p.81). Este antigo suporte midiático apresentaria, também, outra característica marcante: a de garantir a telepresença, já que a voz que é ouvida é aquela que, de fato, pertence ao outro indivíduo, compartilhante da comutação de circuitos oportunizada pelo suporte. Por outro lado, a comunicação provida por (ou em) certos ambientes virtuais tem a vantagem de, “em certo sentido”, ser “mais interativa que a comunicação telefônica, uma vez que implica, na mensagem, tanto a imagem da pessoa como a da situação” (1999, p.81).

Lévy propõe, então, uma divisão em tipos de interatividade, que classifica o conceito em instâncias que variam desde a “mensagem linear não-alterável em tempo real” até aquela que prevê “implicação do participante na mensagem” (Lévy, 1999, p. 83). Ainda explorando suas concepções sobre o tema, o autor menciona que o “grau de interatividade de uma mídia ou dispositivo de comunicação pode ser medido em eixos bem diferentes”, os quais abrangeriam possibilidades de personalização da mensagem, reciprocidade da comunicação, a virtualidade, a “implicação da imagem dos participantes nas mensagens” e a telepresença (Lévy, 1999, p. 82).

Relação com a mensagem

 

Dispositivo de comunicação

Mensagem linear não-alterável em tempo real

Interrupção e reorientação do fluxo informacional em tempo real

Implicação do participante na mensagem

Difusão unilateral

Imprensa
Rádio
Televisão
Cinema

  • Bancos de dados multimodais
  • Hiperdocumentos fixos
  • Simulações sem imersão nem possibilidade de modificar o modelo
  • Videogames com um só participante
  • Simulações com imersão (simulação de vôo) sem modificação possível no modelo

Diálogo, reciprocidade

Correspondência postal entre duas pessoas

  • Telefone
  • Videofone

Diálogos através de mundos virtuais, cibersexo

Diálogo entre vários participantes

  • Rede de correspondência
  • Sistema das publicações em uma comunidade de pesquisa
  • Correio eletrônico
  • Conferências eletrônicas
  • Teleconferência ou videoconferência com vários participantes
  • Hiperdocumentos abertos acessíveis on-line, frutos da escrita/leitura de uma comunidade
  • Simulações (com possibilidade de atuar sobre o modelo) como suportes de debates de uma comunidade
  • RPG multiusuário no ciberespaço
  • Videogame em “realidade virtual” com vários participantes
  • Comunicação em mundos virtuais, negociação contínua dos participantes sobre suas imagens e a imagem de sua situação comum.

Quadro 1. Diferentes tipos de interatividade (Lévy, 1999, p.83)

Para Meadows (2002), a interatividade não é uma característica do meio, ou seja, em sua visão, onde quer que haja alguma forma de interatividade, o conceito de comunicação encontra-se envolvido. Para o autor, a interatividade requer um conjunto de regras comuns entre objetos, participantes e quaisquer outros elementos envolvidos. Além disso, tal regulamento é “iterativo e freqüentemente inconsciente, proporcionando uma estrutura para minimizar os prejuízos e maximizar os significados”.

Sims (1997) menciona três dimensões de interatividade, especificamente no âmbito da instrução mediada por recursos computacionais. Tais dimensões seriam a do engajamento (que ele divide em “navegacional” ou “instrucional”), a do controle (relativa a decisões navegacionais ou instrucionais – e a extensão das mesmas – a cargo do sistema ou do usuário) e a do conceito interativo, a qual “proporciona uma indicação do tipo de interação que pode ser esperada sob as variadas condições definidas pelo modelo”. Esses tipos, do ponto de vista do desenvolvedor de aplicações, incluem desde a interatividade puramente linear até dimensões de imersão e profundidade de interação, envolvendo reflexão, lógica hipertextual, simulação, entre outras características.

Lunenfeld (1999, p.106) destaca uma característica da interatividade, claramente condicionada pelo desenvolvimento tecnológico: a reatividade. Esta dimensão ocorre, no pensamento do autor, de forma inversamente proporcional à espera. Assim, para Lunenfeld, de maneira ideal, “um sistema interativo é caracterizado por relacionamentos de tempo real entre o ser humano e o sistema”(op.cit.). Ainda segundo o autor, tal característica das mídias tornou-se necessária a partir dos “novos usos para o computador, tais como a simulação, visualização, processamento de textos e jogos” (1999, p.107).

Conclusões (provisórias)

Neste trabalho, procurei relacionar o uso dos artefatos tecnológicos pelas pessoas na contemporaneidade em três aspectos que julgo fundamentais: a constituição dos ambientes mediadores (o ciberespaço), a lógica comunicacional e informacional envolvida (as conexões múltiplas) e a possibilidade de intervenção (as interações).

Temos, então, as tecnologias como determinantes do pensamento contemporâneo e das manifestações culturais de toda espécie no âmbito da sociedade? Não acredito nisso. A idéia do determinismo tecnológico é francamente insustentável, quando não ingênua. Lévy a repudia, ainda que em favor de um certo ‘condicionamento tecnológico’: “dizer que a técnica condiciona significa dizer que abre algumas possibilidades, que algumas opções culturais ou sociais não poderiam ser pensadas a sério sem sua presença” (1999, p.25). Penso que o condicionamento é meramente direcionador de um acontecimento de caráter sócio-cultural. A técnica que condiciona, então, ainda no pensamento de Lévy, cumpre um papel, entre muitos outros. Castells também nega a possibilidade de determinismo e também vê, em seu lugar, um condicionamento promovido pelo que chama de “novo meio tecnológico” (2002, p.108). Ao comentar sobre um dos aspectos que considera representar “a base material da sociedade da informação”, a penetrabilidade dos efeitos das novas tecnologias, o autor argumenta que “todos os processos de nossa existência individual e coletiva são diretamente moldados (embora, com certeza, não determinados) pelo novo meio tecnológico” (op.cit.). Concluo que um sentido meramente técnico determinando o surgimento e a sustentação de uma sociedade informacional – um sentido neutro, sem conotações sociais e políticas e, portanto, destituído das amarrações provenientes de um sem-número de interações previamente existentes na malha social – não é concebível nem na pior das ficções.

Mencionei, neste último parágrafo, ao citar Castells, o conceito de ‘sociedade da informação’, que representaria um novo paradigma de caráter técnico e econômico para o atual estágio da sociedade – um outro nome para a ‘sociedade pós-industrial’. Não é objetivo deste trabalho analisar semelhante proposição a fundo, mas, em função da idéia do condicionamento proporcionado pelas tecnologias, cabem análises de dois aspectos, que trago, também, à guisa de conclusões provisórias:

  • Percebo que há, atualmente, uma amplitude inigualável, em termos históricos, de possibilidades de conexão e acesso, em uma lógica hipertextual muito menos limitante que o tradicional paradigma hierárquico de organização de conteúdos de caráter potencialmente informacional. Mas também percebo, como Castells (2002, p.73), o estabelecimento de uma elite que aprende a manipular os novos recursos tecnológicos, típicos da chamada ‘sociedade da informação’, fazendo, ou seja, através da manipulação dos objetos tecnológicos, enquanto que a densa massa restante limita-se a aprender usando. Aqueles manipulam as aplicações tecnológicas em função de seus interesses, enquanto que estes “permanecem dentro do limite do pacote tecnológico” (op.cit.). Então, concluo que mesmo o condicionamento das tecnologias permanece a serviço dos detentores dos recursos financeiros, dos meios de produção, do conhecimento técnico e dos interesses políticos e de intervenção sócio-cultural. É, ainda, uma lógica de dominação. Um exemplo pode ser tomado a partir de questões relacionadas ao controle e à vigilância, em uma extensão da ótica foucaultiana, para a qual os variados mecanismos de submissão do corpo configuram-se como uma tecnologia (Foucault, 1989): já não se trata de coagir à vigilância, mas de seduzir para ela (Baumann, 1998), a um ponto em que os indivíduos começam a achar normal que seus hábitos sejam rastreados com o uso de tecnologias, as quais, além de vigiar, oportunizam a comercialização de suas trajetórias pessoais;

 

  • Mencionei, no início, as diferenças entre os conceitos de dado, informação e conhecimento. Então, quero dizer que considero o termo ‘sociedade do conhecimento’, querendo significar ‘sociedade da informação’, um equívoco – e isso sem qualquer concessão ao segundo conceito. Acredito que o conhecimento encerra em si uma possibilidade completamente inatingível para a informação: a de estabelecer uma lógica de certa forma ‘ordenadora’ da complexidade – ou, ao menos, uma lógica que permite interações entre a pessoa e cenários complexos. Para Morin, especificamente, o conhecimento “procura pôr ordem e unidade num universo de fenômenos que se apresentam com encadeamentos, multiplicidades, singularidades, incertezas, desordem" (1999, p.236). Semelhante atuação, que detém de certa maneira um caráter organizador, não está ao alcance da informação, não se concebe em seu âmbito. Creio que vale recuperar, neste ponto, algo da lúcida reflexão do sociólogo e ensaísta alemão Robert Kurz sobre a conotação menor que se pretende dar às dimensões do conhecimento:

    Elucidativo é talvez o fato de que o conceito da ‘sociedade do conhecimento’ esteja sendo usado mais ou menos como sinônimo do de ‘sociedade da informação’. Vivemos numa sociedade do conhecimento porque somos soterrados por informações. Nunca antes houve tanta informação sendo transmitida por tantos meios ao mesmo tempo. Mas esse dilúvio de informações é de fato idêntico a conhecimento? Estamos informados sobre o caráter da informação? Conhecemos afinal que tipo de conhecimento é esse?Na verdade o conceito de informação não é, de modo nenhum, abarcado por uma compreensão bem elaborada do conhecimento. O significado de "informação" é tomado num sentido muito mais amplo e refere-se também a procedimentos mecânicos. O som de uma buzina, a mensagem automática da próxima estação do metrô, a campainha de um despertador, o panorama do noticiário na TV, o alto-falante do supermercado, as oscilações da Bolsa, a previsão do tempo... tudo isso são informações, e poderíamos continuar a lista infinitamente. (...) Claro que se trata de conhecimento, também, mas de um tipo muito trivial (Kurz, 2002).

As intervenções mediadas pelas tecnologias de informação e comunicação trazem conseqüências. Isso é inevitável. Esse trabalho aponta algumas, insisto, sob o enfoque do uso que as pessoas fazem dos artefatos. O que me parece suficientemente claro é que qualquer questão em torno das tecnologias de informação e comunicação como fomentadoras de novas formas de pensamento, de outras “arquiteturas de inteligência” (Kerckhove, 2003, p.26), só poderá ter consistência teórica se os artefatos técnicos, a dimensão maquínica, estiver subordinada – no sentido de ‘estar a serviço’ – às pessoas. Pessoas que usam tecnologias. Isto pode parecer óbvio, mas, infelizmente, não é. Ainda subsiste o pensamento de que as tecnologias dão sentido aos objetos de conhecimento, ou, pior, que dão origem a eles, que os criam. Ou que, pela simples mediação, operam a mágica do saber, disponibilizam conhecimentos. Mas é isto mesmo que elas não fazem. O ciberespaço é a dimensão que proporciona a conexão das inteligências das pessoas e o acesso a fontes de dados, fornecendo ambientações que têm a interatividade como principal característica. Crítica, invenção, desejo, vontade, propósito, sentido, enfim, estão circunscritos à dimensão humana. O papel das tecnologias é o da mediação técnica, nos âmbitos da velocidade, da recriação do espaço/tempo, da conectividade, da ampliação/extensão da presença. Tecnologias também mensageiras, como os Anjos de Serres (1995). Aceleradoras do contato, provedoras de um contato que se estende – mas não suas substitutas: “– Os aviões e as ondas traziam apenas suas mensagens e depois você veio. Das cartas à presença, que diferença!” (Serres, 1995, p.8).

Referências bibliográficas:

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Notas:

1- Pesquisador - EDUTEC (Educação e Tecnologias) - Universidade Paulista (UNIP), Brasil; Doutorando em Educação (USP)

2- SERRES, Michel. A lenda dos anjos. São Paulo: Editora Aleph, 1995. p.8.

3- Minsky é uma das maiores referências em inteligência artificial em todo o mundo. É o autor de "Sociedade da Mente", livro que concentra teorias sobre a mente e a inteligência, formuladas em conjunto com Seymour Papert. Além disso, Minsky foi um dos fundadores do AI Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e autor de trabalhos seminais em IA, entre os quais Steps Towards Artificial Intelligence (1961), Matter, Mind, and Models (1963), Perceptrons (1969), A Framework for Representing Knowledge (1974), entre outros.

4- Faço este reparo em função da patente evolução tecnológica dos dispositivos de captura e retenção de imagens, de longe já não mais restritos apenas à fita magnética como meio de armazenamento de massa.