Portada
Presentación del número
Temas de portada








Número 9 - julio - octubre 2006

Culturas urbanas e desafios à cooperação cultural

Carlos Fortuna (*)


Começo por expressar um agradecimento muito sincero à organização deste IV Campus pelo convite para participar neste Encontro e, ao mesmo tempo, deixar o meu testemunho da vivacidade do debate e da riqueza das ideias de que tenho podido beneficiar ao longo destes dias.

Nesta sessão sobre culturas urbanas vou recuperar alguns pontos gerais sobre a cidade e a questão urbana como forma de me centrar numa dimensão particular - a prioridade do tempo instantâneo e o modo como torna difícil a cooperação cultural entre cidades – que, a meu ver, se revela hoje, talvez inesperadamente, uma variável determinante da cultura urbana e do exercício da cidadania na cidade. O meu objectivo é sustentar que talvez tenhamos que equacionar melhor e de forma mais criativa o potencial que, apesar dos obstáculos culturais que enfrenta,  a cooperação cultural pode trazer para a melhoria das condições de existência urbana e a construção de uma cidade feita de diversidade, justa e solidária. 

Desejo começar por assinalar o enorme e tão diverso conhecimento de que dispomos hoje sobre a cidade e a condição urbana.  Podemos dizer, que sabemos tudo ou quase tudo sobre a cidade contemporânea... Conhecemos bem, isto é, está hoje ao nosso dispor, uma bateria enorme de conhecimento acerca das principais variáveis urbanas, sejam socio-económicas e demográficas, sejam ambientais e arquitectónicas, sejam políticas e de governação, sejam mesmo estéticas e culturais. Dominamos um conjunto de instrumentos e técnicas de gestão e planeamento urbano, a começar sobre a história da cidade que parece dar garantias da qualidade futura da existência humana na cidade. Estamos, por isso, muito capacitados para saber quais os limites e quais as contradições da cidade de hoje. Além disso não tem faltado saber e imaginação na descoberta de facetas novas que as cidades vão revelando a cada passo.

Apesar deste incessante aumento do capital de conhecimento e de criatividade urbana, estamos longe de admitir que vivemos ou alcançaremos em breve o patamar de uma cidade idealizada como cidade justa, democrática, inclusiva, inteligível e, enfim, bela. Não admira, portanto, que apesar ou por causa do estádio avançado do conhecimento alcançado sobre a cidade e a sociedade, a questão que mais nos inquieta é a generalizada suspeita sobre se seremos ou não capazes de construir aquela cidade idealizada. Algo de essencial está em falta e admito que o que está em falta seja precisamente uma visão clara das condições em que podemos instaurar uma acção política efectiva e democrática de cooperação cultural intra e inter cidades.

Em vez de mobilizarmos todas as capacidades necessárias à construção da cidade justa e democrática do futuro, tornou-se fácil acusar a cidade de muitas insuficiências e malefícios sistémicos e civilizacionais. Ora nesta espécie de “acusação da vítima”, perdemos de vista muitos dos mecanismos que tornam a cidade objecto de perversas incoerências e incompletudes do projecto e das promessas da modernidade.

Permitam que assinale muito sinteticamente alguns dos processos de transformação global recente que exercem poderosos efeitos sobre a cidade. Assinalemos sumariamente apenas dois destes efeitos:

 - o primeiro diz respeito ao reconhecimento da cidade como entidade socio-política de escala intermédia (algures entre o estado-nação e a região, de um lado, e o local, ou  a pequena comunidade, de outro lado);

Começaria, portanto por chamar a vossa atenção para um conjunto de aspectos que sintetizam os principais traços da evolução económica que afectam os modos como a cidade é percepcionada e a vida urbana se modifica.

O que parece mais interessante fazer ressaltar deste enunciado é o facto de as cidades constituirem uma arena política intermédia de governação (um “perímetro” político algures entre o estado-nação e a localidade). Esta situação torna a cidade um terreno disputado politicamente, ao mesmo tempo que revela potenciais para o exercício da acção e da governação política que tem dado origem a experiências inovadoras de participação democrática.

- o segundo efeito é o de a cidade estar hoje sujeita a influências socio-culturais radicalmente novas que contribuem elas próprias para a renovação do nosso entendimento do que é a ultura urbana dos nossos dias

É  escusado afirmar que estas transformações, decorrentes da globalização do mundo e da economia actuais, provocam alterações profundas nos padrões de cultura e nos comportamentos dos indivíduos e grupos, nos diversos contextos urbanos.

No espaço desta comunicação darei uma atenção muito particular aos efeitos da “cultura da velocidade” que me parace condicionar muito particularmente todos os restantes factores enunciados, com destque particular para a retracção do espaço público urbano.

Esta ideia de cultura de velocidade, remete-nos para uma noção de tempo instantâneo que é uma sugestiva (ou provocatória) hipótese de o futuro se estar a dissolver no presente. Esta lógica imediatismo não permite reflectir sobre a cidade e a cultura do futuro, pois que sublinha o desejo de alcançar o futuro e de o transformarmos numa mera sucessão de agoras. Esta cultura da instantaneidade e da velocidade  tem vários efeitos, alguns dos quais se prendem directamente com a nossa reflexão sobre a cidade.

Uma primeira consequência é que o tempo objectivo e social da modernidade está dando lugar a temporalidades subjectivas e personalizadas. A segunda grande consequência trazida pelo tempo instantâneo é a desconfiança no futuro que significa que ninguém tem tempo para esperar e todos buscam a gratificação imediata dos seus actos. A terceira consequência é que os trajectos espacio-temporais dos sujeitos deixaram de estar sincronizados e articulados entre si, dando origem a uma acentuada variação entre os diferentes tempos individuais, na medida em que estes são cada vez menos organizados de forma colectiva, social, ou familiar.

Em termos gerais, esta fragmentação dos tempos dos sujeitos e dos seus trajectos é uma condicionante muito forte da acção de cooperação cultural que é preciso estimular como forma de promover a construção da cidade idealizada do futuro, tão diversa como solidária. Permitam-me que me detenha brevemente sobre três efeitos decorrentes desta cultura da instantaneidade sobre a lógica da cooperação cultuiral das cidades.

- Em primeiro lugar, perante a globalização dos mercados, a cultura da instantaneidade e da velocidade agudiza a concorrência entre cidades em vez de alimentar a cooperação entre elas. Em vez de redes organizadas de cidades em cooperação, esta cultura acentua e premeia a acção isolada e autónoma de cada cidade, em como meio de captação de recursos (investimentos, equipamentos e serviços) e de inserção em fluxos internacionais (mercadorias, pessoas) que organizam a economia globalizada. A ideia de uma “marca” ou “imagem” individual de cidade, com os benefícios que a retórica do marketing de cidades anuncia, pode ser determinante para o sucesso das cidades na concorrência económica, mas não o será para a construção de uma cidade inclusiva.

- Nesta linha de ideias, há um segundo sentido em que a cultura da velocidade e a fragmentação dos tempos dos sujeitos prejudica a cooperação cultural. Para o enunciarmos devemos ter em conta que a cooperação cultural da cidade não pode ser entendida apenas na relação de exterioridade de uma cidade com outra ou outras, mas é essencial que saiba promover da cooperação cultural endógena num quadro de diversidade sociocultural. Por outras palavras, promover da cooperação da cidade consigo mesma e com os seus diversos grupos e culturas. Quero dizer com isto que a lógica da concorrência inter-cidades que conduz à opção pela “construção” de uma imagem e uma identidade singular que seja competitiva no mercado global, é sempre construída a partir dos recursos e patrimónios locais mais atractivos e vendáveis, segundo uma lógica de mercado e não uma lógica de comunidade de interesses e patrimónios diversos. Ora na cidade da diversidade cultural como tendem a ser todas as cidades de hoje, a escolha de um património, ou recurso, ou grupo étnico, como emblemático, é sempre uma escolha política e culturalmente selectiva e, no limite, tende a produzir ou a reforçar a subalternização e a exclusão de outros grupos, patrimónios ou culturas alternativos. Em vez de solidária e inclusiva a cidade pode, por este via, tornar-se particularmente excludente e fragmentária.

- Por fim, o terceiro sentido em que é indiscutível a dificuldade da relação da cultura da instantaneidade com a cooperação cultural, tem a ver com a já referida desconfiança no futuro. Esta difícil relação resulta do paradoxal apelo que o tempo instantâneo faz ao passado e o respectivo culto da nostalgia que está hoje em todo o lado e não se confina a artefactos concretos, territórios específicos ou experiências ou acontecimentos localizados, como antes sucedia. A nostalgia de hoje está relacionada com todo e qualquer acontecimento, lugar ou artefacto antigo. Podem mesmo ser bairros e cidades inteiras que pretendem ser  tratadas como históricas ou patrimoniais e antigas, como forma de serem reconhecidas e se modernizarem. Basta que pensemos que nunca as ruínas milenares ou os vestígios de uma velha fábrica estiveram tão na moda  e receberam tanta atenção por parte das políticas patrimonialistas nacionais ou regionais, ou dos agentes do “espectáculo de luz e som” e da esteticização urbana. Nunca os monumentos do passado foram tão cativantes e estilizados, nem os museus tão interactivos e publicitados.

Esta situação tem dado origem a um crescimento inusitado de uma espécie de indústria ou manufactura institucionalizada da produção/preservação de património. Alguns países, regiões ou prefeituras investem recursos avultados na “patrimonialização” dos seus vestígios da história e mostram-se desejosos de os verem transformados em símbolos da humanidade e/ou também artefactos turísticos. Sem contestar esta política de consagração do objecto patrimonial, uitas vezes selectiva e elitista, gostaria de assinalar a necessidade de se promover uma outra acção alter-patrimonialista do património sociocultural e histórico das cidades. Desejo sustentar que uma cooperação cultural para a cidade do futuro deve ser capaz de consagrar o património, seja na forma de “anti-monumento” ou  “anti-museu”, que resulta da acção social e da história popular que não representa nem celebra o poder hegemónico instituído, mas que, ao contrário, representa, materializa e preserva o quotidiano popular dos grupos sociais subalternizados.

Aproximo-me, assim, do final desta comunicação. Com a referência aos três sentidos que acabo de enunciar da relação entre tempo instantâneo e cooperação cultural procurei sintetizar alguns dos desafios que teremos que enfrentar para a construção cultural e politicamente sustentada de uma cidade justa e democrática. Esses desafios decorrem da acção da globalização que fomenta a concorrência e não a cooperação entre cidades. Prolonga-se, depois, pela política de radicalização das diferenças no seio da própria cidade, em vez de promover a inclusão da e na diversidade. Por fim, estende-se pela “patrimonialização” hegemónica da cultura e do tempo histórico, a que é necessário contrapor uma alternativa.

Insisto, a terminar, portanto, na necessidade de se admitir que talvez seja a política e a acção da cooperação cultural aquilo que nos falta ensaiar com mais ousadia e criatividade de modo a sustentar uma condição humana renovada nas cidades de hoje e de amanhã. Muito de nós, e ouvimos isso ser dito por diversas vezes neste Encontro, não temos ainda uma ideia sólida e definitiva de como forjar e instituir esta cooperação. Parece que afinal sabemos muito sobre as cidades, mas pouco sobre a cooperação cultural. Quando é assim, não é no saber que temos que nos refugiar em busca de respopstas e soluções. É, ao contrário, na ousadia, na criatividade e na imaginação da acção (de cooperação).


Notas

Carlos Fortuna (*)

Catedrático de Sociologia na Universidade de Coimbra,
Membro do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Univ. de Coimbra. Coordenador do Núcleo de Estudos sobre Cidades e Cultura Urbana do Centro de Estudos Sociais
(http://www.ces.fe.uc.pt/nucleos/cidades/cidades.php).

Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Economia da Univ. De Coimbra. É membro do Comité Executivo da Associação Internacional de Sociologia (2002-2006). As suas principais áreas de interesse e trabalho são as culturas urbanas, o turismo cultural e os patrimónios histórico-culturais das cidades.  É autor de vários livros sobre cultura e espaços urbanos, entre os quais: Projecto e Circunstância: Consumos culturais em algumas cidades europeias (2002);> Cidade, Cultura e Globalização: Ensaios de Sociologia (org.) (1997 – 2ª ed. 2002);  Cultura, Comércio e Corpo (2002); Identidades, Percursos e Paisagens Culturais (1999 - esgotado)